Crônica – um gênero híbrido

Por Juarez Donizete Ambires* | Foto: Shutterstock | Adaptação web Caroline Svitras

A crônica, tal como a conhecemos, é produto datado no tempo. Ela pertence a uma cronologia específica que é o século XIX. É preciso ainda que a filiemos à cultura burguesa em ascensão. Na extensão dos fatos, ela – a crônica – é, em reflexo, afirmação de uma estrutura de valores que quer destacar suas marcas. Nesta perspectiva, será moldada sob dados preceitos, o que a leva, entre outros fatos, a ser oposição à cultura antecedente. Com isto, a crônica com a qual lidamos tornou-se, de algum modo e sem exageros, negação histórica. O fato negado a que nos referimos é o antigo regime, estrutura que também reverencia cronos – o tempo –, mas sob outra perspectiva.

 

Deste modo, a crônica antecedente é o relato histórico. Diga-se, contudo, que, nesta perspectiva, ela não se iguala à ciência histórica. Não se perca de vista que esta (tal como as demais ciências) é produto do século XIX, confirmação da Modernidade. A crônica do antigo regime é tradição firmada no Humanismo. O seu texto se ocupa do relato dos grandes feitos. Ela é regicida ou nos remete a um tempo no qual o rei é o centro da estrutura social. A este rei ninguém é superior. A bem da verdade, depois dele poucos são os que detêm a prerrogativa de personagem histórico. A gente comum ou a do terceiro estado – a maioria da população – não conta com este mérito ou merecimento.

 

Lembremos que o rei rege, que ele é o centro da realeza, do que é real, do que de fato realmente existe, na força expressiva do étimo. Desta sorte, a crônica aqui referida jamais seria expressão do ideário burguês. Entende-se, assim, o apego da burguesia vencedora à República ou, no máximo da condescendência, à Monarquia constitucional. As novas formas de governo são posturas que atacam a realeza do rei, promovendo um esvaziamento semântico, mas também de valores sociais. No tempo burguês, não há lugar para o absoluto. O rei é mais um cidadão. Este é o maior dos títulos na nova mentalidade, tendo-se por referência a França posterior à Revolução.

 

O gênero crônica

 

Na nova era, em tese a constituição rege a tudo e a todos; nela, o rei é regido. Entende-se, com isto, a mudança no conceitual de crônica. A que agora se tem é um novo gênero. Ela se desvincula do escriptorium do cronista, da ambiência palaciana. Quem a escreve não é mais o erudito ou humanista oficiado cronista-mor do reino. Seus conteúdos vão dar adeus aos gestos de coragem e façanha de uma classe que encontra na guerra a nobilitação. Os homens desta lógica têm parentesco com a épica. Trazem consigo o amor da glória, da façanha. Vários representam a etiqueta, a arte da conversação e uma consciência apurada de classe.São, em palavra última, os discretos.

 

Já os supostos novos homens, não. O burguês perde-se nas sombras do cotidiano. Ele se opõe naturalmente ao grandioso e ao eloquente.Sua etiqueta é duvidosa. Ele ama e busca a vida privada. Sua casa é o centro físico de sua existência. Seu modelo familiar privilegia o afeto, a infância e torna o cão um animal doméstico. Nesta estrutura, os pais vivem em função dos filhos. A nobilitação social está nisto. Neste modelo, o pai é, com o seu trabalho, o provedor. Já à mãe cabe o mister de rainha do lar, distribuindo afetos, aparando arestas, lendo prosa de folhetim. Ela e seu marido realmente representam uma nova lógica e a crônica burguesa se filia a este padrão.

 

Devido a estes fatos, lembremos que a nova crônica é a expressão do cotidiano e suas miudezas. Em seu interior, tudo é alçado à condição de matéria, assunto. O trivial a frequenta, sem que isto ofenda susceptibilidades. Na sociedade em questão, a crônica se reestruturou para isto. Não sem razão de ser, nos novos tempos o seu veículo de comunicação é o jornal. Por isto, a crônica passa a ser “o que se edita todos os dias”. Deste modo, ela já nasce com o seu prazo de validade estipulado. Seu esplendor cabe em um dia e nada mais além disto. Assim, sua orientação é a do efêmero e não, obviamente, a dos feitos de reis, aos quais não ficava bem a modéstia.

 

Com o fato, a nova crônica se filia ao jornal, como também ao imediatismo burguês do hoje. O novo padrão é pragmático. Para ele, tempo é dinheiro, entendendo-se com isto que a sua crônica não tenha nascido para ser recortada e guardada ou se perpetuar. As atitudes diferentes representam subversão à nova ordem de coisas. Como já dissemos, outra é a dinâmica que impôs a renovação dos sentidos da crônica, pois outros são os tempos. Nesta correlação, vale também lembrar que, obviamente à crônica burguesa não cabe a impressão em livro. Ela é posse do mundo urbano e do papel ruim do noticiário. Qualquer atitude contrária é ato estranho, não predeterminado.

Crônicas em sala de aula

 

Ela, entretanto, é filha de um mundo de leitores e gosta da letra impressa. Ao livro, contudo, pertencem o conto, a novela, o romance – gêneros puros, literários de fato e, por isto, maiores, segundo a convenção. A crônica moderna é um gênero híbrido e menor; é somente prima distante dos elevados. Ela está no jornal e, nele, começa a anunciar o literário. Ela vislumbra o literário, mas seu veículo é o periódico. Eis a causa de sua classificação. Por esta circunstância, irmãos da mesma crônica seriam as memórias, o diário, a carta. Eles também são gêneros do circuito letrado do século XIX e dialogam, em muitas de suas essências, com a irmã que está nos jornais.

 

A linguagem da crônica é simples, desobstruída. O período curto e a ordem direta são características suas. Assim, ela prima pelo acessível, promove a descontração, o ligeiro, sem, na aparência (e só na aparência), maiores responsabilidades.

 

O universo da crônica pede este procedimento. O Olavo Bilac parnasiano, para exemplo, desaparece nas crônicas que o autor escreve. Nelas, como que há um escritor de outra filiação. Na prosa, nada do estilo distante, do vocabulário precioso. Particularmente, nada da ausência de vínculos com a realidade circundante, nada do processo de descrição de objetos, buscando como que pintar naturezas-mortas.

 

O tom do cronista é diferente. Ele tende, ao afável, ao leve, à aproximação. Ele dá a si o direito de chamar à cena muitos assuntos. O trato a eles dispensado, entretanto, é de superfície. O texto da nova crônica tem de ser pequeno. O folhetim do jornal o exige. Agravando o fato, no mesmo folhetim, ela muita vez não se encontra sozinha. Seu espaço é partilhado com capítulos de romances e novelas nacionais ou estrangeiros traduzidos. Por isto, na crônica não há espaço para a defesa de teses. É assim que ela se representa. O fato, contudo, não impediu que entre nós surgissem grandes cronistas. Já em nosso século XIX, nós os temos e na condição de mestres do gênero.

 

Foto: Alexandre Jubran

 

Em nossa leitura, José de Alencar e Machado de Assis são os exemplos máximos desta peculiaridade naquela cronologia. Ainda em vida dos autores, suas crônicas excedem o universo do jornal, chegando a publicação em livro. Alfarrábio (1873) e Ao correr da pena (1874) são os nomes dados às compilações de crônicas de Alencar. Já Bons dias e A Semana são designações que encerram conjuntos de crônicas machadianas e, na atualidade, vários são os estudiosos que as buscam. Elas se tornaram matéria de grande interesse. As de Machado de Assis mais particularmente voltaram com destaque à pauta. Os leitores do presente se impressionam com o texto e sua argúcia.

 

Devido ao fato, as referências ao cronista questionam o determinante híbrido que classifica o gênero. A importância que o tempo empresta às crônicas machadianas leva um descrédito ao adjetivo. De menor as crônicas do autor nada têm. A apreensão do estilo e o conhecimento do contexto histórico no qual foram geradas levam ao diagnóstico de que têm grande valor. Estudando-as, saímos com a certeza de que são textos de importância. As crônicas de Bons dias, para exemplo, são imprescindíveis para que conheçamos em detalhes a ambiência da Abolição e a da Proclamação da República. A sociedade que cedia estes fatos está nelas. O Machado de inspiração política e social, também.

 

Com os autores citados, a crônica passeia pela cidade. Com ela, o cronista percorre a corte e sua elegância, mas também o periférico urbano e seus problemas. Agindo assim, a crônica se torna um veículo democrático, quando não de denúncia e revolta contra abusos. Por meio dela, espraia-se um tom de fraternidade mais que necessário à vivência em sociedade que, quando não policiada, abre-se à hipocrisia. No caso brasileiro, também encontramos na retratação efetuada o olhar ora bem humorado, ora em leve melancolia, mas sempre crítico. Em seus textos, os cronistas se posicionam e seus pontos de vista estão, várias vezes, muito próximos do que pensam os autores.

 

Curiosamente e todavia, quem pratica a crônica também produz os gêneros tidos e havidos por maiores. Neste sentido, até Rubem Braga não houve entre nós literato que se fizesse apenas pela crônica. Segundo as convenções, isto seria impossível. Braga e sua literatura representam, no caso, a maior exceção e a grande incongruência. Seu texto é expressão de força. Ousamos dizer que o trabalho deste cronista é a mais expressiva subversão que o gênero já conheceu. Com ele, a crônica e o seu tom fazem-se filosofia de vida. Sua leveza se dá no resgate das coisas e fatos do cotidiano. A vida retratada em seus instantâneos é boa de ser vivida, é simples, lírica, necessária.

 

E nesse trabalho competente, Rubem Braga não está sozinho. Em nosso século XX, muitos são os cronistas de valor. O Movimento Modernista e sua sucessão, para exemplo, desencadeiam grande interesse pela crônica. Chega-se a dizer que, na temporalidade da crônica moderna, eles são os períodos mais felizes que o gênero já alcançou entre nós. O quadro em referência é composto por figuras como as de Carlos Drummond de Andrade e Mário de Andrade. Já como seus herdeiros diretos aparecem vários nomes de excelência. Assim é que Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos, Otto Lara Resende e outros passam a representar muitíssimo bem o gênero. São, por isto, precioso convite a que nos perpetuemos na leitura da crônica, o híbrido mais controverso e envolvente já produzido.

 

*Juarez Donizete Ambires é professor de Língua e Literatura Portuguesas no Centro Universitário Fundação Santo André. Contato: juarez.ambires@bol.com.br