Crônica “A culpa é da televisão”

Por Rita Cassia Milharci Castellucci* | Foto: Shutterstock | Adaptação web Caroline Svitras

Estamos no período da tarde, vamos dar uma parada nos nossos afazeres domésticos, sentar no sofá e ligar a televisão. Não é um hábito saudável, mas não podemos negar que é incontrolável o poder que a telinha exerce sobre nós. Pegamos o controle remoto e, aleatoriamente, buscamos algo para assistir. Para quem possui TV a cabo, dependendo do pacote, as opções são inúmeras; porém, aos que possuem apenas os canais da TV aberta, o mais certo é desligá-la e dormir – bem mais produtivo e reconfortante. Melhor mesmo seria ler um bom romance, mas a preguiça e a curiosidade acabam forçando-nos, muitas vezes, a continuar navegando pelos programas vespertinos.

 

O que encontramos? Um circo de horrores – reprises, tragédias familiares, fofocas, propagandas durante e fora do conteúdo dos programas etc. etc. E por falar em conteúdo, se assim podemos chamar o que é apresentado nestes programas, ou nos fartamos com as receitas apresentadas, ou caímos em depressão porque não temos aquele corpo escultural (anoréxico) das atrizes, das modelos, das celebridades! Sim, temos celebridades criadas a partir das mais variadas origens.

 

E para chegar lá? Como ter aquele corpo magnífico? Sem gordura alguma!?

 

Somos bombardeados por um sem número de chás, sucos detox, produtos naturais, aparelhos, dicas, orientações, rezas, patuás, livros, dietas milagrosas. E não se esqueça de contar as calorias! Tudo em nome da boa forma e da vida saudável. Enquanto assistimos a uma reportagem sobre a epidemia da obesidade em um canal, no outro encontramos a propaganda sobre um aparelho para ginástica, em outro um shake, no outro um chá e em outro uma receita de dar água na boca. Lembrem-se – eu disse que seria melhor ler um bom livro.

 

Além disso, temos os apresentadores e seus convidados que ficam procurando sinais de celulite nas pernas das modelos que desfilam de maiôs ou lingeries ou alguma gordurinha localizada; na contramão mostram aquelas barrigas saradas, aqueles corpos esculturais que, na maioria das vezes, embora elas neguem veementemente, foi esculpido pelas mãos de um bom cirurgião plástico. Para matar de uma vez os telespectadores ainda existem as competições entre gordos a fim de ver quem consegue atingir suas metas de emagrecimento. Ou então mostram o martírio de pessoas obesas no calvário até conseguir passar por uma cirurgia de redução de estômago. Tudo muito estimulante. Depois de assistir a todas estas agressões televisivas, o que você sente vontade de fazer? Isso mesmo – comer. Comer de raiva e desespero. Comer para suprir sua carência, não de comida, mas por se sentir um pecador, um monstro. Olhamos no espelho e nos perguntamos: como cheguei até aqui? O que fiz com meu corpo? Para amenizar um pouco nossa culpa, chegaram à conclusão de que obesidade é uma doença. Pelo menos não poderemos ser tachados de preguiçosos, acomodados e relaxados. Ainda temos a esperança de que algum dia, um grande cientista descobrirá o remédio certo para curar este grande mal.

 

Para sairmos desta depressão momentânea, vamos ao shopping. Nada melhor do que algumas comprinhas para aliviar. Queremos alguma coisa bonita para cobrir este nosso grande pecado. Paramos em uma vitrine, vemos um vestido maravilhoso, entramos já notando que a atendente nos olha se questionando: “o que esta gorda pretende comprar aqui?”. Você pede seu número e ela, sarcasticamente, responde: “é tamanho único”. Para ajudar, ao sair da loja você encontra uma “amiga” que não via há um certo tempo e ela lhe diz: “Nossa! Você está linda de rosto!” Traduzindo: seu corpo está indescritivelmente feio. O que você faz? Vai para casa, liga a televisão com um belo tablete de chocolate nas mãos. Pelo menos compre um suíço ou belga. Seu corpo merece!

 

Revista Conhecimento Prático – Literatura Ed. 59

Adaptado do texto “A culpa é da televisão”

*Professora Rita Cassia Milharci Castellucci, formada em letras pela Fundação Santo André e inglês pela Cultura Inglesa e União Cultural Brasil Estados Unidos. Especialização em língua portuguesa pela UNICAMP. Professora de língua portuguesa na Rede Estadual, e de inglês tanto na escola pública quanto na particular. É membro da diretoria de duas ONGs para excepcionais.