Criando aulas memoráveis

Por Luzdalva S. Magi* com colaboração de Professor Devanir Magi** | Foto: Shutterstock |
Adaptação web Caroline Svitras

 

Trabalhar na rede pública exige paciência, dedicação e, sobretudo idealismo. A defasagem de conteúdo dos alunos, os vários problemas sociais e familiares, o parco acesso à cultura, tudo isso depõe contra o trabalho do professor, considerado culpado por entraves que, na realidade, busca solucionar. Ainda assim existem aqueles que conseguem criar métodos lúdicos e interessantes que prendam a atenção do aluno e façam com que as aulas sejam interativas e funcionem como troca de conhecimento entre docente e discente. A visão de que o aluno também carrega em si uma bagagem cultural facilita esse mecanismo interativo, pois torna a aprendizagem não uma via de mão única, mas a doação de experiência e o recebimento daquilo que a criança e o adolescente podem oferecer.

 

O professor Devanir Magi, graduado em História e Filosofia, encontrou uma forma de fazer com que seus alunos do ensino fundamental e do ensino médio da escola Professora Ondina Rivera e Cintra, que fica em Santo André (ABC Paulista) aprendessem imaginando. Ele incorporou às aulas de História o hábito de sempre contar uma história nos primeiros minutos da aula, interrompendo a narrativa em um ponto interessante, deixando seus alunos com “gosto de quero mais”, criando sabiamente a expectativa pelo próximo encontro em classe. Em vez das famosas “Mil e uma Noites” o professor de História adaptou para “Mil e uma Tardes” e assim, além de prender a atenção de seus alunos, desenvolveu a curiosidade, a interpretação de possibilidades e o positivo desejo da próxima aula o que fez com que as faltas também diminuíssem.

 

Utilizar a imaginação e a criatividade como instrumento de trabalho depende do amor pela profissão e da consciência de que a criança e o adolescente necessitam de estímulos para que desenvolvam suas competências e habilidades, voltar a ser criança com eles, enxergar a vida do ponto de vista deles sem perder a autoridade e o caráter de orientador no processo de descobrimento das coisas. Com os percalços pelos quais a Educação vem passando, os professores perdem tal e qual os alunos o prazer da interação e da cumplicidade no processo de aprendizagem, é aí que entra a visão do jovem como um ser em formação, que precisa de amparo em seu caminho cognitivo, nesse momento é prioritário que se faça uma trégua e que se entenda que todas as dificuldades são produto de décadas de equívocos em se tratando de educação pública.

 

Desperte o interesse dos alunos

 

O professor Devanir, no entanto, não se limitou, resolveu ir além e teve a brilhante ideia de “cutucar “a imaginação de seus alunos – apresentou o filme Carlota Joaquina e após a exibição, propôs que eles elaborassem um “Diário de Bordo” narrando a vinda da Família Real para o Brasil como se eles fizessem parte da tripulação e o resultado foi brilhante, cada relato ressaltou uma peculiaridade da viagem, cada impressão causada se transformou em um texto literário e verossimilhante. Até os alunos com problemas ortográficos e que não possuíam domínio total dos elementos linguísticos conseguiram se expressar de forma satisfatória. Devanir segue como o mestre do livro O Mundo de Sofia, magicamente inventando a aprendizagem e, como o professor idealizado pelo autor do livro Jostein Gaarder, transforma o pano de fundo da história em algo real, transporta os fatos para a realidade vivida e por meio da imaginação transporta seus alunos para o contexto da época estudada e os faz vivenciar ainda que de forma imaginativa os acontecimentos históricos.

 

Diante da tamanha determinação, sagacidade e profissionalismo do professor Devanir, todas as dificuldades são minimizadas, não desaparecem, mas atrapalham menos o que possibilita que jovens ampliem seus horizontes de conhecimento, que entendam o mundo e as diferenças existentes nele como algo palpável e que se coloquem dentro do rio da história como força participativa e transformadora para que os dias futuros sejam melhores e não produto de pessoas que se postam às margens do rio da história como meros observadores. Buscar formas, abordagens e metodologias inovadoras implica na formação de uma sociedade melhor, com mais possibilidades de acerto e para que isso se configure é necessário alimentar a base, regar as pequenas mudas para que os frutos venham com qualidade e as sementes tragam uma continuidade profícua e melhor.

 

 

*Luzdalva S. Magi, formada em Letras pelo Centro Universitário Fundação Santo André (FSA), é professora de Língua Portuguesa, de Língua Inglesa, de Língua Francesa e suas Literaturas, de Técnicas de Redação e Análise do Discurso é também de Crítica Literária. Trabalha na Rede Particular e Municipal da cidade de Santo André, no ABC.

** Devanir Magi é formado em História pelo Centro Universitário Fundação Santo André (FSA) e em Filosofia pela Universidade Metropolitana de Santos (UNIMES). Possui curso de editoração de Quadrinhos e Análise do Discurso nas HQs pela ECA (USP). Leciona na rede pública estadual.

Adaptado do texto “Despertando habilidades e competências por meio da imaginação”

Revista Conhecimento Prático – Literatura Ed. 55