Contos de Machado de Assis

Por Leo Ricino* | Adaptação web Caroline Svitras

Fantástico! Árvores paquistanesas cobertas por teias de aranha.

 

Introdução

A coletânea de contos machadianos Papéis Avulsos foi publicada em 1882, um ano após o livro que marcaria uma nova rota machadiana e introduziria o Realismo no Brasil: Memórias Póstumas de Brás Cubas. Como – infelizmente, agora constato – nem sempre leio as histórias no volume de contos das obras completas de Machado de Assis, da Editora Aguilar, 1962, até para preservá-lo, acabou escapando-me, no artigo publicado na edição nº 43 desta Revista, uma ótima observação que o próprio Machado de Assis fez sobre O segredo do Bonzo. Apesar de aqui se tratar de outro conto, peço vênia para transcrever a citada observação de Machado de Assis, que está nas páginas 364/5 da obra completa, nas Notas que encerram ‘Papéis Avulsos’’:

 

“ O Bonzo do meu escrito chama-se Pomada, e pomadistas os seus sectários. Pomada e pomadista são locuções familiares da nossa terra: é o nome local do charlatão e do charlatanismo.”

 

A trama de O segredo do Bonzo é uma insofismável expressão do charlatanismo praticado contra a crença ingênua dos crédulos prosélitos extáticos que ouviam os convincentes oradores.

 

Machado de Assis | Foto: Conhecimento Prático Literatura Ed. 58

 

Agora retomemos A sereníssima república. Papéis Avulsos começa com O Alienista, com certeza um dos mais longos contos machadianos. E nessa coletânea há também outras obras-primas do conto brasileiro, como Teoria do Medalhão, O segredo do Bonzo e O Espelho, para citar apenas três das já analisadas aqui nas páginas de nossa Revista.

 

A sereníssima república é mais um dos contos em que Machado de Assis explora pseudoteorias científicas, que pululam em contos e romances na literatura da época realista/naturalista, com a criação de personagens cientistas que elaboram teorias no mínimo fantásticas, para não dizer nonsense. Uma das falas do cônego Vargas no conto diz bem dessa aversão às falsas teorias da época:

 

“Citando Darwin e Büchner, é claro que me restrinjo à homenagem cabida a dois sábios de primeira ordem, sem de nenhum modo absolver (e as minhas vestes o proclamam) as teorias gratuitas e errôneas do materialismo.”

(p. 341)

 

E o amor à ciência falou mais alto: trata-se de um cônego, padre secular pertencente, pois, a um cabido, prestando cabidas homenagens a Darwin, autor da teoria da evolução, oposta à teoria do criacionismo, defendida ferrenhamente pela Igreja na época, e a Ludwig Büchner, outro forte defensor das ideias de Darwin. E quando o cônego Vargas diz “e as minhas vestes o proclamam”, está se referindo à sua condição de crédulo religioso engajado, convicto e, como tal, fiel aliado da Igreja e ingente combatente das falsas teorias que contrariavam os dogmas e as teorias dela. Honesto, no entanto, aceita a teoria da evolução, por julgá-la séria e realmente científica.

Para se ter ideia…
“Alegoria da República”, quadro de Manuel Lopes Rodrigues, acervo do Museu de Arte da Bahia.

A sereníssima república narra a história de uma descoberta científica, algo fantástico: uma colônia de aranhas tentando organizar-se democraticamente como uma república. Trata-se de uma palestra proferida pelo cônego Vargas, reivindicando a primazia da interação homem-inseto para a ciência brasileira. O jornal O Globo publicara que um cientista inglês conseguiu contato fônico com moscas, o que ocasionou a urgência da palestra do cônego, mostrando que, bem antes do inglês e com mais profundidade, cabia a ele e à ciência brasileira tal feito. Querendo evitar que essa nova e miraculosa descoberta fosse atribuída indevidamente a outrem, faz menção a um invento brasileiro usurpado por nomes estrangeiros e afirma, peremptório:

 

“Sendo certo, porém, que pela navegação aérea, invento do Padre Bartolomeu, é glorificado o nome estrangeiro, enquanto o do nosso patrício mal se pode dizer lembrado dos seus naturais, determinei evitar a sorte do insigne Voador, vindo a esta tribuna proclamar alto e bom som, à face do universo, que muito antes daquele sábio e fora das ilhas britânicas, um modesto naturalista descobriu cousa idêntica e fez com ela obra superior.” (p. 340)

 

E discorre minuciosamente para a atenta plateia toda a sua descoberta. Ele, cônego Vargas, que conseguiu captar e gramaticar a língua de uma espécie de araneída (para usar a palavra que está no conto), enfatiza como tentou organizar essa colônia de aranhas numa república. O conto merece leituras e releituras, porque, escrito alguns anos antes da própria proclamação da nossa República, continua atualíssimo, no relato dos meandros dos bastidores da política e do poder.

 

O sermão do diabo

 

 

O enredamento político

Corrupto
Do latim: corrūptus,a,um ‘corrompido, estragado, subornado, seduzido’, part. pas. de corrumpĕre ‘destruir, estragar, corromper’.

 

A sereníssima república é uma espécie de conto-fábula, designação que, sabemos, não existe como classificação literária oficial. Os protagonistas são aranhas corruptas, e a trama, como nas fábulas, é uma inquestionável alegoria das próprias ações humanas, a tal ponto que, ao descrever as características daquelas aranhas, o narrador diz:

 

“A aranha, senhores, não nos aflige nem defrauda; apanha moscas, nossas inimigas, fia, tece, trabalha e morre. Que melhor exemplo de paciência, de ordem, de previsão, de respeito e de humanidade?” (p. 340)

Veja compreensão de um especialista sobre o conto “A igreja do Diabo”

 

O resto da história desmente essa afirmação enfática do cônego, pois são outras as características das aranhas (tão humanas também) que se arvoram quando entra em jogo a disputa pelo poder e pelos cargos que constituiriam a nova e “sereníssima” república. E também não foi por acaso a escolha das aranhas como personagens dessa verdadeira fábula. Há indissociável relação metafórica entre as teias e o enredamento político em todos os níveis de disputa pela hegemonia administrativa nessa república do conto. A luta pelo poder é emaranhada por uma teia inextricável que encadeia uma intensa malha de corrupção e corruptos, levando, fabulisticamente, a uma moral de história lamentável: é ingênuo quem acredita que as teias da corrupção tenham solução.

 

A cada fraude, busca-se uma nova maneira de extirpá-la e nunca há um caminho para se punirem os corruptos, por causa dos mais esdrúxulos arranjos jurídicos. E a impunidade abre portas para novas e outras mais novas fraudes e corrupções. A mente privilegiada e a ousadia dos corruptos acham facilmente esses novos caminhos para burlar a comunidade, e a lei, via de regra modorrenta, busca outra solução, antigas formas são restauradas, a tal ponto que… se esgotam as possibilidades de desenlace anticorrupção. É um círculo de fraudadores e corruptos sem qualquer punição real, pois todos se entendem como parceiros e se protegem, numa verdadeira ação entre amigos.

 

 

Autointertextualidade

O cônego Vargas deduz que, como ele falasse a língua daquelas aranhas, pela sua estatura e pelas suas vestes talares, as aranhas devem ter chegado à conclusão de que ele era o deus criador delas:

 

“A minha estatura, as vestes talares, o uso do mesmo idioma fizeram-lhes crer que era eu o deus das aranhas, e desde então adoraram-me.” (p.99)

 

E – agora já é dedução minha – respeitando-o como tal, nem por isso as aranhas deixavam de agir à semelhança dos humanos (no caso, aqui, refiro-me exclusivamente aos humanos da república brasileira), que também reconhecem Deus, mas… no campo da corrupção movem ardilosamente seus pauzinhos.

 

Senhora, de José de Alencar

 

Tal atitude já ocorrera com a borboleta preta do capítulo XXXI de Memórias Póstumas de Brás Cubas, passagem que transcrevo aqui na íntegra:

 

“Passa pela minha janela, entra e dá comigo. Suponho que nunca tenha visto um homem; não sabia, portanto, o que era o homem; descreveu infinitas voltas em torno do meu corpo e viu que me movia, que tinha olhos, braços, pernas, um ar divino, uma estatura colossal. Então, disse consigo: ‘Este é provavelmente o inventor das borboletas’.” (p.550)

 

Até a ‘estatura colossal’ é semelhante. E dois anos depois da publicação de Papéis Avulsos, viria a lume Histórias sem data, 1884, no qual está o Conto Alexandrino, outro texto machadiano que aborda a criação de pseudoteorias científicas.

 

 

Nessa história, as aranhas também ganham a característica de geômetras, de sensíveis a música (em A sereníssima república, o narrador nos chama a atenção de que as flautas muito sensibilizam os aracnídeos) e sábias, ao contrário do vulgo que julgava que tal mérito cabia às corujas:

 

“ – Não; a coruja é apenas um emblema; mas a aranha, se pudéssemos transferi-la a um homem, daria a esse homem os rudimentos da geometria e o sentimento musical.” (p.411)

 

O conto nasce do profundo conhecimento que Machado de Assis tinha de obras clássicas, dentre elas a ‘Utopia’, de Thomas Morus, e a ‘Cidade do Sol’, de Tommaso Campanela, ambas citadas na trama:

 

“Não direi, senhores, que a obra chegou à perfeição, nem que lá chegue tão cedo. Os meus pupilos não são os solários de Campanela ou os utopistas de Morus; formam um povo recente, que não pode trepar de um salto ao cume das nações seculares.” (p. 342)

 

As duas obras referem-se à criação de sociedades perfeitas, com todos trabalhando, diminuindo, pois, o trabalho individual, sem propriedades, para que ninguém, por egoísmo, tente aproveitar-se de situações que o favoreçam e outras ideias igualitárias, socialistas. A ‘Utopia’ ou o ‘Tratado da melhor forma de governo’, de 1516, de fato é uma crítica aos governos dos vários países, que permitiam desigualdade social, opressão política e religiosa, imposições aristocráticas, o mercantilismo calcado no lucro, etc. Na ‘Utopia’, que significa “o não lugar”, ou seja, algo que não existe, tudo é diferente, há solidariedade, dignidade, respeito, coletividade, o governo é democrático e justo, em outras palavras, um socialismo político, econômico e religioso. Algo utópico, pois.

 

O filósofo, teólogo dominicano e poeta renascentista Giovanni Domenico Campanella (Itália, 1568 – França, 1639) dedicou-se desde jovem aos estudos de filosofia. Afirmava que as ciências tratavam as coisas como elas são, cabendo à filosofia (e, em especial, à metafísica) explicar o sentido profundo das coisas. Deixou uma vasta obra que abrange temas diversos, dentre eles: gramática, retórica, teologia, política, filosofia, medicina.

Em 1602, surge outra obra com o mesmo viés socialista: ‘A Cidade do Sol’, do italiano Tommaso Campanela. Esse monge, ao contrário de Morus, cuja obra, como se disse, era uma crítica aos governos da época, acreditava mesmo na possibilidade de um mundo ideal, sob a égide do Cristianismo, para o qual todos se converteriam, e a sociedade dirigida pelo Grande Metafísico Hoh, assessorado pelos triúnviros Pon (potência), Sin (sabedoria) e Mor (amor). Sua ilha é tão fantástica quanto a da ‘Utopia’. Nela, na cidade do sol, navios atracavam sem velas ou remos (o narrador, que é um Almirante viajante, não cita, mas isso sugere que havia motor), havia máquinas voadoras sobre a ilha, as pessoas só trabalhavam quatro horas por dia e tinham tempo para lazer, ler, dialogar, divertir-se, fazer sexo (o sexo era totalmente livre a partir dos 19 anos, mas sob o controle e a supervisão do magistrado Mor, do amor), etc., ou seja, um verdadeiro paraíso, um mundo ideal, utópico, nunca realizado.

 

A Cidade do Sol, daí seus habitantes serem chamados de solários ou solarianos, teve como fonte inspiradora a República, de Platão, e a ‘Utopia’, de Thomas Morus. ‘A sereníssima república ‘ também seria a república ideal, mas suas teias políticas mostraram que o ideal não passa de utopia, pois as aranhas-cidadãs não conseguem chegar a nenhum acordo que beneficie a coletividade. O individualismo (e com ele, naturalmente, o egoísmo) fala mais alto.

 

Mitologia

“Quem comete uma injustiça
é sempre mais infeliz do que
o injustiçado.”

 

Platão

O que há de semelhante entre Campanela, Erasmo de Roterdã e o narrador de ‘A sereníssima república ’? Os dois primeiros tinham uma visão de que a coletividade era a ‘bola da vez’ para a Humanidade, banindo-se o individualismo. Ambos aceitavam o Catolicismo – embora Erasmo fosse teísta fervoroso e sua verdadeira religião se chamasse Humanidade – como a força espiritual que poderia garantir essa hegemonia socialista.

 

Ora, o cônego Vargas, narrador do conto machadiano, personagem honesto e imparcial, também é crente fervoroso do Cristianismo e das teorias científicas sérias. É curioso que o cônego tenha encerrado ‘A sereníssima república ’ com “um dos mais circunspectos cidadãos da minha república, Erasmus, cujo último discurso sinto não poder dar-vos integralmente”. É esse Erasmus que dialoga com as dez damas tecedeiras “incumbidas de urdir o saco eleitoral…”. Em outras palavras, o saco da democracia verdadeiramente socialista e cristã, como aparece em ‘A Cidade do Sol’, de Campanela, e nas ideias de Erasmo.

 

Considerado um dos grandes humanistas do Renascimento, Thomas Morus (Inglaterra, 1478 – julho, 1535) foi um homem de estado, diplomata, escritor, advogado e homem de leis que ocupou vários cargos públicos de destaque. Foi canonizado santo pela Igreja Católica em 19 de maio de 1935.

 

E com esse diálogo, que mostra que as aranhas não só falavam, como também conheciam a história e a literatura da Humanidade, Erasmus introduz a figura mitológica de Penélope.

 

Penélope era a esposa de Ulisses e rainha de Ítaca, cujo reino lhe foi confiado pelo marido quando esse partiu para a longa guerra de Troia. Ulisses solicita a ela que, caso ele não voltasse, ela só se casasse quando o filho deles, Telêmaco, deixasse de ser imberbe.

Erasmo de Roterdão (Roterdã, Países Baixos, 1466 – Basileia, Antiga Confederação Helvética, 1536) foi um teólogo e humanista à frente de sua época. Erasmo optou por uma vida independente – independente de país, de laços acadêmicos, de lealdade religiosa e de tudo que pudesse interferir em sua liberdade intelectual e sua expressão literária. Sua obra magna, O Elogio da Loucura, é considerada um dos mais influentes livros da civilização ocidental e um dos catalisadores da Reforma Protestante.

Após a vitória dos gregos sobre Troia, guerra que durou dez anos, Ulisses tenta voltar para Ítaca, mas os deuses interferem e ele viverá por mais dez longos anos aventuras nos mares da região.

Diante dessa ausência, os pretendentes de Penélope cortejam-na e ela promete que se decidiria pela escolha de um deles após terminar de tecer uma túnica mortuária para o pai de Ulisses, Laertes. Tecia durante o dia e à noite desfazia o trabalho, retardando-o. Ardil descoberto, ela se vê forçada a escolher, mas aparece um mendigo e diz para ela propor um desafio esportivo com o manejo de arco e flecha aos pretendentes. Nenhum deles consegue e o próprio mendigo o faz e se descobre que ele era o próprio Ulisses. Essa é a relação que Erasmus faz de Penélope e as tecedeiras: elas tinham “a mesma castidade, paciência e talentos” daquela rainha e deveriam continuar seu incansável trabalho até que, metaforicamente, Ulisses – entenda-se um ser honesto naquela república – pudesse tomar o lugar que lhe cabia e organizar aquela república. Ulisses seria a Sapiência, um dos três magistrados da república da Cidade do Sol, de Campanela.

 

 

Considerações finais

Termino sempre essas análises com a sensação indigesta da impotência. Quantas coisas mais eu gostaria de colocar aqui!

 

No entanto, textos de Machado de Assis, ou de Fernando Pessoa, Graciliano Ramos, Eça de Queirós, Guimarães Rosa, Clarice Lispector e tantos outros, a cada leitura da própria pessoa, apresentam nuances novas, outros vieses. Imagine-se, então, quando lidos por pessoas diferentes que tenham a intenção de esmiuçá-los! Cada crítico (todos nos tornamos críticos quando lemos mais amiudadamente um texto literário) conseguirá captar aspectos diferentes de um mesmo conto, por exemplo. E cada um deve sair com a mesma sensação de impotência. Se for um livro de crítica, esperam-se novas edições e fazem-se acréscimos.

 

Dessa forma, restam-me aqui pelo menos duas sugestões. A primeira é que você leia diretamente na internet, entrando no Google, em e-book gratuito, ‘A Cidade do Sol’, de Tommaso Campanela. É um longo diálogo que vale a pena. E leia também, para que você mesmo descubra novos vieses, A sereníssima república ’ e outros contos machadianos, verdadeiras lições de vida e de muita reflexão.

 

 

*Prof. Leo Ricino – Mestre em Comunicação e Letras, professor na Fecap – Fundação Escola de Comércio Álvares Penteado –, instrutor na Universidade Corporativa Ernst & Young, São Paulo.

Adaptação do texto “A sereníssima república”

Fotos/texto: Revista Conhecimento Prático – Literatura Ed. 54