Contos de fadas na formação moral humana

Com a dificuldade de crianças de abstrair raciocínios filosóficos de um texto, as metáforas dos contos de fadas se tornam uma ferramenta eficiente para a construção de entendimento e de formação de valores.

Por Léo Vitor Amorim* | Foto: Shutterstock | Adaptação web Caroline Svitras

 

O presente artigo surgiu a partir de um trabalho de estágio pedagógico, no qual a proposta era fazer uma intervenção interdisciplinar do componente curricular Filosofia na rotina escolar de alunos do Ensino Fundamental I – de 6 a 10 anos – em uma escola municipal da periferia em Vinhedo, SP. Como se poderia imaginar, uma das maiores dificuldades encontradas é que crianças dessa faixa etária — no quadro geral — ainda não possuem a capacidade de abstração necessária para acompanhar os raciocínios filosóficos seja num texto, seja numa aula expositiva. Por isso mesmo, e inspirado por certa literatura e pela professora de educação física (sim, educação física) dessas crianças, é que me veio a ideia de trabalhar com a metáfora.

 

Dentre os livros exigidos na disciplina, algumas ideias repetidamente apresentadas em Pedagogia da Autonomia, de Paulo Freire (FREIRE, Paulo. Pedagogia da Autonomia. São Paulo, SP: Editora Paz e Terra, 2010), me deram pistas de como conduzir esse projeto de estágio. Para o filósofo da educação, o docente que realmente deseja ensinar combate de frente a máxima “faça o que mando, mas não faça o que eu faço”, pois sabe que suas palavras devem ser condizentes com suas atitudes, com sua vida; a melhor maneira de lutar pela ética da igualdade e da democracia é vivê-la. Isso significa não ser possível transmitir valores ou ideias nem lutar pelos mesmos se tudo ocorre, para quem o faz, num plano superficial, não vivido, não corporificado pelo docente. Torna-se ele um progressista de fachada, submetido e acomodado a um sistema; sem ideias pelas quais deseje lutar; sem esperança. Em suma: um professor retrógrado, desmotivado e desinteressante; os alunos achariam sua aula maçante.

 

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Tais ideias fazem lembrar de grandes nomes da literatura inglesa, como Clives Staples Lewis e J.R.R. Tolkien. O autor de As Crônicas de Nárnia diz algo muito parecido em seu ensaio Três maneiras de escrever para crianças:“Qual é a moral de que eu preciso?”, pois penso que, com certeza, o que não nos preocupa profundamente não interessará profundamente a nossos leitores. O melhor, porém, é não fazer pergunta nenhuma. Deixe que as imagens lhe contem qual é a moral delas, pois sua moral intrínseca nasce naturalmente das raízes espirituais que você conseguiu lançar no decurso de sua vida. (LEWIS, C. S. Três maneiras de escrever para crianças. p. 750. In.:As Crônicas de Nárnia. Tradução Paulo Mendes Campos, Silêda Steuernagel e Silvana Vieira. São Paulo, SP: Editora Martins Fontes, 2009. p. 750.)

 

 

C.S. Lewis é o autor dos sete romances de fantasia que compõem As Crônicas de Nárnia. Por muito tempo ateu, mais tarde protestante. Era muito amigo do católico J.R.R. Tolkien, o criador da Terra Média, onde se passam as aventuras de seus fairy tales. Essa amizade trouxe mútua influência para a produção literária desses escritores, inclusive em suas concepções de cristianismo, metáfora e literatura, discutidos em seus ensaios. | Foto: Reprodução Internet

 

Quem conhece o autor e sua obra, ao menos seus contos de fadas, sabe quantas ideias e valores humanos são apresentadas ao seu leitor em cada aventura. Apesar de toda mitologia grega envolvida, ou melhor, mesmo embasada na antiga cultura pagã, a moral e a imagem transmitidas pelo conjunto da obra são cristãs — note a contradição entre a metáfora utilizada e a mensagem que ela traz. Há, pois, uma transformação das imagens em prol da moral que se deseja transmitir.

 

Paulo Cruz, em seu artigo C. S. Lewis e formação do imaginário, traz do filósofo Edmund Burke e de Russell Kirk um termo mais técnico para a presente discussão sobre as “raízes espirituais” de Lewis: Imaginação Moral. Imaginação Moral são as virtudes que nossa emoção e razão possuem não só subjetivamente, mas objetivamente e dentro de uma época, como resultado dos séculos de experiência humana, e que por meio de todo tipo de linguagem é transmitida para outra era. No caso dos contos de fadas, é exatamente essa tradição que lhes estaria, segundo o artigo, reservada: salvaguardar e transmitir as “Verdades Permanentes” que formam as virtudes que nos guiarão num modo de vida adulta responsável.

 

Edmund Burke foi um grande crítico da Revolução Francesa, em seu livro Reflexões sobre a Revolução Francesa (1790), cunhou o termo imaginação moral para criticar as ideias dos revolucionários, chamando-as utópicas e destruidoras da base civil e moral europeia (o cristianismo). Para ele, o homem deve ser autônomo para gerir sua vida na sociedade física e espiritualmente, desde que isto não interfira em sua harmonia geral. De qualquer forma, a tradição deve ser respeitada como parte da identidade de dada sociedade, e não destruída ou tomada como irracional por que assim fora determinado por este ou aquele grupo. | Foto: Wikipedia

 

Portanto, é perfeitamente possível que mesmo os contos de fadas sejam capazes de tratar de assuntos tópicos da Filosofia e, sobretudo ao serem endereçadas às crianças, desempenham tamanha tarefa com muito mais eficiência que o ensaio de qualquer filósofo. É bastante famosa a dificuldade dos textos propriamente filosóficos, não só quanto ao vocabulário, mas a estrutura e complexidade dos argumentos, das frases e parágrafos para se explicar com exatidão os conceitos e a ideia de um sistema filosófico. Por mais organizados que sejam, exigem do leitor muita disciplina e certa bagagem de conhecimentos prévios. Não obstante isso, ainda possuem várias lacunas e por menores que sejam, acabam por dificultar o entendimento exato das ideias contidas ali, de modo que até para os mais doutos não é tarefa trivial. Fiquemos, pois, com as metáforas, figuras de linguagem e fantasias da nossa imaginação.

 

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De fato, as histórias infantis, os desenhos, as fábulas e as metáforas em geral ensinam às crianças (e não somente a elas) alguma moral; as influenciam na construção de suas verdades, com as quais desenvolvem toda uma conduta social para si e um ponto de vista sobre o mundo. Mas Fantasia não serve simplesmente de aula de Filosofia e Arte com conteúdo facilitado, é uma terapia de vida, cujo método nos leva ao interior dos pensamentos de seus criadores — autores dos contos de fadas, os que criam as metáforas. Por isso mencionou-se Tolkien, pois é quem nos explica o que seriam os fairy tales e nos fala justamente dessa terapia, dividindo-a em três tipos de tratamento: recuperação, escape e consolo.

 

Russel Kirk foi pai do movimento conservador americano. Estudante de Ed. Burke, leitor de fairy fales, como os de C. S. Lewis. Em Kirk, o conceito de imaginação moral passou a indicar a capacidade humana de conceber o outro como pessoa moral, e é o processor pelo qual o indivíduo cria metáforas a partir do conhecimento adquirido pelos cinco sentidos. Entre suas obras sobre estes temas, temos Edmund Burke, um Gênio Reconsiderado (1967), e A Mente Conservadora (1953). | Foto: Wikipedia

 

Por recuperação, Tolkien entende que é a capacidade que os contos de fadas têm de nos fazer contemplar as cores, os objetos, as criaturas, não somente as mágicas, e os frutos da imaginação humana em geral, mas a criação real, o mundo objetivo no qual vivemos. É uma renovação da saúde (mental e também espiritual), uma retomada da visão clara do mundo. É a maneira pela qual (re)começamos a admirar — como diz Paulo Cruz — as “coisas que se tornaram corriqueiras em nossos dias, […] com as quais não nos importamos mais.” Isto nos lembra muito a clássica proposta filosófica de ver a realidade como ela é; seria dizer de uma proposta de vermos o mundo como devemos ou deveríamos ver: “como coisas separadas de nós mesmos” (Tolkien, 1974. p.188), que, no entanto, não deixam de coexistir com nossa vida. Nada ao nosso redor é de fato nosso, mesmo assim temos certo poder de ação sobre isso, numa interação bivalente entre eu e o mundo, o mundo e eu; e obtemos consequências nessa relação. Os contos de fadas seriam ajuda eficaz para recuperarmos a consciência e a percepção disso.

 

Ao contrário do que se pode pensar à primeira vista, escape não se trata de uma fuga dos problemas, da realidade ou um abandono da responsabilidade que temos com as coisas. Sobre tal conceito encontramos em Lewis — a respeito dos que se opõem à inserção do medo nas crianças — duas hipóteses:

 

Podem querer dizer (1) que não devemos fazer nada que possa despertar na criança medos fantasmagóricos, debilitantes e patológicos contra os quais a coragem comum nada pode: as chamadas fobias. […]. Ou podem querer dizer (2) que devemos tentar manter a criança alheia ao fato de que nasceu num mundo onde há morte, violência, ferimentos físicos, aventura, heroísmo e covardia, onde há o bem e o mal. Se querem dizer a primeira coisa, concordo com eles; se querem dizer a segunda, não concordo. Esta última é a atitude que dá às crianças uma falsa impressão e alimenta-as de escapismo, no mau sentido da palavra. […]. Como é provável que venham a encontrar inimigos cruéis, convém que pelo menos ouçam falar de audazes cavaleiros e da coragem heroica. (Lewis, 2009. p.748)
Só por esta explicação entendemos a importância de metáforas que não neguem os traços da triste realidade (seria o escapismo) e simultaneamente mostrem exemplos de superação dos problemas, de não esmorecimento frente aos desafios e ameaças à paz e ao bem próprio ou comum: há esperança, há uma solução (isso é escape).

 

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O consolo é visto por Tolkien como o que ocorre com o clássico final feliz, propriamente dito. No entanto, não se trata, em sua essência, nem de algo “escapista” nem “fugitivo”. Não é negação da tragédia (ou da discatástrofe, nos termos de Tolkien), antes se nega a derrota universal, por mais que as evidências apontem para ela. Isto se opõe terminantemente à Tragédia (grega) e também à Filosofia Alemã e Pós-Moderna (Contemporânea, se quiser), cujo descontentamento e o desencantamento com o mundo parecem ter se espalhado tal como o capitalismo — e dão sinais de serem mais fortes e duradouros que ele. O consolo dos contos de fadas devolve pois ao homem, como um evangelium (uma boa notícia), a esperança da alegria final, uma repentina “virada” jubilosa — eucatástrofe, como chama Tolkien. Ninguém, embebido com tal esperança desistiria de sua jornada.

 

Uma digressão aqui, mesmo que superficial, se faz necessária. Sobre a questão do descontentamento e desencantamento com o mundo da filosofia tal como dito acima, vale lembrar que desde a mitologia nórdica encontramos certo pessimismo no imaginário alemão: nosso mundo vive em constante conflito entre o Caos e a Ordem, mas a cada ano o caos se torna mais forte, de modo que um dia ele conseguirá sobrepujar os deuses e dominar o mundo, tal dia chama-se Ragnarök, somente um tempo após este evento as forças da ordem conseguirão, com muito labor, voltar a se reconstruir — o que não é uma notícia muito feliz para as forças da Ordem. Na filosofia alemã e pós-moderna, encontramos em Schopenhauer — por exemplo — uma teoria metafísica a respeito da essência do mundo, a Vontade, que tudo cria e move, a fim de expressar-se completamente em mundo, inclusive ao destruir esse mesmo tudo. A Vontade é em sua essência autodestrutiva; no homem ela o faz viver entre desejos (dor por não ter/ por querer algo) e tédios (após a satisfação dos mesmos desejos) até finalmente morrer, de modo que a felicidade é sempre furtiva e de curta duração. Por meio de Nietzsche e também do sociólogo Max Weber vemos uma sociedade onde o cristianismo — com sua boa nova de Vida Eterna em abundância — perdeu sua força, e toda e qualquer crença entrou em um processo de relativização: é a ciência, a medicina, o direito, a economia e a política que agora organizam nossa vida e resolvem — pelo menos tentam — nossos problemas; quanto à fé, a verdade é uma construção, e se é que existe uma Verdade esta é inacessível, de modo que jamais poderemos saber qual religião é a correta ou até mesmo se existe um deus. Aqui, somente se desejou apenas explicitar o que se disse anteriormente. De fato, tal assunto merece, e mesmo precisa, ser mais profundamente trabalhado, mas não é um caso para este artigo. Retornemos aos Fairy Tales.

 

Ragnarök significa “julgamento/destino dos deuses”. Segundo a mitologia nórdica, é o fim do mundo, que reúne todas as profecias sobre a vitória das forças do Caos sobre Asgard (a terra de Odin e seus deuses) e Midgar (o mundo dos seres humanos).

 

 

É de se notar que a questão é transmitir ao outro não o que ele deseja, mas aquilo que o autor da história deseja mostrar, algo talvez divergente da opinião do leitor sobre o mundo e suas necessidades. Lewis mesmo admite utilizar os contos de fadas com esta finalidade. Ao tratar das três maneiras de escrever uma história infantil, afirma que “a terceira, única que sou capaz de usar, consiste em escrever uma história para crianças porque é a melhor forma artística de expressar algo que você queira dizer”. E mais adiante dá sua opinião sobre as vantagens de tais tipos de histórias:

 

Nos casos em que a história para crianças é simplesmente a forma adequada para o que o autor quer dizer, é evidente que os leitores que quiserem ouvir o quer ele tem a dizer vão ler ou reler a história, seja qual for a idade deles. […] Inclino-me quase a afirmar como regra que uma história para crianças de que só as crianças gostam é uma história ruim. As boas permanecem. Uma valsa da qual você só gosta enquanto está dançando não é uma boa valsa. (Lewis, 2009. pp.742 e 743)

 

J.R.R Tolkien | Foto: Reprodução Internet

 

Pode-se concluir daí: para Lewis, uma boa história infantil dialoga com um público para além da infância, além de uma fase da vida e, podemos acrescentar, de uma época na história. Eis uma definição de clássico.

 
Muito embora tratando de fatos e mundos imaginários, as virtudes e a moral dos clássicos contos de fadas são muito reais e aplicáveis em nossa vida aqui e agora, e mais eficazes são eles em demonstrar uma maneira de ver e encarar os desafios de vida que um tratado filosófico sobre os princípios primeiros da ética. Nos livros de Tolkien ou C.S. Lewis encontramos não simples ideias de justiça, coragem ou bondade, mas exemplos disso nas atitudes dos heróis, e mesmo quando cometem erros, é o exercício das virtudes que os redimem e os permitem vencer os inimigos — uma lição de vida ao leitor.

 

J. R. R. Tolkien e a Primeira Guerra

 

Sendo assim, o papel da metáfora se nos aparece agora não somente como instrumento didático para se ensinar respeito e cidadania aos alunos, tal como a escola propõe com as disciplinas de Filosofia e Sociologia, mas como um meio de o próprio professor incorporar / recuperar os ideais que possui. O próprio adulto e docente pode dialogar com a moral dos contos de fadas, e passar ele mesmo pela terapia tripartite — tal como expôs Tolkien — que pode auxiliá-lo a viver seus próprios ideais e, como propõe o já citado Paulo Freire, transmitir seus ensinamentos com sua própria vida. Se haveria dificuldades quanto à aplicação dessa ideia, não haveria, por parte do docente o esmorecimento, uma vez que se deixara tomar pela esperança de alcançar sua meta. Os ideais de bondade, equidade, democracia seriam transmitidos com mente e coração e, por isso mesmo, de acordo com as ideias desse filósofo da educação, uma aula assim seria muito mais rica, interessante e sincera. De qualquer modo, ler contos de fadas é sempre uma grande aventura.

 

 
*Léo Vitor Amorin é graduado em Bacharel e Licenciatura em Filosofia pelo Instituto de Filosofia e Ciências Humanas – UNICAMP – contato: leao.amado33@gmail.com

Adaptado do texto “Filosofia & metáfora: os contos de fadas na formação moral humana”

Revista Conhecimento Prático Literatura Ed. 68