Conto: O Interdito

Por Marcio Flávio Vidigal | Foto: Shutterstock

Agora que meus cabelos foram raspados por essa gente que não conheço e que me colocou esta jaqueta de pano grosso já não sei se realmente existo ou se sou fruto da minha imaginação. A semana passada, quando aqui cheguei – se é que foi a semana passada –, lembrava-me ainda da minha casa, da companheira dedicada, dos meus filhos e de algumas circunstâncias que reputo importantes, ocorridas ao longo da minha vida. Hoje, depois de tantos acontecimentos, marcados em tão breve tempo, não sei dizer quase nada a respeito até de fatos recentes. Por isso, tenho me indagado, a todo o instante, se efetivamente não perdi o juízo, embora perceba, não sei por que razão, a falta de importância de reflexões desta natureza. Antes, conseguia recordar os rostos das pessoas, dizer seus nomes e narrar coisas de suas vidas, mas neste momento nem o semblante dos meus filhos seria capaz de identificar. Só sei que não os tenho comigo. Entretanto, não posso afirmar desde quando não os vejo e nem onde se encontram. Minha barba não foi raspada; sequer cortada. Após enfiarem-me alguns trajes abjetos, jogaram-me neste cubículo. Por isso, permaneço assim com esta aparência horrível de bicho, maltrapilho, fios do bigode entrando pelos lábios e pela boca, com restos de alimentos que se alojam no encaracolado dos pelos após as refeições. Meu próprio nome não querem me dizer. E quando pergunto algo sobre meu passado agem com dissimulação, ignoram as indagações e adotam atitudes de disfarce, certamente pensando com menoscabo na inutilidade de qualquer informação a respeito. Não sabem, contudo, que conheço – não sei como – praticamente todos os meios utilizados no propósito de alijar-me do mundo e que só momentaneamente careço de forças necessárias para pensar e sentir tudo com clareza e nitidez. Esta vida insípida que me tem perseguido durante todo esse tempo, desde que a realidade foi se afastando, é que me trouxe a este abismo, a esta treva infinda. E, ao que parece, não posso debitar este desenlace apenas ao escuro labirinto em que sempre estive metido a partir do dia em que nasci. Embora pareça certo que meu nascimento coincidiu, estranhamente, com a negação da realidade para mim. A culpa talvez seja de todos os que lançaram em minha mente o germe da inquietação e do desespero. Não sei como começou tudo isso. No início, fui requisitado para algumas visitas, nas quais me faziam perguntas que pareciam durar horas a fio, num colóquio interminável. Ouviam-se pessoas, mostravam-se laudos médicos, que eram minuciosamente examinados, até que vim parar aqui. E agora o nada. Sim, o nada, porque eu não entendo a razão destes sucessos e deste tipo de violência que jamais havia sofrido. Logo que cheguei, por aqui passava de vez em quando um sujeito que repetia, insistente, várias e várias perguntas, embora sem o tom ameaçador e igual agressividade das anteriores. Ou então era eu quem já não as enxergava mais daquele modo. Às vezes vinham juntos dois ou três desconhecidos e quando isto acontecia ficavam sorrindo um para o outro assim que eu falava ou, segundo eles, grunhia qualquer coisa. E tudo ficava mais confuso quando procurava contar-lhes algum episódio da minha vida, o que me levava a crer que estava sempre a falar asneira ou a inventar histórias absurdas. Tais circunstâncias, é óbvio, contribuíram de modo decisivo para que eu não tivesse nem tenha certeza de fatos passados que porventura tente reproduzir. Além disso, faziam-me ter a desconfortável impressão de que os estava criando gratuitamente como forma de preencher o vazio que há em mim e que até hoje me envolve neste sentimento obscuro.

 

De todo modo, parece-me que a origem desta situação que não sei explicar foi a revelação, em toda a sua nudez e exuberância, dos corredores da minha consciência ou, como já agora se descortina, da minha inconsciência. Fizeram as tais investigações primárias e imbecis, que procuraram saber tudo de mim próprio, mediante sucessivas interrogações em que indagavam sobre a minha idade, o local em que nasci, onde morava, o que fazia e outras coisas do tipo, como se tudo isso tivesse importância capital na minha vida e na deles. Muitas vezes as perguntas foram feitas por um homem de carranca fechada e, logo que respondidas, se a tanto cheguei, registradas pelo barulho de uma velha máquina de escrever, atrás da qual se postava outro personagem sentado a minha frente e de mim separado por uma pequena mesa que sustentava a engenhoca. Acho que ainda consigo lembrar dada ocasião em que o inquiridor retirou de um dos bolsos diversas cédulas de dinheiro e, chegando-as perto dos meus olhos, quis saber sobre os valores nelas estampados, apresentando-as de forma alternada uma após a outra, com o nítido propósito de saber se eu as identificava. Considerei aquilo inaceitável e, como respondesse de forma atabalhoada e confusa, um terceiro homem, de pé, junto à porta, abriu levemente os lábios num pequeno e disfarçado sorriso, ao mesmo tempo em que eu me interrogava sobre o significado daqueles papéis inúteis e daquele procedimento que nenhuma relação tinha com minha dignidade e minhas ideias sobre valor. Era estranho o comportamento daqueles indivíduos. Mais do que isso: era repugnante e asqueroso. Pelo menos para mim. Enojava-me conceber-lhes como seres humanos. Vieram-me então à mente naquela oportunidade, como ainda agora vêm, inúmeros conceitos elementares da teoria dos valores e sua relação com a vida, o cotidiano e mais outras coisas que transcendiam aquela circunstância hipócrita. Suspeito que naquela ocasião cheguei a perguntar, ainda que assaltado por enorme fraqueza física e mental, por que não discutíamos as correntes de pensamento a tal respeito, a verdadeira origem de suas concepções, os céticos gregos, e tantas outras coisas dos sistemas filosóficos. Penso até que arrisquei a mencionar os céticos gregos, Sócrates, Platão, Kant, o idealismo alemão, Nietzsche e tantos outros. Sobretudo porque ainda jovem tivera contato com eles e deles nunca me afastava nas relações que tentava manter comigo mesmo e com o mundo. Tolice absurda. A resposta veio nítida na face dos presentes, a mostrar o inevitável e quase imperceptível sorriso mesclado de pena e sarcasmo.

 

Tratou-me, então, de forma amável o tal inquiridor e, pousando em mim uns olhos compreensivos, respondeu-me com voz acariciadora que, se assim o desejasse, poderíamos todos conversar depois sobre o assunto. Mas não me lembro de nenhum diálogo posterior nesse sentido. E foi assim que se prolongou o martírio, sempre com laudos precedidos de inúmeros exames vexatórios, acompanhados de radiografias, entrevistas, salas escuras, perguntas, perguntas e mais perguntas. Enquanto isso, esmoreciam-se todos os meus recortes de raciocínio, atirado a este estado de penúria!

 

Hoje, não raro sinto o morno das lágrimas pelos sulcos laterais do nariz, desde quando me deixaram completamente só, aqui neste local nojento. Jamais pensei acabar assim, nesta situação deplorável, assemelhado a um animal, com a barba imunda e mal cheirosa a me escorrer rosto abaixo, expelindo rezingas ininteligíveis, que nenhuma pessoa, nem mesmo eu, consegue entender. Grunhidos que creio brotarem dentro do meu peito quando tento balbuciar alguma palavra. O som sempre arrastado e pastoso… Além disso, mantenho os lábios em permanentes feridas abertas pela pressão que sobre eles faço com os dentes, como resultado da tormenta em que permaneço.

 

Revista Conhecimento Prático – Literatura Ed. 62