Conto: Inimigo meu

Tédio, o terrível inimigo de nossas vidas

Por Urbano Luciano | Foto Shutterstock

Ao entrar no ônibus, Urbano esqueceu que já tinha terminado de ler o livro ontem na via­gem de volta e não colocou outro na mochila. Agora tem de encarar um terrível inimigo…

– Olá, Urbano.

– Poxa vida. Olá, Tédio, o que quer?

– Nada! Só faço meu trabalho. Você não tá indo pro teu? Vim fazer o meu.

– Cara, perturba outra pessoa hoje, vai. Eu nunca fui te atazanar. Você aqui é muito injusto.

– Mas eu MORO aqui. Você esqueceu o livro. Não tem nada inteligente pra alimentar essa calvície. Nem revista na mochila, neca. Sua falha de memória te trouxe pro meu território: as delicias da mesmice! Do trânsito parado! Olhe ao redor e contemple a mediocridade da redundância!

– Vê se some. Tem uma garota bonita subindo no ônibus. Vai sentar ao meu lado e teremos uma conversa divertida.

– Aquela ali? Desde quando você tem fé? Ela aca­bou de sentar perto do cara gordo. Tecido adiposo 1, careca 0. Você devia comer mais hambúrgueres!

– Que filho da…

– Nah! Nah! Não seja agressivo! Rolou acidente na Avenida Brasil. Vamos passar horas e horas juntos!

– …

– Não vai dizer nada? Cadê as piadinhas? O sar­carsmo? Perdeu os poderes, senhor Urbano?

– Cara, tu é muito chato.

– Falou o homem de 40 anos que acabou de ler um livro de física! Até eu sou mais interessante que isso.

– Não é e não vou discutir com você.

– “O comportamento quântico de objetos atômi­cos (elétrons, prótons, nêutrons, fótons e afins) é o mesmo para todos; são ondas de partículas…” Pfff! Deixa te mostrar um mundo melhor.

– Você não tem o que mostrar.

– Está equivocado. Vim aqui desacelerar o tem­po pra você. Tornar tudo tão de… va… gaaar… Contemple os reflexos na janela impedindo sua visão e te forçando a completar com imaginação o cenário lá fora. Os escapamentos dos carros com fumaça cinza-escura, o cachorro mancan­do do outro lado, a apatia devorando as pessoas derrotadas pela espera… Diz que isso não é legal?

– …

– Urbano? Urbano?

– Zzzzzzzzz…zzzz

– Tomara que passe do ponto.

 

Revista Literatura | Ed. 67