Veja compreensão de um especialista sobre o conto “A igreja do Diabo”

Por Leo Ricino*

Se alguém perguntasse a um admirador dos contos machadianos qual deles é o favorito, essa pergunta deveria, forçosamente, ser enquadrada na sessão de torturas acutíssimas, já que o leque de obras-primas machadianas na área dessas histórias curtas é abundante e, por isso, repele tal escolha. Fiquemos, pois, sem essa pergunta. A Igreja do Diabo é, todavia, uma narrativa que mantém insaciável minha vontade de reviver o prazer de sua constante releitura, por ser um conto repleto de argumentos incisivos e contundentes, dir-se-ia até insofismáveis dentro da sua propositura. Ou seja, apesar de aparente paradoxo, A Igreja do Diabo é um verdadeiro paraíso no mundo da argumentação. Nem poderia ser diferente: esses incontestáveis argumentos estão na exata proporção da necessidade da criação de prosélitos e mais prosélitos para uma nova crença. Em outras palavras, algo bem dentro da nossa realidade e convivência normal e muito atual. E tal condução lógica e profunda de convencimento e persuasão tem um motivo: o mestre desses profícuos argumentos na área do proselitismo é ninguém mais que o próprio Diabo, doutor na arte do egoísmo, da maldade e do proveito próprio. Suas prédicas são verdadeiros tratados de lógica, como veremos abaixo.

PARA SE TER IDEIA
Como sempre faço, coloco aqui uma noção da história do conto analisado. O Diabo, depois de séculos de desorganização, decide, com o ódio que o caracteriza, fundar uma igreja. Resolve dirigir-se ao céu para comunicar a Deus essa sua intenção e preveni-lo de que essa nova igreja vai angariar a maioria das populações e esvaziar as igrejas divinas. Insolente, propõe esse desafio a Deus.
Com o conhecimento e a anuência divina, o Diabo desce, infiltra-se no convívio terráqueo e lança sua igreja, com publicidade feroz e agressiva. Com eloquência incomparável, atrai as turbas com ofertas palpáveis, saboreáveis, sensíveis, concretas (opostas às ofertas da igreja divina, abstratas, metafóricas, para a alma apenas e, portanto, futuras!) de prazeres prontamente vividos pelo corpo, com a criação de virtudes novas e a eliminação das antigas. E garante aos fiéis que o adotarem como seu novo pai “tudo, tudo, tudo, tudo, tudo, tudo”.

Ou seja, ao inverter o processo cristão e fazer tudo que era proibido passar a ser permitido, o Diabo disponibiliza, com prédica eloquente, prazeres irresistíveis, vivenciáveis. Por isso, em pouco tempo, sua igreja está repleta de milhões de adeptos e adoradores. O único problema, para o qual nem mesmo o Diabo estava preparado, foi que sua massa de manobra era representada por humanos, a quem ele só veio realmente a conhecer anos depois de sua igreja já estar consagrada. E humanos… Bem, não posso contar tudo e antecipar-lhes o final, simplesmente genial e definitivo, com o qual encerrarei este artigo. Leia o conto.

A CONCORRÊNCIA
A concorrência, em qualquer área, é saudável para a vida, e Deus, onipotente, onipresente e tantos outros onis, na sua doçura e bondade, como sugere o narrador deste conto, nos dá o maior exemplo disso ao criar um concorrente para si próprio, o que se configura como mostra de seu desprendimento (fenômeno que já vimos em Fausto, quando Deus aceita humildemente uma aposta com o Demônio–Mefistófeles, colocando à prova a crença e a fidelidade de Fausto). Tal decisão divina propicia aos humanos a faculdade da escolha. Todavia, em A Igreja do Diabo, nem por isso Deus deixa de se impor ao concorrente e, quando necessário, mostra seu poder, como ocorre no momento em que determina silêncio ao Diabo e ordena que ele vá embora.

A PARCIALIDADE DO NARRADOR
Narrador, como sabemos, é ente ficcional e não do mundo real. Ele narra uma história da qual participa ou simplesmente conta uma história ao narratário e… a nós. Não se pode, pois, confundir narrador com escritor. Todavia, o narrador, à semelhança do seu criador, costuma tomar partido a favor ou contra essa ou aquela personagem. Nisso, sem que se entre em detalhes, talvez o narrador seja dependente da ideologia do seu criador. O narrador de A Igreja do Diabo faz, visivelmente, sua escolha, senão tendenciosa, pelo menos com viés definido. Compare as descrições que ele faz das características do Diabo e de Deus. Do primeiro diz:

“Em seguida, lembrou-se de ir ter com Deus para comunicar-lhe a ideia, e desafiá-lo; levantou os olhos, acesos de ódio, ásperos de vingança, e disse consigo: — Vamos, é tempo.” (Os Melhores Contos de Machado de Assis, Global Editora, 3.ª ed, 1986, p. 188)

Porém, ao dar essas características diabólicas (acesos de ódio, ásperos de vingança), o narrador já quer ressaltar e nos prevenir sobre as intenções arrivistas do Demônio nas ações de criação e desenvolvimento da nova igreja. Sobre o Senhor, no entanto, no diálogo em que Deus indaga ao Diabo se ele sabe quem é o velho que está sendo recolhido ao céu, o narrador acrescenta características divinas à fala:

“— Sabes o que ele fez? perguntou o Senhor, com os olhos cheios de doçura.” (p. 188)

Todavia, o verdadeiro juízo de valor que identifica a parcialidade do narrador ocorre na seguinte passagem, com a qualificação das virtudes antigas (sãs) e novas (perversas):
“As turbas corriam atrás dele entusiasmadas. O Diabo incutia-lhes, a grandes golpes de eloquência, toda a nova ordem de coisas, trocando a noção delas, fazendo amar as perversas e detestar as sãs.” (p. 192)

AS MUITAS INTERTEXTUALIDADES
A Igreja do Diabo é um conto repleto de intertextualidade. Uma das mais intensas é, naturalmente, com a Bíblia e com as prédicas cristãs, já que as virtudes que o Diabo disponibiliza como “boas novas aos homens”, as “naturais e legítimas”, nada mais são que os pecados capitais. Assim, a soberba, a luxúria, a preguiça, a avareza, a ira e a gula foram reabilitadas, entronizadas e apresentadas como boas novas aos homens, com todas as suas vantagens e prazeres. Coube à inveja a primazia de ser “a virtude principal, origem de prosperidades infinitas; virtude preciosa, que chegava a suprir todas as outras, e ao próprio talento” (p. 192). Contudo, a intertextualidade-mote, com certeza, foi com o poema-teatro Fausto, de Goethe. No prólogo dessa obra, aparece a proposição, isto é, a proposta da trama da peça, num diálogo entre Deus e o Diabo, a personagem Mefistófeles:

“Diabo:
Que queres apostar? Perdê-lo-ás, a ruína
dele será fatal. Se me dás permissão
de levá-lo comigo e de traçar-lhe a sina.
Senhor:
Ora seja! Permito a dura experiência!
Vê se afastá-lo tentas da divina origem,
seguro está do rumo a percorrer na vida.”
A Igreja do Diabo, após a decisão do
Diabo de fundar sua própria igreja, inicia
o capítulo II com o diálogo Entre Deus e o
Diabo, durante o qual o Diabo recomenda
a Deus que aproveite para recolher com
todas as honras e pompas musicais aquele
ancião magnânimo que lá estava, pois
provavelmente seria o último a lá estar:
“— Não venho pelo vosso servo Fausto,
respondeu o Diabo, rindo, mas por todos
os Faustos do século e dos séculos.” (188)
Por fim, antes de vermos abaixo a
intertextualidade mitológica, constatemos
que o Diabo usa de todos os recursos
para captar seus prosélitos. Cita obras
literárias e algumas de suas características,
como a ira na Ilíada; faz referência às
personagens gulosas de Rabelais, no
caso Pantagruel e Gargântua, e a “bons
versos” do poema herói-cômico Hissope,
de Antônio Dinis da Cruz e Silva, poeta
e bacharel que, aqui no Brasil, participou,
como juiz, do julgamento dos inconfidentes
mineiros, dos quais alguns eram poetas
(Cláudio Manuel da Costa, Tomás
Antônio Gonzaga e Alvarenga Peixoto)
com quem tinha bom relacionamento.

A VELHA INTERTEXTUALIDADE MITOLÓGICA
Os textos machadianos – crônicas, teatro, poemas, contos e romances – mostram um autor com domínio invejável das coisas da Bíblia, da Literatura em geral e da Mitologia. Em A Igreja do Diabo, a intertextualidade mitológica, associada, nesse caso, à literária, é apenas para justificar a necessidade e a importância da ira, afirmando que a Ilíada não existiria “sem o furor de Aquiles”, filho de Peleu e da ninfa Tétis. Para tornar Aquiles invencível, Tétis banhou o corpo do filho com ambrosia, manteve-o sobre o fogo e em seguida mergulhou-o na água, processo que o tornaria invulnerável. Porém, para penetrá-lo no infernal, frio e lodoso rio Estige – um dos rios da sua homônima Tétis, filha do Céu e da Terra, que se casou com Oceano e teve três mil rios –, segurou-o por um calcanhar, único lugar do corpo dele que a água não cobriu e permaneceu desprotegido. Foi por ali que Páris, o causador da Guerra de Troia, o acertou, e o grande guerreiro sucumbiu. Lembremos que a Ilíada não mostra a Guerra de Troia em seus dez anos, mas apenas episódios do final dessa guerra. E por que Aquiles ficou irado, a ponto de criar tão grandiosa obra? A primeira ira de Aquiles ocorre contra Agamenão, indeciso comandante da confederação dos príncipes gregos, reunidos numa guerra feroz e duradoura contra Troia. O intuito dos gregos era recuperar a honra perdida com o rapto de Helena, esposa de Menelau, irmão de Agamenão, e recuperar a própria Helena, a mais bela humana da época, prometida por Vênus a Páris, filho de Príamo, rei de Troia, o qual, no entanto, precisou raptá-la para tê-la. Esse Agamenão, depois de costumeiros ataques gregos a cidades asiáticas da proximidade, para abastecimento de água, alimentos e mulheres, fica com Criseide, filha de Crises, protegido e sacerdote de Apolo, deus que intervém violentamente, causando muita dor aos gregos. Diante da ira desse deus, Agamenão é obrigado a devolver Criseide a seu pai, mas toma a escrava que coubera a Aquiles, Briseis. Isso levou Aquiles a abandonar a guerra, só voltando a ela depois de devolvida Briseis e de grande apelo de Ulisses, o idealizador do cavalo de Troia. Contudo, a mais intensa ira de Aquiles ocorre mesmo quando Heitor, grande líder troiano, também filho do rei Príamo, mata Pátroclo, grande amigo de Aquiles. Iradíssimo, Aquiles investe contra Heitor, mata-o e depois, diariamente, circula o túmulo de Pátroclo com o corpo de Heitor. Príamo implora a Aquiles que lhe devolva o corpo do filho, para enterrá-lo com honras. Aquiles, grande herói, abre seu coração, devolve o cadáver de Heitor ao pai.

 

Novos dogmas são defendidos em A Igreja do Diabo, invertendo o processo cristão e fazendo do que era antes proibido permitido e encorajado. Assim, o conto alicerça-se na argumentação e na lógica

 

METÁFORAS ARGUMENTATIVAS
Após termos visto ligeiramente o furor de Aquiles, usado pelo Diabo para justificar a importância da ira como uma das novas virtudes, avancemos para uma metáfora preciosa. O Diabo, “com ar de escárnio”, afirma a Deus que a decisão de criar sua igreja veio após séculos de observação e, metaforicamente, compara as virtudes a rainhas, “cujo manto de veludo rematasse em franjas de algodão”. E se propunha a puxá-las por essas franjas para a sua igreja. Em outras palavras, o Diabo descobriu o “calcanhar de Aquiles” das virtudes divinas. Iniciaria com as franjas de algodão das rainhas com manto de veludo, depois das quais viriam as com manto de seda pura… Outra bela metáfora ocorre com a definição diabólica de fraude. O texto diz mais do que qualquer palavra que eu possa usar:

“Nada mais curioso, por exemplo, do que a definição que ele dava da fraude. Chamava-lhe o braço esquerdo do homem; o braço direito era a força; e concluía: muitos homens são canhotos, eis tudo.” (p. 192)

Como se vê, o recurso das metáforas chega a ser esplendoroso nos contos machadianos.

O TRATADO DE LÓGICA
Como enfatizei, o conto apresenta um conjunto elaboradíssimo e primorosíssimo de argumentação. Aqui, com o mínimo de comentário, transcreverei algumas pérolas de lógica e persuasão. Entendamos, no entanto, lógica como “Modo coerente pelo qual coisas ou acontecimentos se encadeiam”, ou “Forma de raciocinar coerente, em que se estabelecem relações de causa e efeito; a coerência desse raciocínio”, conforme duas das definições do Aulete Digital.

Começo com a negação diabólica aos mandamentos, em especial “Não desejarás a mulher do próximo. Não cobiçarás a casa do próximo, nem seu campo, nem seu escravo, nem sua escrava,…” (Deuterônimo 5). O Diabo, afirmando peremptório que não há próximo, apresenta – negando, porém, a si mesmo, já que aceita pelo menos um tipo de “próximo” – uma versão diferente e irrefutável para isso:

“A única hipótese em que ele permitia amar ao próximo era quando se tratasse de amar as damas alheias, porque essa espécie de amor tinha a particularidade de não ser outra coisa mais do que o amor do indivíduo a si mesmo”. (p. 193)

Sobre a venalidade, o narrador fecha o argumento favorável a ela com chave de ouro, alfinetando o que hoje seria considerado o “politicamente correto”. Vou reduzir o excerto à sua essência:
“Se tu podes vender a tua casa, o teu boi, o teu sapato, o teu chapéu, coisas que são tuas por uma razão jurídica e legal, mas que, em todo caso, estão fora de ti, como é que não podes vender a tua opinião, o teu voto, a tua palavra, a tua fé, coisas que são mais do que tuas, porque são a tua própria consciência, isto é, tu mesmo?” (p. 192)

E arremata o argumento dizendo que, como vender você mesmo poderia causar estranheza e melindres sociais, “conviria dissimular o exercício de um direito tão legítimo, o que era exercer ao mesmo tempo a venalidade e a hipocrisia, isto é, merecer duplicadamente” (193).

Ou seja, o Diabo sugere que é bom fingir que não se está fazendo o que de fato se está fazendo, e com isso se engane o próximo. Alguns adeptos do “politicamente correto” agem assim: vivem socialmente de aparências, mas, às escondidas, agem de acordo com sua essência. Ao agir segundo a sugestão diabólica, você merecerá e terá dois prêmios: o da venda de sua consciência e o de vir a ser mais valorizado pelo Diabo, porque, tão a gosto dele, você é hipócrita. Aliás, o próprio Diabo, para começar sua pregação e caça a prosélitos, meteu-se, hipocritamente, numa cogula beneditina, “como hábito de boa fama”, enganando os crédulos, apresentando-se a eles como seu verdadeiro pai.

Outra passagem argumentativa lapidar é a opinião diabólica sobre o verdadeiro misantropo. Na passagem em que um velho caridoso está sendo recebido no céu por ter morrido no lugar de um jovem casal de noivos, deixando a eles a tábua de salvação em que estava firme num naufrágio, ato praticado por bondade mesmo, sem nenhum aplauso, Deus pergunta ao Diabo se ele nega isso também, ao que ele responde:

“— Nego tudo. A misantropia pode tomar aspecto de caridade; deixar a vida aos outros, para um misantropo, é realmente aborrecê-los.” (p. 190)

CONSIDERAÇÕES FINAIS
Nada mais a dizer senão encerrar este artigo com a transcrição da doçura que o narrador vê em Deus. O Diabo, após a descoberta de que era traído pelos seguidores de sua igreja, os quais praticavam ações de verdadeira benemerência, bem contrárias, portanto, a tudo que sua doutrina pregava, volta ao céu, “trêmulo de raiva”, com incredulidade absoluta estampada na cara e nas palavras, para buscar “a causa secreta” de impensáveis atitudes.

“Deus ouviu-o com infinita complacência; não o interrompeu, não o repreendeu, não triunfou, sequer, daquela agonia satânica. Pôs os olhos nele, e disse-lhe:
Que queres tu, meu pobre Diabo? As capas de algodão têm agora franjas de seda, como as de veludo tiveram franjas de algodão. Que queres tu? É a eterna contradição humana”. (p. 195)

*Leo Ricino é mestre em Comunicação e Letras, professor da Fecap – Fundação Escola de Comércio Álvares Penteado e instrutor na Universidade Corporativa Ernst & Young de São Paulo