Conheça os robôs da Literatura

O primeiro androide do cinema, a voluptuosa Maria de Metrópolis, já completou 87 anos e nossos robôs contemporâneos ainda estão muito longe do ideal imaginado pelo diretor Fritz Lang.

Por Andreia de Oliveira * |  Adaptação web Caroline Svitras

 

 

Eles são uma realidade nas montadoras de automóveis, na fabricação de circuitos eletrônicos e, atualmente, são controlados por satélite, efetuando entregas de compras realizadas via e-commerce (os drones da empresa Amazon, por exemplo). Contudo, o desejo de “fabricar-se” um ser humano — seja ele metálico como Elvex de Isaac Asimov ou biológico como Roy de Phillip K. Dick — continua a povoar nossa imaginação, mesmo que tenhamos a consciência de que, para uma inteligência artificial, ensinar o que é bom, o que é mau, o que é um robô e um ser humano ainda é impossível, uma vez que a estas questões implicariam na impressão de valores morais, éticos e religiosos. Em Frankenstein, Victor conseguiu seu intento: criou um ser biológico a partir de matéria morta. A criatura, diferente daquilo que imaginara, não veio a sua “imagem e semelhança”, mas como algo asqueroso e cruel. O romance gótico de Mary Shelley poderia figurar apenas em nosso pensamento como uma narrativa de horror, onde um homem vai contra as leis da natureza e é punido por isso, mas esse consegue mais: ao achar que criou um demônio, Victor dá à luz o primeiro robô da literatura ao romper com esses limites. No século XVIII o mundo era, ainda, inexplorado. As facilidades dos meios de transporte e tecnologias do mundo contemporâneo eram inimagináveis, o que tornava a empresa de Walton — um jovem inglês que, picado pela curiosidade, põe-se ao mar com o objetivo de chegar até ao Polo Norte — tão temível. Os perigos e privações pelos quais estaria fadado a passar, não diminuíam a gana pelo saber e pelo desconhecido. A única coisa que realmente o aborrecia era a solidão. Mesmo cercado pelos homens que trabalhavam no navio, nenhum deles fazia par à inteligência de seu capitão. Sendo assim, nenhum deles, também, poderia entender sua ansiedade ou ajudá-lo a controlar seus impulsos, cultivando nele a paciência.

 

Durante sua viagem, como conta à sua irmã Margareth em cartas e, mais tarde, em um diário, Walton depara-se com Victor Frankenstein em seu convés. Após a recuperação do estrangeiro — o homem havia sido trazido a bordo quase morto — o entendimento entre ambos fora instantâneo e quando o capitão do navio informa seu real objetivo. Frankenstein conta-lhe sua miserável história, temendo que outro homem, como ele, fosse levado da beleza da ignorância à danação do conhecimento, empurrado e seduzido pela curiosidade.

 

Victor, então, narra toda sua vida, desde os tempos de criança até aquele crucial momento: conta a felicidade da infância, com suas viagens e mimos dos pais; o crescimento do amor romântico pela irmã de criação, Elizabeth Lavenza, que levou-os ao matrimônio, a morte inesperada da mãe. Mas, indiscutivelmente, o que mais chama a atenção de seu interlocutor é seu desenvolvimento intelectual, passando de um autodidata, iniciado nas teorias simples e ideais megalomaníacos da alquimia de Cornelius Agrippa, Paracelso e Albertus Magnus,  para a química do médico Luigi Galvani. Interessado que era em fisiologia animal, Victor passou a experimentar a criação de vida em matéria morta. Assim, conseguiu “fabricar” um humano, achando que esse seria um ser maravilhoso.

 

 

Quando finalmente consegue seu intento, vê seu sonho terminar em horror e asco, rejeitando a horrenda criatura e iniciando assim seu martírio. A irresponsabilidade de Frankenstein em não pensar nas consequências que essa criação poderia trazer a ele e ao mundo fez com que, indiretamente, se tornasse um assassino. Ao sentir-se rejeitada — primeiro por Victor, depois pela família que passa a observar e com quem aprende sobre sentimentos, a ler e a falar — a criatura decide matar todos aqueles que são caros ao seu criador,  iniciando pelo irmão caçula, William.

 

Frankenstein sabe quem é o autor da morte de William e esse lhe aparece, dizendo que se ele não o fizer um homem feliz, criando para ele uma noiva, continuará matando seus entes mais queridos. O cientista vai para Londres com o amigo Clerval, no intuito de criar uma fêmea para a criatura, porém é tomado pelo pensamento de que criaria uma geração de monstros, cancela o empreendimento. Irado, o demônio mata Clerval, assim como também fez com Elizabeth, estrangulando-a. Após a morte de seu pai, muito debilitado pela idade e pelos acontecimentos, Victor parte em busca de sua criação, indo para o Norte, local onde Walton e seus homens o encontraram. Ao terminar de contar sua história, Victor morre. Walton é surpreendido ao ver o monstro em sua cabine, chorando pela morte de seu criador. O capitão, incumbido de matar o demônio, conforme promessa feita ao amigo, porém, deixa-o partir com a garantia que esse seguiria para o Norte e nunca mais voltaria. Assim termina o romance de Mary Shelley que fora concebido para uma competição entre amigos — idealizada por Lord Byron — em que todos deveriam criar histórias de fantasmas. Shelley, no alto de seus dezenove anos, cria a mais assustadora delas, sem poder imaginar o ícone ao qual dava vida. Muitas foram as leituras e releituras feitas da obra, principalmente para o cinema, que teve sua primeira adaptação em 1910, feita pelo inventor e cientista Thomas Edison.

Conheça obras de ficção científica no Brasil

 

No romance, assim como Prometeu — o semideus citado no subtítulo esse, Frankenstein, ou o moderno Prometeu — o ímpeto de Frankenstein o leva a uma vida miserável. Se o primeiro — ao presentear os homens com o fogo, um conhecimento divino — tem como seu castigo particular acabar no cume do monte Cáucaso, tendo seu fígado devorado por uma águia pela manhã, para a noite o órgão regenerar-se e voltar a ser consumido no dia seguinte, o segundo tem o  remorso e a culpa como inferno privado. Os dois, porém, deixam uma mazela para a humanidade: Prometeu deixa como herança a “grande pena que habita entre os homens mortais”, a mulher, segundo Hesíodo na Teogonia; Frankenstein, a sua criatura, que ele próprio denomina como “o demônio”. Essas personagens são punidas, cada uma a contento de seu gênero e tempo, por terem mexido em coisas que estavam além da compreensão de ambos, coisas que diziam respeito ao divino.

 

Além do diálogo com o mito grego, ao observar-se o contexto histórico, o romance traz outros temas. A estética principal do período era a romântica tendo essa um forte apelo em refutar a dominação da natureza pelo homem. Some-se a essa visão a Revolução Industrial inglesa, com suas máquinas a vapor, e as experiências no campo da bioeletricidade que produzia um sentimento latente de “onde tudo isso irá nos levar”. Podemos atribuir a essa história de horror, anos antes do considerado precursor do gênero Júlio Verne, a classificação de ficção científica, não apenas por nos apresentar o primeiro robô da literatura, mas por utilizar uma explicação pseudocientífica, não baseada em magia ou em uma força divina. Para essa afirmação, porém, será necessária uma explicação do que será considerado ficção científica neste estudo.

 

Veja a análise do livro “O Hobbit”

 

Segundo Bráulio Tavares em O que é ficção científica, a expressão Science fiction foi utilizada pelo editor da revista Amazing Stories, Hugo Gernsback, para definir a literatura que ele próprio incentivava. A repercussão em torno do termo foi tão grande, que o escritor Robert Heinlein, autor de Tropas Estelares, sugeriu a troca por “ficção especulativa”. O termo, porém, já tinha se cristalizado entre seus consumidores. A partir desse episódio, o autor tenta justificar que a presença de uma racionalização científica não é necessária para classificar uma obra como tal, conforme trecho abaixo:

 

“Grande parte da fc ( Abreviação de Ficção Científica conforme ortografia do texto citado.) está mais voltada para a magia do que para a ciência: todo o aparato tecnológico que a reveste não consegue disfarçar o caráter não científico da maioria de suas visões. As coisas acontecem magicamente: aperta-se um botão e um personagem é desintegrado, ou é remetido para outra galáxia, ou vira planta.”

 

A explicação que Tavares propõe, alternando de meio e aplicando essa ao cinema, que Guerra nas Estrelas (no original Star Wars, franquia de filmes criada por George Lucas) visivelmente uma aventura que se passa no espaço, em um futuro e galáxia “muito, muito distantes”, aproxima-se em classificação do filme Contato, baseado no romance do astrobiólogo e físico Carl Sagan. Propõe-se para o termo Ficção Científica, diferente do proposto por Tavares, que esse classificará apenas narrativas em que explicações científicas ou pseudocientíficas sejam fundamentais para o enredo da obra. O trecho a seguir demonstra a cisão entre os conhecimentos do protagonista. Nele, Victor Frankenstein deixa suas convicções alquímicas ao ser apresentado ao galvanismo.

 

“ Eu já travara conhecimento com as leis mais evidentes da eletricidade. Nesta ocasião, achava-se conosco um homem, grande pesquisador das ciências naturais, que, excitado por este acidente, se pôs a explicar uma teoria que elaborara sobre a eletricidade e o galvanismo, ao mesmo tempo  nova e espantosa para mim.” 

 

 

A teoria do médico italiano Luigi Galvani afirma que o cérebro dos animais produzem eletricidade e que essa é transferida pelos nervos e acumulada nos músculos. Quando estimulada, produz os movimentos dos membros do animal. Partindo dessa premissa, Galvani defendia que a eletricidade não poderia ser produzida sem o contato com a pele do animal. Alessandro Volta, físico italiano, contradiz Galvani ao criar a primeira pilha elétrica, com Zinco e Prata. Antes, porém, do galvanismo ser descreditado, muitos foram os adeptos dessa corrente, como o avô d  naturalista britânico Charles Darwin, o Dr. Erasmus Darwin, citado pela autora no prefácio da terceira edição da obra, ao falar da fundamentação científica dessa:

 

“ O doutor Darwin e alguns fisiologistas alemães têm dado a entender que o fato sobre o qual se fundamenta esta ficção não é impossível de acontecer. Não se deve pensar que eu alimente a menor crença  em tal imaginação; no entanto, admitindo-a como a base de obra de fantasia, eu não me considerei como apenas tecendo uma série de terrores sobrenaturais. O fato do qual depende o interesse da história está isento das desvantagens de um simples conto de espectros ou encantamento. Foi sugerido pela originalidade das situações que ele desenvolve e, conquanto impossível como um fato físico, proporciona um ponto de vista à imaginação, para o delineamento das paixões humanas mais compreensivo e imperioso do que podem oferecer quaisquer umas das relações comuns dos acontecimentos reais.”

O embate entre as duas teorias já acontecia no período em que Mary Shelley escreveu Frankenstein, porém é possível entender, observando-se romance, a predileção da autora pela tese de Galvani. O desejo  do jovem Victor Frankenstein em criar um homem artificialmente já não era uma ideia nova no século XVIII. Talo, o homem de bronze criado pelo deus Hefestos, da mitologia grega e o Golem, associada a mística judaica, são exemplos de que muito antes de Mary Shelley já se imaginava a “fabricação” de um ser humanoide, contudo o termo robô foi utilizado pela primeira vez por Karel Capek em sua peça R.U.R., nome dado pelas iniciais de Rossum’s Universal Robots. O termo deriva da palavra tcheca robota que pode ser traduzido como escravo. No drama os autômatos são criados a partir de uma espécie de protoplasma, sendo considerados unidades biológicas, isto é, muito diferentes dos homens metálicos e das caixas piscantes que nos chega a imaginação ao pensarmos nessas criaturas. Os robôs da peça de Capek — Marius, Sulla, Radius,  Primus, Helena e Daemon — têm mais emcomum, em sua formação, com o monstro de Frankenstein do que com os androides asimovianos, baseados em peças metálicas e cérebros positrônicos.

 

 

A única diferença é a motivação pela qual foram criados: Victor queria criar vida, ‘brincar de Deus’, enquanto Harry Domin, em R.U.R queria apenas ganhar dinheiro, tornando os humanoides indispensáveis para a realização das tarefas dos seres humanos. Se com a peça R.U.R. Karel Capek torna o termo robô popular, o termo robótica e as Três Leis da Robótica nascem também na literatura, com a coletânea de contos de Isaac Asimov, Eu, Robô. Nessa a robopsicóloga, Dra. Susan Calvin, narra pequenos episódios que viveu durante os últimos cinquenta anos em que trabalhou para a U.S. Robôs. Na coletânea também aparece o termo complexo de Frankenstein fazendo alusão ao sentimento que Victor nutria por sua criatura: o de constante terror pelo que o monstro pudesse fazer a ele e aos outros. Na obra de Isaac Asimov um ser humano nunca criaria uma ferramenta que tivesse a intenção de virar-se contra seu criador. Seria como criar um martelo, dando-lhe inteligência, e esse atacasse aqueles que o criaram. Essa condição era assegurada pelas Três Leis da Robótica, que eram impressas nos cérebros positrônicos dos autômatos, já em sua fabricação. Citadas no conto O pobre robô perdido, são
apresentadas no trecho a seguir, com diálogo entre as personagens Donovan e Powell:

 

A voz tensa de Powell veio pelo rádio, soando aos ouvidos de Donovan: — Bem, escute: vamos começar pelas três leis fundamentais das Regras da Robótica, as três regras que estão mais profundamente incutidas no cérebro positrônico de um robô. No escuro, seus dedos enluvados enumeravam cada uma delas. — Temos: Um: um robô não pode ferir um ser humano, ou, por omissão, permitir que um ser humano sofra algum mal. — Certo! — Dois: um robô deve obedecer às ordens que lhe sejam dadas por seres humanos, exceto nos casos em que tais ordens contrariem a Primeira Lei. — Certo! — E três: um robô deve proteger sua própria existência enquanto tal proteção não entrar em conflito com a Primeira ou Segunda Leis.

 

Segundo Asimov, a Primeira Lei impede que um robô venha a ferir um ser humano ou que o deixe sofrer algum mal, isto é, ele não pode atacar ou ignorar caso um ser humano seja atacado ou esteja correndo risco de vida. A Segunda Lei obriga a obediência do robô ao ser humano, desde que essa não fira a Primeira Lei, isto é, ele deve obedecer quando for lhe solicitada alguma tarefa, desde que essa não atente contra a vida de um ser humano. Já a Terceira Lei sugere que o robô deve proteger sua existência, desde que para isso ele não se torne desobediente (Segunda Lei) ou atente contra a vida de um ser humano (Primeira Lei). Assim, em suas histórias Isaac Asimov inibia o tema recorrente da criatura virando-se contra seu criador. Se Frankenstein tivesse sido escrito alguns séculos mais tarde, possivelmente receberia a alcunha de robô ou androide (como Roy, personagem de Sonham androides com ovelhas elétricas? De Phillip K. Dick). O que não se pode deixar de observar, porém, é a intenção dessas narrativas: ao contar histórias sobre homens do espaço, seres extraterrenos e criaturas criadas a partir de corpos sem vida ou de peças metálicas, essas estarão intimamente ligadas em como encaramos nossas escolhas morais, filosóficas e religiosas.

 

 

 

 

*Andreia de Oliveira, graduada em Letras pela Universidade de São Paulo, editora do site de cultura POP Refricultural e professora de Literatura do Curso Popular Mafalda.

Adaptado do texto “Victor Frankstein e o primeiro robô da literatura”

Fotos: Revista Conhecimento Prático – Literatura Ed. 60