Conheça obras que abordam o futuro da humanidade

Por Adilson de Carvalho Santos* | Fotos: Reprodução Internet | Adaptação web Caroline Svitras

 

Quando o escritor inglês H.G.Wells publicou o romance “A Máquina do Tempo” (The Time Machine), em 1895, jogou todos os avanços da humanidade no limbo levando os leitores a um futuro pós-apocalíptico em que a raça humana foi dividida em duas raças, os passivos Elois e os deformados Morlocks. Metáfora da luta de classes pós revolução industrial, os Elois e os Morlocks formam polos opostos que questionam a direção da humanidade materialista e beligerante. A própria aquisição de conhecimento pode ser perigosa se a ciência

Aldous Huxley | Foto: Wikipedia

se coloca acima da moralidade. É o que alertou o inglês Aldous Huxley em sua obra prima “Admirável Mundo Novo” (Brave New World), lançada em 1932 e que apontava para um futuro hipotético, em uma Londres em que o ser humano é produzido em laboratório. A sociedade é dividida em castas e a família é inexistente. O personagem principal Bernard Marx é um pária nessa sociedade pré-programada, na qual o amor inexiste e o sexo é livre para o lazer, sem ligações emocionais entre os praticantes. Huxley foi premiado pela Academia Americana de Artes e Letras e entrou para a história do gênero como um dos mais sérios e assustadores escritores. O próprio Huxley reconheceu que uma das inspirações para “Admirável Mundo Novo” foi o trabalho de H.G.Wells. Duas adaptações (1980 e 1998) levaram o livro de Huxley para a televisão norte-americana. Há algum tempo fala-se em uma nova filmagem para o cinema e os nomes de Ridley Scott (diretor) e Leonardo DiCaprio (ator) foram cogitados, mas nada de concreto ainda aconteceu.

 

O mundo de acorod com Orwell

Uma das obras mais célebres a retratar um regime opressor e o ser humano retratado como um robô desprovido de sua individualidade e pensamento próprio foi o romance “1984”, escrito pelo inglês George Orwell em 1948 (a inversão dos dois últimos dígitos batizou a distopia Orwelliana).

 

 

H. G. Wells | Foto: Wikipedia

No livro, no fictício país Oceânia, o ser humano tem sua liberdade vigiada por um sistema de câmeras onipresentes que representam o “Grande Irmão” (Big Brother – o “reality show” da TV surgiu a partir daí) – um governo opressor que condena o pensamento individual. A narrativa de Orwell é descritiva e envolvente, colocando o leitor em posição de identificação com o protagonista Winston Smith, que trabalha no Ministério da Verdade, órgão do governo que manipula os fatos e falsifica os documentos de forma a preservar a imagem do regime. Até mesmo a guerra é fabricada para satisfazer a manutenção do status quo.

 

 

Nessa realidade deprimente, Winston se apaixona por Julia, uma mulher com quem trabalha e questiona os próprios atos à medida que é assediado pelo misterioso O’Brian, burocrata de alta posição. Nessa sociedade, o sexo só é permitido para procriação e os dissidentes do regime são torturados e convertidos.

 

Planeta dos Macacos

 

Orwell criou um idioma próprio para esse regime, a Novilíngua, que se faz valer de reduções de palavras de forma a manipular o pensamento e as ideologias. Orwell certamente fez de seu romance um paralelo com as ideologias totalitárias do nazismo e do fascismo que modificaram a face do mundo nos anos que antecederam à publicação do livro, e que ainda poderiam ameaçar o mundo.

 

Apesar de já ter sido adaptado para o cinema em 1956, a sua mais famosa filmagem ocorreu no ano que dá título ao livro. Dirigido por Michael Anderson e estrelado por John Hurt, Richard Burton (em seu último filme) e Susanah Hamilton, o filme completa 32 anos de seu lançamento original.

 

 

232,78 graus de conhecimento perdido

Em 1953, nos anos iniciais da guerra fria, o escritor norte-americano Ray Bradbury publicou “Fahrenheit 451” sobre um Estado opressor que condena o pensamento livre e determina que os bombeiros encontrem e queimem todos os livros. O nome da obra é referência à escala de temperatura, usada nos Estados Unidos, com a qual o papel incinera e que corresponde a 232,78 graus Celsius. O personagem principal é Guy Montag, um bombeiro que desperta para a deprimente realidade a que serve. Nessa realidade, todo o conhecimento que é permitido vem de aparelhos de TV e um grupo de rebeldes decora todas as grandes obras literárias da humanidade como forma de perpetuar para as gerações seguintes a cultura censurada.

 

Dividido em três partes “A lareira e a salamandra”, “A peneira e a areia” e “O clarão resplandecente”, Ray Bradbury critica a sociedade americana em uma realidade bipolarizada entre o capitalismo e o socialismo. Em 1966, o livro foi adaptado por François Truffaut (em seu único trabalho falado em inglês) e estrelado por Oskar Werner e Julie Christie. Para reforçar o espírito da obra original, os créditos do filme são falados na tela em vez de escritos e lidos. Poucos anos antes do filme de Truffaut, o escritor inglês Anthony Burguess publicou o polêmico “Laranja Mecânica” (A Clockwork Orange) sobre uma Londres futurista onde a violência juvenil alcança proporções assustadoras.

 

Anthony Burgess | Foto: Wikipedia

 

Narrado em primeira pessoa através do anti-herói Alex, que é preso pelo governo que usa de tortura para reformá-lo. O livro foi inspirado em um fato real: O estupro sofrido pela primeira esposa do autor. Burguess foi exímio e detalhista para compor sua crítica à sociedade inglesa, se valendo de rimas e gírias inventadas, formando um dialeto próprio a ser utilizado pelos personagens delinquentes.

 

A interpretação do título do livro é um capítulo à parte na literatura distópica, pois várias teorias tentam explicá-lo. Entre elas, a mais razoável é uma referência à robotização do ser humano e o fim do livre arbítrio, já que o autor viveu um tempo na Malásia, onde a palavra “Orange” (laranja, em inglês) significa “pessoa”, produzindo um efeito dúbio e enigmático. Em 1971, o consagrado diretor Stanley Kubrick fez uma excelente adaptação do livro de Burguess, com Malcolm McDowell no papel de Alex, traduzindo em imagem e som as palavras instigantes de Burguess.

 

Malcolm McDowell como Alex DeLarge no filme de 1971

 

Essas antiutopias pintam um elaborado painel político e filosófico que questionam a condição humana no futuro, em nada fantasioso se se levar em conta o rumo da história no mundo real. Questões Darwinianas serviram de base para o escritor francês Pierre Boulle em seu livro “Planeta dos Macacos” (La Planéte dês Singes), de 1963, que gerou uma cinessérie produzida até hoje pelo cinema americano, que viu na narrativa de Boulle uma metáfora do instinto humano e de sua eventual extinção como raça dominante no planeta.

 

 

Antes de Suzanne Collins

A ideia de uma competição mortal televisionada em escala global como forma de controle das massas é, na verdade, anterior a Suzanne Collins e sua bem sucedida trilogia “Jogos Vorazes”. Em 1982, o prolífico Stephen King, usando o pseudônimo Richard Bachman, lançou “O Concorrente” (The Running Man) sobre um homem comum levado a participar de um jogo mortal no qual é transformado em inimigo do Estado, caçado e perseguido por um mês. A história virou filme em 1987, sendo chamado no Brasil de “O Sobrevivente”, estrelado por Arnold Schwarzenegger. King antecipou em vários anos a febre dos reality shows e o uso manipulativo dos espetáculos televisivos, que acabam por condenar o ser humano a uma dessensibilização, em nada diferente da política “pão, circo e sangue” da antiga Roma.

 

Suzanne Collins, autora da trilogia “Jogos Vorazes” | Foto: Wikipedia

 

O direito à vida é questionado no romance de William F.Nolan & George Clayton JohnsonLogan’s Run”, publicado em 1967, sobre uma sociedade futurista pós-holocausto onde as pessoas só podem viver até os 30 anos, quando são sacrificadas em uma cerimônia chamada Carrossel, sem saber que os governantes da Cidade dos Domos são anciões que determinam arbitrariamente o destino de seus habitantes. O livro trata da superpopulação e das questões ambientais, antecipando em vários anos assuntos constantemente discutidos no mundo, cumprindo assim o papel visionário da ficção distópica.

Jovens contra a opressão

Em setembro de 2008, a escritora norte-americana Suzanne Collins trouxe jovens como personagens principais de um romance com tal ambientação em “Jogos Vorazes” (The Hunger Games), que se tornou trilogia adaptada com grande sucesso para o cinema. A história acompanha a luta da heroína Katniss Everdeen, de dezesseis anos, narradora em primeira pessoa, para sobreviver a uma competição transmitida para todo o mundo na qual jovens, representantes de 13 distritos, lutam e se matam como forma de garantir a manutenção da ordem no fictício país Panem.

 

Cena do longa adaptado do livro “Jogos Vorazes”

 

Assuntos como fome, guerra e opressão são diluídos em meio ao envolvimento de Katniss com outro competidor, e suas atitudes acabam inadvertidamente fazendo dela a líder de uma revolta de grandes proporções. A trilogia de Collins alcançou um sucesso de vendas admirável, tornando-se um fenômeno no mercado editorial e outro fenômeno no cinema, com Katniss vivida pela atriz Jennifer Lawrence.

 

O mesmo mote foi desenvolvido por Veronica Roth em outra trilogia de relativo sucesso: “Divergente”, publicado em 2011, que foi seguido de “Insurgente” e “Convergente”. Outra heroína jovem, também de dezesseis anos, Beatrice Prior pertence a uma Chicago Futurista onde as pessoas são separadas de acordo com cinco virtudes diferentes: Abnegação, Erudição, Audácia, Amizade e Franqueza, facções escolhidas depois de uma série de testes de aptidão.

 

Veronica Roth, autora da série “Divergente” | Foto: Wikipedia

 

A protagonista torna-se indesejada ao sistema quando se constata que é uma divergente, ou seja, capaz de pertencer a mais de uma facção. A noção de jovens contestadores que contrariam o regime vigente agradou o público leitor juvenil que passa a se identificar com suas heroínas determinadas, peças involuntárias de um contexto repressor que muitas das vezes ecoam questões relativas ao universo dos adolescentes, contestadores e avessos ao controle de suas vontades e destinos.

 

Outro exemplar dessa literatura questionadora a fazer o caminho das páginas para as telas é “O Doador de Memórias” (The Giver), escrito por Lois Lowry em 1993. Nele, um jovem torna-se o receptor de todas as lembranças da humanidade que extinguiu a fome, as doenças e as mazelas que afligiram o mundo. Contudo, ao se fazer digno de tal função, ele vem a descobrir que a realidade em que vive é uma falsa utopia que esconde muitos segredos. O filme, dirigido por Philip Noyce, traz os jovens Brenton Thwaits e Taylor Swift contracenando com veteranos como Jeff Bridges e Meryl Streep.

 

Tantas alegorias literárias são criativas ao mesmo tempo que instigantes e incômodas por nos fazer lembrar o quão frágil somos diante de um poder manipulativo. Nem tanto ficção, quando o “big brother” Orweliano toma a forma de celulares com câmeras registrando selfies e redes sociais seguindo cada passo das pessoas, extinguindo privacidades com o fascínio cada vez maior exercido pela tecnologia. Facções como as descritas por Veronica Roth são facilmente enxergadas nas diferenças sociais cada vez mais acentuadas e que distanciam o ser humano de uma sonhada igualdade. Nada mais voraz que a violência que toma conta das ruas, seja através da criminalidade ou da intolerância. Será verdade ou será que não? Nada do que lemos é mais assustador do que a realidade que faz esse mundo nada admirável, mas que a ficção procura nos alertar.

 

Adaptado do texto “Distopias: assustadores alertas do amanhã?”

Revista Conhecimento Prático – Literatura Ed. 69