Conheça o valor histórico e social da escrita

Contar histórias é uma tradição de todos os povos, dos mais primitivos aos mais sofisticados. Com essas histórias evoca-se lembranças, exercita-se e revitaliza-se a memória pessoal e, principalmente, a coletiva.

Por Fabiano Garcez* | Fotos: Shutterstock | Adaptação web Caroline Svitras

 

A diferença entre os povos primitivos e sofisticados não é a importância e o prazer de contar e narrar histórias, mas o seu registro. Os grandes poetas épicos como: Horácio, Virgílio, Camões, entre outros, tinham a função de coletar essas histórias e registrá-las para preservar a memória e o período histórico de seu povo e nação.

 
O homem sempre contou histórias, antes mesmo de poder escrevê-las, porém, o confronto entre a cultura oral e a cultura da escrita também sempre aconteceu, principalmente, devido à visão preconceituosa da sociedade com práticas de escrita. Desde a época da colonização, toda a produção cultural dos povos ameríndios e posteriormente africanos foi desprezada. Em uma rápida passada pela história da humanidade, percebemos a importância do registro escrito, na história de um povo e nas relações entre povos. Antes mesmo da colonização americana pelos europeus, aconteceu o domínio dos povos bárbaros pelos gregos e romanos, e só temos acesso a essas histórias por meio dos registros escritos pelos conquistadores, que eram os povos com práticas de escrita, porém, pouco se sabe sobre os derrotados que tinham pouco ou nenhum registro de sua história, cultura e sociedade.

 

A palavra “bárbaro” tem origem no grego antigo, βάρβαρος, cujo significado é “não grego”. Era como os gregos designavam s estrangeiros, as pessoas que não eram gregas e também os povos cuja língua não era a grega.

 
Em sociedades predominantemente orais, sem a prática de escrita, não há a necessidade de memorização integral, exata, porque com a memória oral tem-se maior movimento, liberdade e mais possibilidades criativas para transmitir a tradição cultural e histórica, pois a oralidade permite uma releitura e um refazer constante do passado ao ponto de não separá-lo do presente.

 
A memória individual e coletiva perpassa pelas histórias orais, que também podem ser produzidas no campo do poder, a partir de interesses pessoais e familiares. O filme de 2003, dirigido por Eliane Caffé, Narradores de Javé, nos mostra isso: Na possibilidade de ser submerso o pequeno vilarejo de Javé pelas águas de uma represa os seus moradores se organizam para tentar salvá-lo. A salvação seria construir, já que não tinham, um patrimônio histórico, que são as narrativas orais de cada morador a respeito das origens históricas do vilarejo. Porém, ao tentar registrar essas histórias, o escriba Antonio Biá, vivido por José Dummont, se vê incapaz de tal tarefa, porque cada morador conta a história mítica do vilarejo segundo sua ótica, levando em consideração seus interesses, valorizando ou omitindo passagens de seus ancestrais, ou até mesmo levantando questões de legitimidade de heranças familiares. A relação do poder nos relatos orais dá-se não só por meio dos interesses, mas também em outras esferas, como por exemplo: As pessoas mais velhas querem para si o papel de guardiões da memória e história do vilarejo, outro fato importante é a seleção a partir de anseios pessoais ou coletivos de fatos que podem ou devem ser lembrados ou esquecidos.

 
A escrita é a linguagem do poder, é a linguagem da lei, isso também nos mostra o filme, já citado, Narradores de Javé, com a inundação do vilarejo, apenas os moradores que tinham a escritura – registro escrito de posse – de suas terras seriam indenizados, contudo nenhum morador a tinha, pois os limites de terras eram feitos por meio das divisas cantadas, ou seja, o morador recitava os limites de seu território e esses limites eram respeitados, até então não havia necessidade de uma escritura – ou um registro formal – para outorgar a posse da terra.

 

Foto: Divulgação

 
Assim como os limites da terra, a memória tem que ser registrada, porque o registro torna a memória histórica rígida, inflexível, imutável, mas não podendo modificar o passado, o povo acaba por distanciar-se desse passado, não se vê como um agente produtor e colaborador de sua história.

 
Na sociedade moderna o discurso oral tem que ser legitimado pelo registro escrito. Essa legitimação dá-se não só pela legalidade do escrito, mas também pelo embelezamento e enriquecimento estético do fato: “(…) Uma coisa é o fato acontecido, outra coisa é o fato escrito, o acontecido tem que ser melhorado no escrito (…) para que o povo cria no acontecido” – palavras de Antonio Biá, o escriba do vilarejo de Javé, e em outras falas de Biá: “O curvo vira corcunda”, “A história é de vocês, mas a escrita é minha”, “História muito ouvida e contada, mas nunca lida e escrita”. A supremacia da cultura escrita sobre a cultura oral dá-se pelo registro escrito, então a história de um povo ou limites de terras que não são registradas é como se não existissem.

 


O registro traz mudanças significativas no seu destinatário como se pode observar no depoimento da moradora de Gameleira, cidade onde foi rodado o filme Narradores de Javé: “O lixo fazia parte do nosso dia a dia como se fosse um vizinho e não nos incomodava, quando chegou o pessoal do filme que promoveu essa limpeza (da cidade) (…), abriu uma cortina, abriu nossa visão e fez com que percebêssemos como é importante viver em um ambiente limpo”. O contrário também se faz presente, a falta do registro traz mudanças também significativas, nem sempre para melhor. Em depoimento, Maura Maria Lopes, poetisa da Zona Norte de São Paulo, se lamenta por não saber escrever e pensa que, se soubesse, poderia ter uma vida melhor, poderia apresentar seus poemas em programas de televisão.

 
Os dias atuais trouxeram mudanças nas tecnologias da escrita para o homem moderno contar suas histórias e registrar suas terras, e o principal deles é o suporte. O suporte da escrita moderna não é mais o papel, o códice – evolução da pedra, da argila, do papiro -, é a tela do computador e o chamado ciberespaço. Hoje, os textos não são táteis, físicos e estagnados. O computador, e principalmente a internet, traz uma nova forma de relacionamento com o texto: o hipertexto.

 

Os códices eram os manuscritos gravados em madeira, em geral do período da era antiga tardia até a Idade Média. Manuscritos do Novo Mundo foram escritos por volta do século XVI. O códice é um avanço do rolo de pergaminho, e gradativamente substituiu este último como suporte da escrita. O códice, por sua vez, foi substituído pelo livro.

 
O hipertexto traz de volta características da cultura do texto manuscrito e, sobretudo da cultura oral, pode-se interferir, acrescentar, alterar, é um texto efêmero, transitório e pouco controlado, exatamente como visto no filme.

 
Muitas são as vantagens do hipertexto, por ser multilinear e de multissequência trazem multiplicidade de possibilidades, de tamanho, é um texto mutável, variável, com um clique em link, – uma palavra-chave – abre-se uma outra palavra, ou um outro termo, ou um outro parágrafo e até mesmo um outro texto e assim sucessivamente. O hipertexto é semelhante aos processos cognitivos, com isso aproxima o ser humano aos seus esquemas mentais, por associações em rede.

 


Contudo, todas essas vantagens do hipertexto não estão ao alcance de todos. Pessoas analfabetas e iletradas, ou até mesmo pessoas alfabetizadas e letradas que ainda não conseguem operar um computador, ou qualquer outro aparelho tecnológico. Em seu depoimento, dona Maura disse ter usado apenas uma vez o computador, disse reconhecer as letras no teclado, mas não consegue gravar seus textos, nem mesmo o aparelho de telefone ela consegue operar, apesar de memorizar os números que necessita.

 

 
Conclui-se que o mesmo confronto entre o mundo oral e o mundo escrito surge novamente com outra roupagem, o confronto entre o mundo digital e o mundo não digital. Porém, a escrita, seja ela digital ou não, e a oralidade são indissociáveis, como já afirmado. Os poetas épicos registraram as histórias conhecidas e contadas pelo povo, e pela escrita elas ganharam contornos, correção e precisão para resistirem e existirem até hoje. Talvez em alguns anos, as histórias a que o mundo terá acesso serão aquelas que foram digitadas, serão as histórias das sociedades tecnologicamente sofisticadas, enquanto as outras histórias terão restado apenas na oralidade do povo até serem inundadas pelas águas da tecnologia.

 

 

*Fabiano Garcez é professor de Língua Portuguesa, literatura e produção de texto, atuando em escolas do Estado de São Paulo e da Prefeitura da Cidade de São Paulo

Adaptado do texto “A escrita em tempos de novas tecnologias da comunicação”

Revista Conhecimento Prático – Literatura Ed.65