Conheça o poeta da negritude

Em 1908, nascia em Recife Solano Trindade, poeta, pintor, folclorista, teatrólogo e militante do partido comunista

Por J. A. Ramos* | Adaptação web Caroline Svitras

Era filho de um sapateiro e uma quituteira. Seu pai, apesar de se dizer católico, praticava o candomblé. Estando muito próximo das tradições negras, Solano desde cedo estabeleceu íntimo contato com a cultura popular e folclórica nacional, dançava pastoril e bumba meu boi e lia desde textos de cordel à poesia romântica brasileira.

Grande defensor da arte popular como instrumento de valorização do povo, para ele a arte deveria ser um instrumento libertador, tendo o teatro popular na sua figura o principal defensor. No início de sua vida artística, estudou um ano no Liceu de Artes e Ofícios, mas abandonou um estudo mais aprofundado em artes plásticas para se dedicar principalmente à poesia, com a qual iria se tornar um dos mais expressivos símbolos nacionais da resistência negra ao racismo e à opressão social.

Sua fase literária mais importante inicia-se na década de 1930, quando escreve seus primeiros poemas retratando as dificuldades vividas pelos negros então no País. Na poesia a seguir, afirma o orgulho da sua descendência:

“ Sou negro
meus avós foram queimados
pelo sol da África
minh’alma recebeu o batismo dos tambores
atabaques, gonguês e agogôs.”

O escritor da resistência negra iniciou suas atividades nos anos 1930, escrevendo e participando de eventos importantes, como o I e o II Congresso Afro-Brasileiro, e fundando a Frente Negra Pernambucana e o Centro de Cultura Afro-Brasileiro.

Nesta mesma época, casa-se com dona Margarida, sua primeira esposa. Ela era cristã, frequentava a Igreja Presbiteriana, e acabou levando Solano Trindade para a sua crença, mesmo que por um breve período, conforme afirma em um dos seus versos:

“ Uma negra me levou a Deus.”

Nessa crença nova para ele, o poeta chega ao cargo de diácono, mas acaba desistindo e abandonando a Igreja1 ao perceber uma contradição profunda na religião, que não buscava ter uma atuação consequente em relação ao problema dos negros. Assim, baseado em um versículo da Bíblia que diz:

“Se tu não amas a seu irmão, a quem vês, como podes amar a Deus, a quem não vês?”

Já em 1934, participa do primeiro e segundo Congresso Afro-Brasileiro, que acontecem respectivamente em Recife e Salvador. Em 1936, funda também a Frente Negra Pernambucana e o Centro de Cultura Afro-Brasileiro, que tinham o objetivo de divulgar as ideias e os trabalhos de intelectuais e artistas negros. No início dos anos 1940, muda-se para Minas Gerais e logo após para o Rio Grande do Sul, onde inicia um projeto de teatro popular em Pelotas, ao lado do também poeta Balduíno de Oliveira. Mas uma grande enchente, ocorrida em 1941, impede o desenvolvimento da iniciativa, destruindo todo o material que haviam conseguido.

Segundo contaria sua filha Raquel Trindade em entrevista, quando Solano abandonou a igreja, filiou-se ao Partido Comunista Brasileiro, quando iniciou também uma vigorosa militância cultural.

Retorna por um breve período para o Recife e segue na sequência para o Rio de Janeiro, onde se integra à boêmia local, frequentando o famoso Café Vermelhinho. Lá, conhece importantes artistas, poetas, intelectuais, jornalistas e políticos que frequentavam a casa. Pouco tempo depois, em 1944, publica seu hoje célebre livro Poemas de uma vida simples, que incluía aquele que se tornaria seu mais famoso poema, “Trem sujo da Leopoldina”.

Nesse poema, o poeta utiliza-se da figura de linguagem como poucos poetas da nossa literatura. Foi gravada pelo grupo Secos e Molhados e censurada pela ditadura militar, sendo posteriormente gravada pelo cantor Ney Matogrosso. Eis aqui os primeiro e os últimos versos:

“ Trem sujo da Leopoldina
correndo, correndo
pra dizer
tem gente com fome
tem gente com fome
tem gente com fome

Piiiii

Só nas estações
quando vai parando
lentamente começa a dizer
se tem gente com fome
dá de comer
se tem gente com fome
dá de comer
se tem gente com fome
dá de comer.

Mas o freio do ar
todo autoritário
manda o trem calar
Psiuuuuuuuuuu.”

O poema imediatamente ganha uma enorme repercussão entre os trabalhadores. Entre os estudantes, ele também se torna muito popular com as leituras que Solano Trindade realizara no Centro de Cultura Popular (CPC), em uma época em que ocorriam enormes mobilizações operárias e estudantis.

Solano fixou residência em São Paulo na década de 1950, criando, na cidade de Embu, um polo de cultura e tradições afro-americanas e o Teatro Popular Brasileiro – TPB –, onde desenvolveu intensa atividade voltada para o folclore e para a denúncia do racismo, o que de certa forma revoluciona a arte de interpretar.

Um ano depois, Trindade funda, ao lado de Raimundo Souza Dantas, Aladir Custódio e Corsino de Brito, o Comitê Democrático Afro-Brasileiro. Durante todo o período, o poeta desenvolve uma série de iniciativas culturais inestimáveis para o movimento negro, mas com o golpe militar, em 1964, o rumo dos acontecimentos muda completamente e uma violenta repressão estrangularia temporariamente os movimentos e levantes populares.

Nossa primeira escritora

Nesse período, chega a ser preso duas vezes por sua militância no PCB; na segunda, sob a acusação infundada de esconder armas em sua casa. Acaba liberado sem maiores danos, mas anos depois teria o desgosto de ver um de seus filhos assassinado pela ditadura militar.

Quando preso, ele não se abala. Raquel (a filha) e a mãe, Margarida, percorrem as cadeias até encontrá-lo. Quando sai, Solano parece fortalecido. Embora tenha olhos tristonhos, seu otimismo é contagiante e renasce o seu amor pela arte e pela vida.

Continua escrevendo, fazendo teatro e espalhando sonhos e esperanças por onde passa. O interesse de Solano pela cultura popular ia além da teoria: não se cansou de fundar grupos teatrais. Preocupava-se com o que chamava de folclore, com as danças populares. Dizia sempre que era necessário pesquisar nas fontes de origem e devolver para o povo em forma de arte.

Sua experiência mais bem-sucedida nesse sentido foi o Teatro Popular Brasileiro, criado por ele, por sua esposa, Margarida Trindade, e pelo sociólogo Édison Carneiro em 1950.

Abolicionismo brasileiro

O TPB fazia uma leitura séria de danças como maracatu e bumba meu boi. Também promovia cursos de interpretação e dicção. O grupo era formado por operários, estudantes, gente do povo.

Convidado a ir à Europa, o TPB mostrou seu trabalho em vários países. De volta ao Brasil, Solano vem a São Paulo e é convidado pelo escultor Assis para se apresentar no Embu. Leva todo o seu grupo e dormem no barracão de Assis nos finais de semana, enquanto mostram sua arte para um número cada vez maior de pessoas. Participam da peça Gimba, de Gianfrancesco Guarnieri. Em 1967, apresentam-se para um dos criadores do conceito NegritudeLéopold Senghor.

Solano apaixona-se pelo Embu, muda-se para lá e sua casa torna-se um núcleo artístico. Embora na cidade já houvesse um movimento com artistas como Sakai e Azteca, é a atividade de Solano e Assis que faz surgir a feira de artesanato e revoluciona o local, aumentando o fluxo turístico. Solano chegou a ser conhecido como “o patriarca do Embu”. A casa e o coração de Solano estavam sempre prontos para receber as pessoas. Na panela, havia comida para quem chegasse fora de hora. Ironicamente, no final de sua vida, vários desses amigos se afastaram, mas talvez esse seja o cruel destino de alguns grandes criadores, de profetas e poetas assinalados.

Trindade faleceu no dia 19 de fevereiro de 1974, aos 66 anos, no Rio de Janeiro. Mas ele mesmo chegou a afirmar:

“ Me tornei cantiga determinadamente e nunca terei tempo para morrer.”

 

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Fotos: Conhecimento Prático – Literatura Ed. 55

*João Antônio Ramos é autodidata em pesquisas nas áreas de História e Literatura. Graduado pela USCS em administração de empresas. É autor de vários livros, ensaios e artigos, entre os quais A história da literatura em mil versos, da MGP Editora/SP. Funcionário público e blogueiro, trabalha atualmente em projeto de História do Grande ABC, sob o título de Guia Cronológico de História. Sua última publicação é A Gênese Psicológica do Romantismo, pela CBE/RJ.