Conheça o escritor Júlio Emílio Braz

O cosmopolita mineiro de Manhumirim que começou a carreira de escritor fazendo histórias em quadrinhos e hoje é um aclamado autor de livros infantojuvenis nos fala de sua carreira e sua paixão por ler e escrever

Por Franco de Rosa* | Foto: Acervo Júlio Emílio Braz / Carlos Portanova | Adaptação web Caroline Svitras

Júlio Emílio Braz iniciou sua carreira como escritor de roteiros para histórias em quadrinhos. É um dos autores emblemáticos da geração Spektro, da Editora Vecchi. Publicou em pequenas editoras brasileiras, depois suas HQs foram para Portugal, Bélgica, França, Cuba e EUA, tendo mais de cem títulos publicados. Com o mercado de quadrinhos em baixa no final dos anos 1990, Júlio Emílio, que já escrevia romances em formato de bolso, investiu na carreira de romances infantojuvenis. Como resultado, em 1988 recebeu o Prêmio Jabuti pela publicação de seu primeiro livro do gênero: SAGUAIRU.

 

Júlio é autor de “Enquanto Houver Vida Viverei”, uma obra emblemática sobre Aids, livro que narra o drama de um jovem que adquire a síndrome devido a um acidente com sua moto, após receber uma transfusão de sangue. A história trata da reação da família, dos amigos, da namorada. As dificuldades, o preconceito e a disposição para enfrentar uma nova realidade.

 

Júlio Emílio nasceu em 16 de abril de 1959, na pequena cidade de Manhumirim, aos pés da Serra de Caparaó. Aos 5 anos mudou-se para o Rio de Janeiro. Ele se considera um autodidata por ter adquirido o hábito de leitura intensa aos 6 anos.

 

Em 1990, escreveu roteiros para o programa “Os Trapalhões”, da TV Globo, e algumas mininovelas para uma emissora de televisão do Paraguai. Em 1997, ganhou o Austrian Children Book Award, pela versão alemã do livro “Crianças na escuridão”, que lá recebeu o título de “Kinder im Dulkern” e o Blue Cobra Award, no Swiss Institute for Children’s Book.

 

 

Você resolveu primeiro escrever HQ em vez de livros. Por quê?

A história é bem engraçada. Eu acabara de ficar desempregado em meados de 1980. Tinha abandonado minha faculdade de História, pois meu sonho era ser professor de História. Consegui concluir o curso apenas no final de 2014. O dinheiro da indenização havia acabado e as contas se acumulavam (além de meu nome ter ido pela primeira vez para o SPC). Não encontrava emprego no que eu trabalhava naquela época. Eu era Técnico em Contabilidade. Foi aí, em setembro, que um amigo de meu irmão, que trabalhava como office boy na Editora Vecchi, apareceu lá em casa dizendo que a editora estava publicando revistas de terror com artistas nacionais e procurava quadrinhistas, principalmente roteiristas. Como meu irmão vivia dizendo que eu escrevia, ele sugeriu que eu fosse lá e procurasse o Otacílio Barros, que era o editor das revistas. Eu tinha pastas e mais pastas com personagens que eu criara. Também não tinha nada a perder. Fui lá. Ele leu com a maior paciência do mundo, mas disse que não tinha como aproveitar nada do que eu levara, pois as revistas eram de terror. Não sei se foi o desapontamento que viu no meu rosto ou o excesso de imaginação dele, fato é que ele disse que entre o que eu havia levado ele encontrara um personagem interessante. Chamava-se originalmente Pedro Salvaterra e era uma espécie de Zorro pernambucano que lutava contra os holandeses durante a Insurreição Pernambucana. E que eu poderia aproveitá-lo se eu o transformasse num personagem de terror. Voltei para casa e, ainda dentro do ônibus, mudei o nome do personagem. Virou Jesuíno Boamorte. E sua biografia: ele continua a lutar contra os holandeses até que é traído, capturado e enforcado pelos holandeses. No entanto, sua ama de leite, uma antiga escrava, resgata seu corpo e conjura o Demo para que ele volte à vida. Ele se torna um  morto-vivo que combate os holandeses. O Ota gostou e me deu um presente:
entregou o roteiro a um baita ilustrador cearense, o Zenial Ferraz, radicado em Recife, que fez uma pesquisa iconográfica porreta e, na minha opinião, foi o responsável pelo sucesso do personagem. Naqueles tempos a revista em que a história foi publicada, a “Spektro”, tinha uma pesquisa no final e o público adorou a história. O Ota pediu uma continuação e foi assim que eu comecei nos quadrinhos.

 

Suas HQs foram curtas. Mas cada uma formava ou tratava da caraterística de um personagem. De certa maneira, se hoje reunirmos muitos destes roteiros, teríamos uma graphic novel, concorda?

No caso de muitas delas, com certeza. A série “Símio”, que Mozart Couto ilustrou, seria uma delas. Mas tem muitas outras. Algumas eram seriadas de propósito, outras aconteciam e tinham algo que permitiria a sua reunião em uma coletânea.

 

A questão racial e social foi predominante em suas obras em quadrinhos nos anos 80. Como foi focar a África e suas questões em suas obras?

Eu acho até engraçado que essa consciência étnica não era tão forte em mim em termos conscientes, mas aparecia de modo inconsciente. No Brasil se fala pouco disso, mas eu li vários artigos sobre o fenômeno em se tratando da África do Sul, que é a figura do mestiço. Eu sou, como a maioria dos brasileiros, fruto de grande miscigenação. Tenho sangue negro, índio e branco. O mestiço pertence mais facilmente à etnia visível em sua pigmentação, mas vive em um lar onde o pai é de uma cor, a mãe é de outra, os avós trafegam por uma terceira. Na África do Sul dos tempos do apartheid, difícil era ser negro, mas era muito pior ser mestiço, pois nenhum dos dois lados o aceitava. No meu caso, a primeira coisa que tive que fazer foi me descobrir como negro, que parece ser fácil… Basta um espelho, não? Mas não foi. A busca por abordar temáticas associadas à minha cor, penso eu, foi durante muito tempo a minha busca, consciente ou inconsciente, por minha aceitação enquanto tal. Outro ponto que explica o meu interesse pela África e pelas questões raciais se prendia ao fato de, pelo menos até meados da década de 1990, não existir muito material sobre o assunto e a discussão sobre africanidades se restringir aos estereótipos comuns vinculados às religiões de origem africana e todos os preconceitos e incompreensões que ainda as cercam; ao samba e ao futebol.  Eu queria saber mais e, nesta busca, acabei colocando o que descobria e vivenciava em meus textos, seja nos quadrinhos, seja nos infantojuvenis.

 

Cenas de uma HQ do Batman feita durante a parceria de Júlio Emílio Braz com Mike Deodato, e que nunca foi publicada. Foto: acervo dos autores.

 

 

Em paralelo com as HQs, você entrou para o ramo do livro de bolso. Em gêneros nos quais se exige um grande domínio de diálogos populares, praticamente narrando tudo por meio das falas. Como foi essa adaptação?

Até que foi simples. Tendo que escrever dois livros por semana, tudo era mais uma questão de transpiração do que de inspiração. A dificuldade inicial esteve sempre atrelada à narrativa, pois no caso do roteiro, a ênfase é maior nos diálogos e na descrição das cenas. No caso dos livros, o leitor tem que “ver” a partir das palavras e não do desenho. Mas eu aprendi rápido e cheguei a escrever 412 livros com 39 pseudônimos diferentes, quase todos de western.

 

Com a ausência do mercado de quadrinhos, você foi para o mercado de livros juvenis. Tendo as escolas, ou a adoção das obras por escolas, melhor dizendo, como apoio. Como foi essa passagem.

A mudança para os infantojuvenis sempre esteve relacionada a algo muito peculiar e todo meu. Eu escrevia “bolsolivros” de bang bang feito louco e um dia, parando para pensar, me assustou descobrir que eu sabia mais sobre os índios norte-americanos do que sobre os nossos. Minha avó paterna era índia e eu nem sabia de que tribo era a velha, nunca me interessei. Fiquei encucado: eu estava brasileiro, mas não me sentia como tal. Nesse meio tempo aconteceram duas coisas que mudaram a minha vida. A primeira aconteceu quando, ao ir a uma papelaria de meu bairro para comprar cartões de Natal (eu adorava mandar cartões de Natal quando tinha poucos amigos para enviá-los), encontrei uma promoção de livros. Eram infantojuvenis de uma editora que curiosamente seria a primeira a publicar um de meus livros tempos mais tarde, a Atual Editora. Comprei e fiquei muito interessado naquele tipo de publicação. Ao mesmo tempo, quando eu ia a São Paulo naqueles tempos, como não conhecia a cidade, me valia da ajuda de um grande amigo, o desenhista Roberto Kussumoto, que inclusive me apresentava a editores e a outros autores de quadrinhos. Kussumoto é uma pessoa fantástica e de grande coração que eu não sei por onde anda, mas a quem devo mais, e que um dia conseguirei pagar. Numa dessas ocasiões, ele acabou me levando a Editora FTD, para a qual ele estava ilustrando alguns infantojuvenis, e me apresentou ao editor da área naquela época, o Lino de Albergaria, que foi muito simpático e me permitiu lhe enviar um infantojuvenil para análise. Corri para casa e escrevi um: “Saguairu”, a história de uma caçada no Pantanal matogrossense. Ocorre que quando enviei o original para eles, o editor não era mais o Lino e a moça que ficou no lugar dele não se interessou pelo livro. Eu continuei escrevendo quadrinhos, livros de bolso, mas enviei o original para outras editoras até que a Atual, através da figura de um editor gente fina chamado Paulo Condini, o aprovou para publicação. Gostei, claro, mas o livro demoraria algum tempo para sair. Nem pensei em escrever mais infantojuvenis até que o livro ganhou o Jabuti de autor revelação de 1989. Essa premiação acabou me estimulando a escrever mais voltado para esta área, até porque ela remunera não de maneira direta mas através de direitos autorais, algo interessante naquela época.

 

Revista Conhecimento Prático – Literatura Ed. 64

Adaptado do texto “Júlio Emílio Braz”

*Franco de Rosa é jornalista, ilustrador e editor, atualmente à frente da Editora Kalaco.