Conheça o escritor argentino Júlio Cortázar

De agosto de 1914 a fevereiro de 1984

Da Redação | Fotos retiradas da revista | Adaptação web Caroline Svitras

“Ao lermos a obra-prima de um homem de gênio, é com prazer que encontramos nela todas as reflexões que havíamos desprezado; alegrias, tristezas que havíamos reprimido – todo um mundo de sentimentos desdenhados por nós, pois seu verdadeiro valor, ao vê-los reconhecidos nas páginas dos livros, de súbito nos é revelado.”
Marcel Proust (1871-1922)

A citação acima bem poderia se chamar Cortázar por Proust, pois esse era o principal objetivo do autor – oferecer uma reconsideração, uma mudança de perspectiva do vasto campo de ação que compõe o habitus humano – a “ecologia” do Homem… –, introduzindo um mundo “à sua maneira”, o qual, no entanto, não se isola do real. E por ser 2014, o centenário de seu nascimento, ofereço na Almanaque recortes da vida de Cortázar, colocados em boxes independentes que podem ser lidos, aleatoriamente, “à moda” Rayuela (1963) [Jogo de Amarelinha], a obra magma do escritor.

 

Infância e Juventude ou Nunca se sabe o que o futuro nos reserva

Filho de um diplomata argentino, Julio Florencio Cortázar nasceu em 1914 na embaixada argentina, em Bruxelas, e retornou para a Argentina, sua terra natal, aos quatro anos de idade. Logo em seguida, seus pais se separaram e ele passou a ser criado exclusivamente pela mãe, pela avó e por uma tia. Sua infância não foi das mais felizes. Cortázar era uma criança bastante doente e passava muito tempo acamado. Como lenitivo, sua mãe passou a sugerir a leitura dos escritos que ela mesma selecionava, o que o levou a se interessar pela literatura. Formou-se professor em Letras em 1935. Em seguida, iniciou seus estudos na Faculdade de Filosofia e Letras, mas teve de abandonar o curso por problemas financeiros. Em 1938, editou Presencia, livro de poemas, cuja publicação foi um fracasso. Em virtude disso, amigos o aconselharam a voltar aos continhos que escrevia desde sempre… Sorte nossa. Foi seu afastamento da poesia o que lhe garantiu a fantástica carreira de contista e romancista.

Engajamento político

Quando Perón (1895-1974) assumiu a presidência da Argentina em 1946, Cortázar renunciou ao cargo de professor de literatura da Facultad de Filosofía y Letras de la Universidad Nacional de Cuyo. Socialista, passou a apoiar diversas lutas durante o período das guerrilhas na América Latina e sua literatura foi se radicalizando em experimentos vanguardistas, mas também absorvendo reflexões das lutas que acompanhava. Tornou-se amigo de vários escritores guerrilheiros, como Ernesto Cardenal e Roque Dalton. Dizia, sempre provocativo: “Temos mais necessidade de Che Guevaras da linguagem e de revolucionários da literatura do que de letrados da revolução”. Por fim, em 1951, aos 37 anos, Cortázar, por não concordar com a ditadura na Argentina, partiu para Paris (França), pois havia recebido uma bolsa do governo francês para ali estudar por dez meses, onde veio a se instalar definitivamente.

 

Características literárias

Cortázar é considerado um dos autores mais inovadores e originais de seu tempo. Mestre do conto curto e da prosa poética, comparável a Jorge Luis Borges e Edgar Allan Poe, foi o criador de novelas que inauguraram uma nova forma de fazer literatura na América Latina, rompendo os moldes clássicos mediante narrações que escapavam da linearidade temporal, nas quais as personagens adquiriam autonomia e profundidade psicológica inéditas. Seu livro mais conhecido é Rayuela (O Jogo da Amarelinha), de 1963, que permite várias leituras orientadas pelo próprio autor. O livro, composto de capítulos curtos e numerados – nos quais Cortázar discute os questionamentos do homem diante de seu destino, conflitos, dúvidas e paixões –, pode ser lido de diferentes formas. O leitor pode começar a partir do capítulo 1 e ir até o 56, tendo, assim, uma bem construída história sobre um triângulo amoroso, pode optar por começar no capítulo 73 e seguir a ordem indicada por Cortázar ou, ainda, criar sua própria sequência. Nas palavras do próprio autor, “o livro é muitos livros”.

Últimos dias

Em 1983, quando a Argentina voltou a ser um estado democrático, Cortázar fez uma última viagem à sua pátria, onde foi recebido calorosamente por seus admiradores, que o paravam na rua e lhe pediam autógrafos, em contraste com a indiferença com que foi recepcionado pelas autoridades nacionais. Depois de visitar vários amigos, regressou a Paris, quando, pouco depois, lhe foi outorgada a nacionalidade francesa. Após a morte de sua segunda e última esposa, Carol Dunlop, Cortázar foi acometido por uma profunda depressão e morreu de leucemia em 1984. O escritor foi enterrado no Cemitério do Montparnasse, em Paris, na mesma tumba de Carol, na qual há a imagem de um cronópio, personagem criado pelo escritor.

 

Revista Conhecimento Prático – Literatura Ed. 53

Adaptado do texto “Recortes de Júlio Cortázar (agosto de 1914-fevereiro de 1984)”