Conheça mais sobre a Mafalda

Quem já não ouviu falar de Mafalda, a garotinha argentina “(...) espelho da classe média latinoamericana e da juventude progressista” Aguilera, Ricardo; Díaz, Lorenzo (1989), defensora da Humanidade e da paz mundial, famosa por seu inconformismo em relação aos valores representados por seus pais?

Por Cláudia Coelho* e Luzdalva S. Magi** | Adaptação web Caroline Svitras

 

Essa menina, que encantou e até hoje encanta a todos por sua sagacidade, irreverência e outros predicados e que neste ano completa 53 anos, chegou ao mundo sem estardalhaço — em três tímidas tiras publicadas no início de 1964 no suplemento humorístico Gregorio da revista literária Leoplán. Sua estreia oficial, entretanto, se daria somente em 29 de setembro de 1964, quando passou a estrelar, inicialmente apenas com seu Papá Tomás, um cartum fixo da revista semanal Primera Plana. No mesmo ano, surge sua Mamá Raquel, e no início de 1965 o amigo Felipe ganha forma.

 

Com o passar do tempo, Joaquín Salvador Lavado, ou, simplesmente, Quino, seu criador, foi acrescentando personagens às historietas, dentre os quais merecem destaque os amigos de Mafalda — Filipe, Manolito, SusanitaMiguel ‘Miguelitto’ Pitti e Liberdade – e seu irmão Guille ‘Gui’.

 

Mafalda já foi traduzida para mais de trinta idiomas. Em 1969, seu criador, Quino e sua criação ganharam notoriedade internacional com a publicação na Europa de Mafalda, a Rebelde, a primeira edição italiana de Mafalda, com prefácio de ninguém menos que Umberto Eco. Nele, o escritor, filósofo, linguista e tradutor italiano definiu a personagem como “uma heroína zangada, que não aceita o mundo como ele é, que reivindica seu direito de continuar a ser uma menina e se recusa a assumir um universo corrompido pelos pais”; afirmou ser importante ler as tiras de Mafalda para entender a Argentina, mas ressaltou o caráter universal das inquietudes manifestadas por ela e seus amigos.

 

Quino parou de produzir e publicar as tirinhas de Mafalda em 1973. Depois disso, o cartunista ainda usou a protagonista das histórias que lhe deram fama mundial algumas poucas vezes para promover campanhas em prol dos direitos humanos, a mais notória delas a Convenção dos Direitos Humanos da Criança de 1976, da Unicef.

 

Quino e Mafalda

 

Mafalda continua viva e atual; suas histórias, lidas, relidas, republicadas e estudadas – vestibulandos que já precisaram explicar as ideias de Mafalda nas redações que o digam. E para que possamos entender um pouco melhor esse fenômeno, proponho fazer um passeio pelo universo dessa menina — que nasceu em uma época conturbada, de golpes militares na América Latina e da Guerra do Vietnã.

 

 

UM POUCO DE HISTÓRIA

Enganam-se os que pensam que Mafalda seja fruto de um arroubo revolucionário de seu criador. Na realidade, ela nasceu quando, em 1962, a Agens Publicidad, por intermédio do humorista e escritor Miguel Brascó, entrou em contato com Quino para que este criasse umas tirinhas de jornais para a fábrica de eletrodomésticos Mansfield. O objetivo era divulgar os produtos da empresa subliminarmente. Brascó, que já havia trabalhado anteriormente com Quino e lembrava-se que o cartunista certa vez comentara que gostaria de criar uma história de quadrinhos com crianças, sugeriu ao cartunista que criasse personagens que fossem uma combinação das histórias de Minduim e de Belinda. As únicas condições impostas pela Mansfield eram que nas historinhas aparecessem eletrodomésticos e que os nomes dos personagens começassem com “M”.

 

Quino produziu, então, várias tiras protagonizadas por uma típica família de classe média: um casal com dois filhos, um menino e uma menina, na qual já se notam algumas das características que marcariam a etapa posterior de Mafalda, em especial no casal. A garota também já denota alguns dos traços de personalidade pelos quais viria a se tornar conhecida; o garoto, no entanto, em nada se assemelha a nenhum dos personagens clássicos da etapa posterior.

 

 

O nome Mafalda foi inspirado no bebê do filme Dar La Cara, de 1962, o qual foi baseado em romance homônimo de David Viñas.

 

A criação de Quino foi oferecida ao Diario Clarín, o jornal de maior de maior circulação da Argentina, que ao descobrir a estratégia de marketing por trás das “ingênuas” tirinhas cancelou o contrato já firmado para a publicação das historietas.

 

Mafalda ficou de molho por dois anos, até que no início de 1964, Brascó, decidiu publicar três tiras das produzidas para a campanha da Mansfield no suplemento humorístico Gregorio da revista Leoplán — uma revista quinzenal, de cunho literário, que tinha um projeto editorial bem avançado para a época — da qual era diretor. Ainda nesse ano, Julián Delgado, diretor da Primera Plana, propõe a Quino começar a publicar regularmente na revista semanal duas tirinhas de Mafalda por edição, totalmente desvinculadas de propósitos publicitários. Foi a revanche que, aquele que em 1963, após a publicação de seu primeiro livro de coleção de desenhos animados Mundo Quino já era considerado um dos principais humoristas gráficos de seu país, esperava. Sorte nossa.

 

O cartunista adaptou as tiras já criadas e em suas palavras, “como não tinha de elogiar as virtudes de nenhum aspirador, Mafalda reapareceu reclamona e carrancuda”. A estreia oficial se deu em 29 de setembro de 1964, com a heroína e seu Papá Tomás; em 6 de outubro surge Mamá Raquel e, em 19 de janeiro de 1965, o amigo Filipe.

 

Em 9 de março, em virtude de diferenças de critério e pontos de vista, Quino termina sua relação com a Primera Plana e, graças, mais uma vez ao intermédio de Brascó, passa a publicar suas histórias no jornal El Mundo, à época, um dos periódicos de maior circulação na Argentina. Neste ano, Mafalda ingressa no jardim da infância, aparecem Manolito e Susanita. No início de 1966, Miguelito entra em cena. Ainda nesse ano, Mafalda passa a ser publicada em vários periódicos no interior da Argentina e é lançado o primeiro livro de coleção de tirinhas de Mafalda, cuja primeira edição é esgotada em uma questão de dias. Em agosto de 1967, a Mamá de Mafalda fica sabendo que está grávida. Entretanto, como consequência do golpe de estado do general Juan Carlos Onganía, na Argentina, em 1966, o El Mundo é obrigado a encerrar suas atividades em 22 de dezembro de 1967, e Mafalda deixa de ser publicada por cinco meses.

 

 

Em 2 de junho de 1968, após cerca de cinco meses de reclusão, Mafalda reaparece no periódico Siete Días Ilustrados. Guille, seu irmão, já aparece como bebê, e Sergio Moreno, da redação da revista, destaca 21 de março de 1968 como data de seu nascimento no editorial. Neste ano, trinta tiras de Mafalda são traduzidas para o italiano.

 

Em 1969, o primeiro livro de Mafalda publicado fora das fronteiras da Argentina é publicado na Itália — Mafalda la contestataria [Mafalda, a rebelde] editado na Itália, por Umberto Eco. Ao final desse mesmo ano, o Papá de Mafalda adquire um Citroën 2CV (um carro econômico, característico da classe média argentina dos anos sessenta e setenta).

 

Em 15 de fevereiro de 1970, surgiu Liberdade, que Quino declarou, ao completar 80 anos em 2012, para surpresa de todos, preferir à Mafalda por ser ela “uma rebelde utópica, que se opõe a tudo o que é estabelecido”.

 

Por fim, em 25 de junho de 1973, a última tira de Mafalda foi publicada por decisão do próprio Quino.

 

Uma das versões correntes é que ele teria parado de produzir as histórias de Mafalda ao ver-se obrigado a entregá-las para edição com duas semanas de antecedência, pois apreciava usar em seu trabalho, em suas próprias palavras, “as notícias do dia, o que saía nos jornais”. No entanto, acredito, assim como muitos que acompanharam e acompanham sua trajetória que, como ele mesmo afirmou durante as comemorações do cinquentenário de sua criação que “estava cansado de fazer sempre a mesma coisa”. A decisão passou até por áreas conjugais, segundo Quino “minha mulher estava chateada de não saber se podíamos ir ao cinema, convidar amigos para jantar, pois eu ficava até as dez da noite com as tiras. Além disso, era muito difícil não repetir. Havia um professor da minha geração, Oski, e ele sempre nos advertia para que não tivéssemos um personagem fixo”, continua, “e que, se tivéssemos, deveríamos pegar a tira e tapar o último quadrinho com a mão. Se o leitor adivinhasse como terminaria, deveríamos parar de fazê-lo. Me pareceu um bom momento e não imaginei que 40 anos depois Mafalda continuaria vigente”.

 

MAFALDA E SEU UNIVERSO

Quino valeu-se, primeiramente, de uma criança de uma típica família de classe média para expor suas ideias sobre a realidade de seu tempo. O pai, funcionário de uma companhia de seguros, adora cultivar plantas em seu apartamento e sempre entra em crise quando reflete sobre sua idade. A mãe, típica dona de casa, não completou os estudos e, por isso, é vista como “medíocre” por Mafalda.

 

 

Mafalda, com humor, critica a postura de seus pais perante a sociedade, preocupa-se com a humanidade, questiona os problemas políticos, de sexo, e até científicos que atingem sua alma infantil, ao mesmo tempo em que reflete os conflitos e angústias que as pessoas de seu tempo enfrentam, sobretudo com a progressiva mudança de costumes e a já incipiente introdução da tecnologia no cotidiano.

 

Um bom exemplo disso é a tira onde Mafalda ouve no rádio:

“O Papa fez um chamado à paz.”

E, com sua ingenuidade infantil, responde ao aparelho:

“E deu ocupado como sempre, não é?”

 

Aos poucos, o universo de Mafalda tornou-se mais abrangente. Quino criou um microcosmo representativo do contraste de valores da época, incluindo novos personagens às suas historietas, dentre os quais merecem destaque:

 

Susanita, Susana Clotilde (ou Susana Beatriz), criada em 6 de julho de 1965, representa a mulher burguesaque almeja a tranquilidade de uma família bem constituída, filhos para criar e amigas com quem passar as horas de enfado. Sempre fora da realidade, busca não se envolver com os problemas do mundo e vive presa às aparências. Enquanto Mafalda personifica a mulher liberada que busca igualdade em relação ao sexo oposto, Susanita representa a visão tradicional da mulher subserviente, o que ocasiona frequente atrito entre as duas garotas.

 

Filipe, criado em 19 de janeiro de 1965, é um sonhador que odeia a escola, mas que trava intensas batalhas com sua consciência e seu sento nato de responsabilidade. Apesar de estar mais avan-çado que Mafalda na escola, vê a vida de forma mais simples e mais de acordo com sua idade. Foi inspirado no jornalista Jorge Timossi, amigo de Quino.

 

 

– Manolito, criado em 29 de março de 1965, é filho de um comerciante e representa as ideias conservadoras e capitalistas dentro da história. Ambicioso e materialista, não gosta dos Beatles. Tira notas baixas em todas as matérias (menos em matemática, por causa das contas que aprende no mercado com o pai).

 

Guille ‘Gui’, criado em 1968, é o irmão caçula de Mafalda. Esperto para sua idade, é retratado como uma criança que começa a perceber o mundo. Adora sopa, o que provoca asco e raiva na irmã.

 

Miguel ‘Miguelito’ Pitti, criado em 1966, é mais sonhador que Filipe e costuma fazer perguntas absurdas sobre a realidade. Transita entre reflexões etéreas e típicas queixas de crianças, do gênero, “sempre eu, sempre eu…”, é filho único. É também o mais inocente da trupe.

 

– Liberdade, a última personagem a unir-se à turma, criada em 15 de fevereiro de 1970, é uma menina baixinha, chegando a ser menor que Guille. Ao contrário dos outros amigos de Mafalda, quase sempre conservadores, Liberdade também é bastante liberal e fala sobre como o povo precisa ter consciência da situação do país, organizar uma revolução social e reestruturar a Argentina. Entre as crianças, é a que mais conversa com Mafalda sobre política; a diferença entre as duas é que Mafalda é menos de esquerda que a amiga. Liberdade deseja ser tradutora de francês, como a mãe.

 

 

POR FIM…

As tiras de Mafalda apresentam uma visão límpida da sociedade argentina da época em que foram criadas, questionando o status quo por meio dos olhos de uma menina de 6 anos sem soberba, que adora os Beatles e odeia sopa, e é crítica ferrenha de valores quase patriarcais, colonialistas e antipovo da elite de seu país.

 

No entanto, o que levou Mafalda a sobreviver ao tempo não foi seu discurso político, mas sim seu caráter
humano, por mostrar sentimentos e questões sociais ainda presentes no âmago das pessoas e que demandam reflexão – o que na visão de seu criador, que se autodenomina um pessimista, deveria ser motivo de angústia e não de celebração. Enquanto alguns quadrinistas se distinguem pela sofisticação do traço, Quino tomou a via oposta. Segundo a  jornalista Nubia Silveira “o traço simples, leve, limpo e expressivo do cartunista transforma em obra de arte cada quadro de uma tira. Os pequenos detalhes compõem as historietas que nos fazem sorrir e pensar. Os temas são os cotidianos: as guerras mundiais, o engarrafamento no trânsito, o alto custo de vida, as férias na praia, o aprendizado escolar”. A riqueza de Mafalda, com certeza, está nas ideias expostas. Não, por acaso, Quino é citado em suas biografias como cartunista, desenhista e pensador.

 

Equivalente a Quino no Brasil seria o cartunista Henrique de Sousa Filho, o nosso Henfil (1944-1988). A diferença entre ambos é que Henfil viveu sob a ditadura e Quino encerrou sua mais famosa tira quando se instaurava a ditadura na Argentina. Talvez por isso Henfil seja mais ácido em sua crítica ao elitismo de setores sociais brasileiros,com personagens fantásticos, que mesmo sem terem ganhado a notoriedade mundial de Mafalda, contêm a mesma força e o mesmo caráter contestatório, na vontade expressa de ambos os gênios em respeitar a dignidade humana, a inteligência e a diversidade, com ampla liberdade de criação.

 

Mafalda ganhou corações e mentes em todo planeta. Seu alcance é comparável apenas ao de Charlie Brown e Snoopy, da série Minduim [Peanuts] do cartunista norte-americano Charles Schulz, nos anos 1950. A diferença reside em que Mafalda, uma típica argentininha, traz em seu bojo as características do humor latinoamericano, que ri de si mesmo e ridiculariza os que querem determinar todas as regras de vida, sem maiores questionamentos. Esse humor refinado, abraçado por milhares de crianças, jovens e adultos de todo o mundo, com toda certeza, ainda continuará a entreter muitas das próximas gerações.

 

 

*Cláudia Coelho, coordenadora editoral das revistas Conhecimento Prático Literatura e Conhecimento Prático Língua Portuguesa da Editora Escala Educacional, é graduada em Letras e especialista em Psicopedagogia e Tradução. É professora de Língua Portuguesa, com ênfase em redação e gramática, Língua Inglesa, e Português para estrangeiros. Blog: http://ritualdoalimento.blogspot.com.br

**Luzdalva S. Magi, formada em Letras pelo Centro Universitário Fundação Santo André (FSA), é professora de Língua Portuguesa, de Língua Inglesa, de Língua Francesa e suas Literaturas, de Técnicas de Redação e Análise do Discurso é também de Crítica Literária. Trabalha na Rede Particular, Estadual e Municipal da cidade de Santo André, no ABC.

Adaptado do texto “Parabéns, Mafalda”

Fotos: Revista Conhecimento Prático – Literatura Ed. 55