Conheça obras de ficção científica no Brasil

Em dezembro de 2007, a Editora Devir, de São Paulo, lançou em sua coleção Pulsar, a antologia Os Melhores Contos Brasileiros de Ficção Científica, que reúne cronologicamente onze histórias, publicadas entre 1882 e 1997, incluindo até o pouco conhecido Ricardo Teixeira, escritor fluminense de origem portuguesa

Por Marco Aurélio Lucchetti * | Foto: Shutterstock| Adaptação web Caroline Svitras


Em abril de 2012, a mesma editora fez a primeira reimpressão do livro. É um exemplar dessa reimpressão que tenho nas mãos, para escrever esta resenha. Editado pelo escritor Roberto de Sousa Causo (seus contos apareceram nas mais diversas revistas brasileiras, como Ciência Hoje, Dragão Brasil, Isaac Asimov Magazine, Playboy e em publicações da Argentina, Canadá, China, Finlândia, França, Grécia, Portugal, República Tcheca e Rússia), que também é ensaísta (é autor do monumental Ficção Científica, Fantasia e Horror no Brasil: 1875 a 1950, publicado em 2003 pela Editora UFMG, de Belo Horizonte), ilustrador, antologista e resenhista (algumas de suas resenhas foram publicadas na extinta Isaac Asimov Magazine, a versão brasileira da norte-americana Isaac Asimov’s Science Fiction Magazine), Os Melhores Contos de Ficção Científica é uma obra importante, pois apresenta um panorama da evolução da ficção científica em nosso país, além de lembrar, principalmente para leitores e críticos preconceituosos – que consideram a ficção científica um gênero menor –, que algumas das figuras de maior prestígio da nossa Literatura escreveram histórias nesse gênero.

 

O livro inicia com uma introdução, na qual Causo historia de forma concisa a ficção científica no Brasil. Só essa introdução, que é bastante informativa (mas sem didatismo) e tem o subtítulo de ‘Um Resgate da Ficção Científica Brasileira’, já faz a antologia merecer ser comprada e lida.

 

O primeiro conto, intitulado ‘O Imortal’, foi escrito por Machado de Assis (1839-1908). Sempre que se fala em Machado de Assis, vêm à mente os romances Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881) e Dom Casmurro (1900). Não são muitos leitores que se lembram dos contos machadianos. Porém, Machado de Assis escreveu uma grande quantidade de contos (dentre os mais conhecidos desses contos, podemos citar: ‘Cantiga de Esponsais’, ‘A Cartomante’, ‘O Enfermeiro’, ‘A Igreja do Diabo’, ‘Missa do Galo’ e ‘Noites de Almirante’). E alguém já disse que “a forma literária a que melhor se adequou o gênio criador de Machado de Assis foi, sem dúvida, o conto”. Portanto, ‘O Imortal’ é uma excelente oportunidade para se conhecer o talento de Machado de Assis como contista.

 

Machado de Assis | Foto: Conhecimento Prático Literatura Ed. 58

 

Publicado pela primeira vez em 1882, entre 15 de julho e 15 de setembro, em seis partes, na revista feminina carioca A Estação, ‘O Imortal’ é baseado num outro conto de Machado, ‘Rui de Leão’ e narra a história de um homem que, graças a uma poção indígena, não consegue morrer.

 

“Um dia, dizendo-lhe eu que não compreendia tamanha tristeza, quando eu daria a alma ao diabo para ter a vida eterna, meu pai sorriu com tal expressão de superioridade, que me enterrou cem palmos abaixo do chão. Depois, respondeu que eu não sabia o que dizia; que a vida eterna afigurava-se-me excelente, justamente porque a minha era limitada e curta; em verdade, era o mais atroz dos suplícios.Tinha visto morrer todas as suas afeições; devia perder-me um dia, e todos os mais filhos que tivesse pelos séculos adiante. (…) Tinha provado tudo, esgotado tudo; agora, era a repetição, a monotonia, sem esperança, sem nada. Tinha de relatar a outros filhos, vinte ou trinta séculos mais tarde, o que estava agora dizendo; e depois a outros, e outros, e outros, e outros, um não acabar mais nunca.”

(Trecho de ‘O Imortal)

 

 

O conto seguinte, ‘Meu Sósia’, é da autoria de Gastão Cruls (1888-1959). Filho de Louis Ferdinand Cruls (1848-1908), geógrafo e astrônomo belga radicado no Brasil, Gastão Cruls exerceu a medicina e foi bibliotecário, romancista, contista e historiador. Dentre os romances de Gastão Cruls, destacam-se: A Amazônia Misteriosa (1925), um dos mais importantes romances brasileiros de ficção científica, e Elza e Helena (1927), que tem como tema o desdobramento da personalidade (uma mulher vive dupla vida). E ‘Meu Sósia’, produzido provavelmente sob a influência de ‘William Wilson’ (1840), do escritor norte-americano Edgar Allan Poe (1809-1849), enfoca o tema do duplo. O narrador, Paulo de Alencastro, é um funcionário público que se tornou um assíduo frequentador da Biblioteca Nacional, a fim de colher informações em antigas obras relativas à História da América, pois pretendia escrever um romance no qual haveria “páginas de evocação ao brutal despertar do Novo Mundo, sob o pulso implacável dos conquistadores”. E, em suas visitas à Biblioteca Nacional, Paulo toma conhecimento de que outra pessoa consulta essas mesmas obras. A seguir, descobre que essa pessoa tem grande semelhança com ele, também se chama Paulo de Alencastro e – absurdo dos absurdos!– está escrevendo um romance parecido com o seu. Depois, no final, o leitor fica se perguntando se tudo não passa de uma alucinação de Paulo, já que a história é narrada em primeira pessoa. Os cinco contos seguintes, ‘Água de Nagasáqui’, ‘A Espingarda’, ‘O Copo de Cristal’, ‘O Último Artilheiro’ e ‘Especialmente, Quando Sopra Outubro’, são frutos da Primeira Onda da Ficção Científica Brasileira, aquele período especialmente fértil iniciado em 1958 e terminado em 1971.

 

 

Escrito por Domingos Carvalho da Silva (1915-2003) e publicado originalmente na antologia Além do Tempo e do Espaço: 13 Contos de Cientificção, ‘Água de Nagasáqui’ expressa o temor da guerra atômica e dos efeitos da radiação, narrando, em tom melancólico, a história de Takeo Matusaki, um japonês que, após beber água e comer frutos dos arredores de Nagasáqui, torna-se radioativo e, apesar de não morrer, transforma em defuntos todos os parentes (inclusive os pais) e amigos. Relativo a ‘A Espingarda’, podemos dizer que foi concebido por um dos principais nomes da ficção científica brasileira, André Carneiro, é um dos contos do livro O Homem Que Adivinhava (1966) e descreve o desastroso encontro de dois sobreviventes do holocausto nuclear, deixando evidente, como reconheceu a crítica norte-americana M. Elizabeth Ginway, “traços da tensão existente entre o Brasil desenvolvido do Sul e o Brasil subdesenvolvido do Norte”.

 

Quanto a ‘O Copo da Cristal’, é uma narrativa envolvente, escrita por Jeronymo Monteiro (1908-1970). Esta resenha não estaria completa, se não falássemos um pouco do escritor e jornalista Jerônymo Monteiro.

 

Bastante ativo nos anos 1930 e 1940, Jerônymo Monteiro dedicou-se à literatura infantil, à literatura de Detetive & Mistério (escreveu, sob o pseudônimo de Ronnie Wells, as aventuras do detetive Dick Peter, que foram narradas num seriado radiofônico e também numa série de livros e em histórias em quadrinhos desenhadas primeiramente por Messias de Mello e, depois, por Jayme Cortez) e às histórias de ficção científica. Foi Diretor de Redação do Magazine de Ficção Científica, a versão brasileira da revista norte-americana The Magazine of Fantasy and Science Fiction. Dentre suas obras de ficção científica, gostaríamos de destacar: a coletânea Tangentes da Realidade (1969) e as novelas 3 Meses no Século 81 (1947) e o Os Visitantes do Espaço (1963). Voltando, agora, a falar de ‘O Copo de Cristal’. O conto foi concluído em maio de 1964 e incluído em Tangentes da Realidade; e relata a história de um copo, feito de um estranho cristal inquebrável, que, à noite, reflete uma luz azulada na qual podem ser vistas guerras do passado e do futuro e um porvir nada promissor para o ser humano na Terra.

 

 

“Passaram toda a noite imersos no mundo luminoso do copo de cristal; ela vendo massas humanas a caminhar por um terreno sem fim, entremeadas de pesados carros de guerra. Via o brilho das armas, das pontas das lanças; o reflexo da luz nas lâminas de espadas desembainhadas. Via rolos de pó erguerem-se por cima dos soldados. Ele via apenas sombras de movimentos caprichosos, (…) ouvindo, empolgado, a descrição que Car fazia das cenas. (…) Era como se, tremendamente míope (…).estivesse vendo um filme sem óculos.”

(Trecho de ‘O Copo de Cristal’)

 

No que diz respeito a ‘O Último Artilheiro’, que faz parte de O 3° Planeta, uma antologia de histórias escritas e ilustradas pelo artista plástico e arquiteto Levy Menezes (1922-1991), Roberto de Sousa Causo escreveu o seguinte, na introdução do conto: “(…) é uma história de pós-apocalipse. (…) a narrativa envolve e nos faz penetrar na mente desesperada de um sobrevivente a vagar por um mundo que parece aguardar a qualquer momento o seu último suspiro – talvez sob a forma do troar de um canhão.” E ‘Especialmente, Quando Sopra Outubro’, cuja protagonista é uma menina solitária chamada Ângela, que tem o dom de materializar seres e coisas criadas em sua imaginação, é um conto de Rubens Teixeira Scavone (1925-2007), autor dos romances O Homem Que Viu o Disco-Voador, Degrau para as Estrelas (1961), O Lírio e a Antípoda (1965), Clube de Campo (1973) e O 31° Peregrino (1993). Escrito com grande lirismo, no qual se nota influência de Ray Bradbury (1920-2012), ‘Especialmente, Quando Sopra Outubro’ foi publicado pela primeira vez no livro de contos Passagem para Júpiter (1971).

 

 

“Não precisava fechar os olhos, mas apenas recorrer ao tenaz impulso da sua vontade: e lá surgia o seu mundo. Quando as coisas começavam a delinear-se, a concentração aumentava, tornava-se imperioso continuar. Os olhinhos da menina se contraíam, fixavam-se com angústia no ponto visado: a clareira banhada por uma réstia de luz, o espaço vazio no lago em meio aos nenúfares, o caminho da encosta ladeado pelos abetos. Então, as aparições iam se configurando.”

(Trecho de ‘Especialmente, Quando Sopra Outubro’)

 

As últimas quatro histórias de Os Melhores Contos Brasileiros de Ficção Científica são: ‘Exercícios de Silêncio’, escrita pela médica homeopata Finisia Fideli, possivelmente a principal autora brasileira de ficção científica; ‘A Morte do Cometa’, da autoria de Jorge Luiz Calife, que ficou famoso por ter fornecido a Arthur C. Clarke (1917-2008) a ideia para 2010: Uma Odisseia no Espaço II (2010: Odyssey Two, 1982), a continuação de 2001/ Odisseia no Espaço (2001 – A Space Odyssey, 1968); ‘A Nuvem’, que marcou a estreia profissional de Ricardo Teixeira e foi publicada na antologia Dinossauria Tropicalia, organizada por Roberto de Sousa Causo e lançada em 1994 pelas Edições GRD; e ‘A Mulher Mais Bela do Mundo’, criada por Roberto de Sousa Causo e que procura retratar o tema do contato entre humanos e alienígenas sob um prisma terceiro-mundista.

 

Ilustração de 2001: Uma Odisseia no Espaço

 

“Era um holoprojetor. Mostrava imagens do planeta do embaixador, imagens de um  undo super populoso, com seus habitantes empilhados em favelas-arranha-céus, prédios lutando ombro a ombro para se pendurarem sobre encostas de montanhas. Seu ‘povo’ andando em andrajos, atirando o lixo morro abaixo, enchendo as margens dos rios com ele, morrendo aos milhares em enchentes e chuvas torrenciais (…).”

(Trecho de ‘A Mulher Mais Bela do Mundo’)

 

Para concluir, resta dizer que antologias como Os Melhores Contos Brasileiros de Ficção Científica são sempre bem-vindas, pois normalmente trazem para o presente histórias que estavam perdidas em antigos livros e revistas.

 

 

 

* Marco Aurélio Lucchetti é escritor, graduado em Letras e Mestre e Doutor em Ciências da Comunicação pela Escola de Comunicação e Artes da USP. É autor de As Sedutoras dos Quadrinhos, A Ficção Científica nos Quadrinhos e Realidade-Fantasia em Valentina – O Quadrinho Autoral no Exemplo Guido Crepax.

 

Adaptação do texto “Um panorama da ficção científica brasileira”

Revista Conhecimento Prático Literatura Ed. 58