Conheça as obras do polêmico romancista Afrânio Peixoto

Nascido na cidade baiana de Lençóis, no ano de 1876, Afrânio Peixoto foi um dos mais polêmicos autores de nossa literatura

Por Maurício Silva* | Fotos retiradas da Revista | Adaptação web Caroline Svitras

Em pé: Rodolfo Amoedo, Artur Azevedo, Inglês de Sousa, Olavo Bilac, José Veríssimo, Sousa Bandeira, Filinto de Almeida, Guimarães Passos, Valentim Magalhães, Rodolfo Bernadelli, Rodrigo Octavio e Heitor Peixoto. Sentados: João Ribeiro, Machado de Assis, Lúcio de Mendonça e Silva Ramos.

Embora tenha atuado como médico reconhecido no meio (assumiu, no Rio de Janeiro, o cargo de inspetor de Saúde Pública, além de diretor do Hospital Nacional de Alienados); como infatigável educador (foi professor na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, além de professor titular da Faculdade Nacional de Direito da Universidade Federal do Rio de Janeiro); como diretor de instituições de ensino (diretor da Escola Normal do Rio de Janeiro, além de diretor da Instrução Pública do Distrito Federal); e como político atuante (se elegeu Deputado Federal pela Bahia, seu estado natal), alcançou fama e sucesso por meio da literatura, tendo se tornado um dos principais escritores brasileiros das primeiras décadas do século XX, alcançando ainda o máximo reconhecimento nesta seara ao ser eleito membro da Academia Brasileira de Letras, em 1910.

 

Trabalho literário

Como romancista, esse admirador inconteste do estilo rebuscado de Euclides da Cunha padeceu das mesmas limitações estéticas que revelara como crítico, denunciando uma habilidade artística relativamente restrita. Dele diria, com impiedosa ironia, um crítico ferino como Agrippino Grieco, em sua Evolução da Prosa Brasileira: “Sente-se a impressão de que as suas heroínas caboclas leram todos os setenta volumes de Bourget. Sua psicologia é madrigalesca e seu estilo é de um homem de boa sociedade que não deseja nunca pisar ou acotovelar as damas da alta roda”. Opinião não menos contundente tinha dele Osório Borba, que em sua A Comédia Literária, além de o acusar de apoiar o franquismo na Espanha e o salazarismo em Portugal, o acusa de, esteticamente, viver cinquenta anos atrasado, preocupando-se com purismos gramaticais que já não mais imperavam na língua nacional.

 

Apesar desses e de outros ataques que sofreu, não se pode negar a Afrânio Peixoto uma participação ativa na produção literária das primeiras décadas do século XX, legando-nos obras que, se não primam pela criatividade artística ou originalidade artística, pelo menos acusa um incontestável empenho no sentido de registrar cenários, pessoas e episódios dos mais variados, produzindo uma obra que se situa entre o mundo urbano e o regional.

 

Como autor urbano, Afrânio Peixoto nos legou romances de relativo sucesso, como A Esfinge (1908), As Razões do Coração (1925) e Uma Mulher como as Outras (1928). Formalmente, são obras marcadas pelo certo preciosismo linguístico e pelo purismo gramatical; pela redundância e pelo apego aos estrangeirismos, o que não era absolutamente incomum na época; pelo cenário idealizado e pelo diálogo artificial. No que se refere aos temas e motivos literários, tais romances trazem como marca principal certa padronização temática, também muito comum aos autores academistas de então: em geral, o enredo gira em torno de um triângulo amoroso, centra-se na sociedade mundana do Rio de Janeiro da Belle Époque – retratada a partir de um maniqueísmo que a coloca entre a encarnação do bem e a representação do mal – e procura abordar aspectos caros ao mais ingênuo psicologismo literário, fazendo de Afrânio Peixoto, nos dizeres acertados de Antonio Candido, em seu Literatura e Sociedade, um típico autor de romances amenos, próximos da crônica social.

 

Mas nem tudo o que se refere à produção ficcional de Afrânio Peixoto reside nesse indefinível interstício literário, caracterizado pelo meio-tom estético: sua maior contribuição situa-se justamente num dos mais importantes e complexos componentes da estrutura ficcional: a confecção das personagens.

 

A despeito da extensa galeria de personagem fúteis criada pelo romancista, sobrelevam-se as suas já famosas figuras femininas, perfis de mulheres que, mutatis mutandis, só encontram correspondência – no que possuem de substância psicológica e atração idiossincrática – nas personagens femininas de um José de Alencar ou de um Machado de Assis. Não parece exagero afirmar, afinal de contas, que Afrânio Peixoto teria levado ao extremo a criação e a utilização romanesca do perfil psicológico feminino, fato reconhecido pela crítica. É certo que, a par desse firme traçado, suas personagens podem, vez por outra, parecer demasiadamente superficiais, comprometendo assim a elaboração de uma psicologia mais densa; mas esse não é um fato que o desabone completamente, na sua inegável capacidade de criar personagens ficcionais e infatigável esforço de representá-las no ambiente citadino do Rio de Janeiro do começo do século.

 

Como regionalista, Afrânio Peixoto apresenta uma produção marcada por certa estilização, o que não impediu de produzir romances igualmente de relativo sucesso, como Maria Bonita (1914), Fruta do Mato (1920), Bugrinha (1922) e Sinhazinha (1929). Mais uma vez, é verdade, persiste num erro comum à época: a padronização temática, com triângulos amorosos, fugas e abandonos da cidade e muitos finais felizes. Estilisticamente, permanecem algumas soluções pouco originais: uma descrição ambiental idealizada, conformada por uma paisagem branda, límpida, quase ingênua; e novamente uma linguagem preciosa, com diálogos pouco naturais. Tudo isso resulta em tramas inseguras, pouco imaginativas, o que o obriga, constantemente, a buscar saídas inócuas, lançando mão de recursos estilísticos suspeitos, o que é reconhecido até por seus mais encomiásticos companheiros de Academia, como se verifica na Crítica: Primeira Série, de Humberto de Campos.

 

Humberto Campos: um maranhense polígrafo e polêmico

 

Afora isso tudo, finalmente, não se pode negar que Afrânio Peixoto contribuiu, de modo categórico com a produção literária brasileira, a partir de alguns achados mais felizes: renovou o interesse pelo folclore regional; esmerou-se no emprego da concentração dramática; avançou na introspecção que, mais tarde, faria de Graciliano Ramos um mestre insuperável; deixou quadros psicológicos inesquecíveis, sobretudo referentes à mulher do campo.

 

Assim, não foi apenas um autor de histórias alambicadas de amores castos – embora tenha flertado com um neorromantismo já ultrapassado –, logrando criar alguns romances que, sobretudo para quem aprecia tramas e dramas femininos, vale a pena conhecer.

 

Revista Conhecimento Prático – Literatura Ed. 59

Adaptado do texto “Afrânio Peixoto, o acadêmico e suas controvérsias”

*Maurício Silva é professor de Língua Portuguesa e Literatura Brasileira nos programas de graduação e pós-graduação da Universidade Nove de Julho. Autor de A Hélade e o Subúrbio: Confrontos Literários na Belle Époque Carioca (São Paulo, Edusp, 2006) e de O Novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa (São Paulo, Contexto, 2008), entre outros títulos.