Confira o sucesso da obra de Cervantes

Há obras que sobrevivem ao passar dos séculos, colocando seus autores em um seleto grupo de “imortais” das artes

Por Leo Ricino* | Fotos retiradas da revista | Adaptação web Caroline Svitras

Cervantes: Ladrão do Tempo

Assim como Camões, morto em 1580, continua sendo o mais conhecido escritor português, Miguel de Cervantes Saavedra, nascido em 1547 e morto em 1616 (nas palavras de um contemporâneo dele, “Viejo, soldado, gentilhombre y pobre”), também permanece como o mais famoso escritor espanhol. Em 2016, no dia 23 de abril, completaram-se quatrocentos anos de sua morte. Mesma data da morte de William Shakespeare (ver box).

Novela ou Romance de Cavalaria

Antes do que conhecemos hoje como romance, fenômeno reconhecido como tal a partir do século XIX, no Romantismo, havia suas parentes mais próximas, as novelas de cavalaria, gênero predominante na Idade Média, mas que se estendeu à época clássica, abrangendo Renascença, Barroco e Arcadismo. Dentre as novelas de cavalaria, enquadra-se o Dom Quixote, de Cervantes, que deve ter sido produzido como antinovela de cavalaria e acabou sendo a mais perfeita delas.

 

Antinovela de cavalaria? Basta ver o pretexto para a loucura de Dom Quixote: sua alucinada paixão pela leitura de quantas novelas de cavalaria pôde, novelas, em geral, eivadas de “realidades” absurdas e, portanto, irrealizáveis, leituras que o faziam não dormir, nem se alimentar direito, desfazer-se de seus bens para mais adquiri-las e acreditar que suas fantasias eram de fato a realidade do mundo, levando o nobre cavaleiro a perder o juízo.

 

 

E só para que se tenha ideia da força das novelas de cavalaria, Otto Maria Carpeaux, no volume IA de sua primorosa História da Literatura Ocidental, 1960, Edições O Cruzeiro, página 397, afirma:

“…, da mesma maneira que o Amadis, de Feliciano Silva — e o resultado é uma luta homérica entre portugueses e espanhóis: cada uma das duas nações ibéricas atribui a si a glória de ter criado o livro que foi, depois da Bíblia, o mais lido de todos os tempos.”

 

El Ingenioso Hidalgo Dom Quixote de La Mancha

Esse é o título da primeira parte do Dom Quixote, publicada em 1605. Como naquela época não havia o rigor de hoje contra plágios, assim como não havia direitos autorais, alguém, o ilustre desconhecido Alonso Fernández de Avellaneda, da vila de Tordesilhas, possível pseudônimo de algum inimigo de Cervantes, aproveitou a brecha e publicou, em 1614, o que seria uma segunda parte do Dom Quixote.

 

Miguel de Cervantes: vida e obra do gênio da literatura ocidental

 

Isso levou Cervantes a apressar-se na publicação da verdadeira segunda parte, em 1615, chamada O Engenhoso Cavaleiro Dom Quixote De La Mancha. Na dedicatória desta segunda parte ao Conde de Lemos, uma espécie de mecenas de Cervantes, o autor afirma:

“… e agora digo que as calçou e se pôs a caminho e, se ele lá chegar, parece-me que algum serviço terei prestado a Vossa Excelência, porque são muitas as instâncias que de imensas partes me fazem que lho envie, a fim de tirar a náusea causada por outro Dom Quixote, que, com o nome de segunda parte, se disfarçou e correu pelo orbe;…” (Dom Quixote, Clube do Livro, sem data, p. 447)

 

Mas é mais enfático no Prólogo Ao Leitor dessa segunda parte, quando diz:

“Valha-me Deus, com quanta vontade deves de estar esperando agora, leitor ilustre, ou plebeu, este prólogo, julgando achar nele vinganças, pugnas e vitupérios contra o autor do segundo Dom Quixote; quero dizer, contra aquele que dizem que se gerou em Tordesilhas e nasceu na Terragona! Pois em verdade te digo que te não hei de dar esse contentamento, que, ainda que os agravos despertam a cólera nos mais humildes peitos, no meu há de ter exceção esta regra. Quererias que eu lhe chamasse asno, atrevido e mentecapto; mas tal me não passa pelo pensamento; castigue-o o seu pecado e trague-o a seu bel-prazer, e que lhe não faça engulhos.” (idem, p. 449)

 

Sucesso e sentido do Dom Quixote

A aceitação imediata do “Dom Quixote” talvez possa ser atribuída ao sucesso das próprias novelas de cavalaria. E para garantir a aura dessa novela de cavalaria, um dos tradutores da obra, Ernani Ssó, com posfácio ao leitor de Jorge Luís Borges e Ricardo Piglia, afirmou numa entrevista que procurou captar o verdadeiro espírito do original e não usou sequer palavras nascidas em nossa língua a partir de 1900.

 

A intenção foi manter o verdadeiro tom humorístico do original, talvez o maior responsável pelo sucesso imediato, já que, afinal, era mais uma novela de cavalaria. Esse tom humorístico, irônico, é o sentido primeiro do Dom Quixote: sátira contra as próprias novelas de cavalaria. É possível que o povo da época não tenha alcançado essa oposição às novelas de cavalaria, pois outro foco imediato dos autores era divertir o povo. E diversão há de sobra em Dom Quixote.

 

No entanto, o tempo faz novas leituras das grandes obras literárias. Na oposição entre o fidalgo Alonso Quijano, o dom Quixote, e seu escudeiro Sancho Pança, que, à semelhança de espanhóis e portugueses, que ainda fazem isso hoje, só se comunicava através de máximas e provérbios, há quem veja a batalha entre o real e o ideal.

 

Dom Quixote de La Mancha

 

Dom Quixote é o ideal, a fantasia, levados a extremo tal que alcançam o desvario. Sancho Pança representa a realidade, vista na primeira parte como o seu próprio contrário, respingando na burrice, na falta de senso, e acaba na segunda parte impondo-se como a verdade da condição humana. Sancho Pança, na segunda parte, ganha a importância do restabelecimento dos fatos sobre o idealismo. Ou seja, a vida é como é, os fatos se impõem e o sonho desvanece. A síntese abaixo, de Otto Maria Carpeaux, no volume II da História da Literatura Ocidental, Edições O Cruzeiro, 1960, página 1113, sintetizando outros críticos, diz mais do que eu poderia dizer:

 

“Essa interpretação antiga não explica bem a simpatia do autor pelo seu herói louco, simpatia que se comunica a todos os leitores, e baseada no fato de que não somente os ideais falsos são derrotados na vida e no Dom Quixote, mas também os ideais verdadeiros; o cavaleiro à antiga, que defende a fé, a justiça e os indefesos, tem de desaparecer num mundo sem fé, sem justiça e muito utilitário.”

 

Revista Conhecimento Prático – Literatura Ed. 68

Adaptado do texto “Cervantes: 400 anos de um dos Ladrões do Tempo”

*Prof. Leo Ricino – professor na Fecap – Fundação Escola de Comércio Álvares Penteado, e instrutor na Ernst & Young – Universidade Corporativa.