Confira as gafes nas traduções de livros para o português

Traduzir é uma tarefa que exige pesquisa, criatividade e, sobretudo, respeito ao texto original

Por José Augusto Carvalho | Foto: Shutterstock | Adaptação web Caroline Svitras

 

 

Ora é uma expressão típica da cultura do povo que nem sempre tem seu equivalente na língua materna do tradutor, ora é uma canção tradicional desconhecida por quem conheça a língua estrangeira, ora uma rima, ora uma aliteração, ora uma tirada de espírito. E esse trabalho sério de pesquisa, de análise, de interpretação, de mergulho na ficção alheia nunca é lembrado pelo leitor e ainda menos pelos editores ou revisores.

 

Começando pelo nome

O título de um livro é extremamente importante tanto do ponto de vista da obra quanto do ponto de vista do marketing. Há títulos maltraduzidos que fazem sucesso: O Corcunda de Notre Dame é um romance que nunca foi escrito por Victor Hugo; o que ele escreveu foi Nossa Senhora de Paris (Notre Dame de Paris). O corcunda (Quasímodo) é apenas um personagem. L’Étranger, de Camus, deveria ser traduzido como O Estranho, e não como O Estrangeiro; Le Mur, de Sartre, deveria ser traduzido como O Paredão (o conto que deu nome ao livro fala de dois condenados à morte por fuzilamento, numa prisão nazista). O livro Té a l’opio, de Bianca Tam, que traduzi para a Record, deveria ter por título Chá com ópio, e não Chá de ópio; Le cran d’arrêt, de Emmanuele Bernheim, recebeu da editora o título de Porte de arma, dando a ideia de que se trata de revólver. O título que sugeri à editora foi, portanto, rejeitado: Canivete de pressão. O romance de Jean Lévi, Le grand empereur et ses automates, que fala da vida do imperador T’sin Che-Huang Ti, que construiu a muralha da China e unificou o império, teve como título O imperador chinês, por causa de um filme de sucesso na época: O último imperador. Foi rejeitado o título que sugeri: O exército de terracota, porque o imperador havia mandado construir um exército de terracota, ainda hoje existente, para espantar os hunos que ameaçavam invadir a China.

Jean Paul Sartre foi filósofo, novelista, ativista político, crítico e biógrafo. Nascido em Paris, Sartre é uma figura essencial no campo do existencialismo filosófico e fenomenologia, sendo figura de referência no cenário de Filosofia Francesa do século XX. Sua obra serviu e serve de influência até os dias de hoje não somente na filosofia, mas também no campo da sociologia, antropologia e crítica literária.

Agrippino Grieco, crítico literário impressionista, mordaz, irônico e implacável, morto em 1973, era temido pelos escritores porque sua coluna, em rodapé de jornal, era muito lida e apreciada, mais por suas tiradas irônicas do que pelo mérito de sua análise. Um dia ele foi procurado por um jovem autor que queria a opinião dele a respeito de um romance que lhe trazia, ainda datilografado. Agrippino Grieco recusou-se a dar a opinião requerida porque mal lhe sobrava tempo para ler livros já editados e não poderia “perder” tempo lendo um livro no datiloscrito, sobretudo porque ele lia para comentar publicamente, em jornal, e seria covardia falar de um livro a que o público ainda não tinha acesso. Diante da insistência do autor, que, já desesperado, lhe pedira que pelo menos folheasse o livro para sugerir um título, Grieco perguntou se o livro falava de tambores. O autor estranhou a pergunta, mas respondeu que não. Em seguida Grieco perguntou se o livro falava de cornetas. O autor, ainda mais surpreso, respondeu também que não. E Grieco arrematou: Você queria um título. Então aqui está um: Nem tambores, nem cornetas”. E foi embora sem despedir-se do autor novato. A anedota ilustra o fato de que um título deve referir-se ao que o livro contém, e não ao que o livro não contém. Dizem que Alceu de Amoroso Lima  presentou ao editor seu livro Idade e tempo. O editor mandou que ele incluísse no título a palavra sexo, ainda que não houvesse nada de sexo no livro. E ficou assim o título: Idade, sexo e tempo, que vendeu como água. Essa anedota ilustra o fato de que um título deve também atender ao problema de marketing, já que se trata de uma mercadoria. Mas o exagero é burrice. O livro de Jersey Kosinski, Being There, teve como título em português O videota, pois o personagem central, um jardineiro, quando não tratava do jardim da grande casa do patrão, passava o resto do tempo vendo televisão. Nada conhecia do mundo exterior à mansão onde trabalhava. Por causa do filme, estrelado por Peter Sellers, a editora mudou o nome do título a partir da segunda edição: Muito além do jardim. Ignoro se terá havido uma terceira edição por causa desse disparate. A tradução de títulos de filmes normalmente é ruim. O belo western estrelado por Alan Ladd, Shane, recebeu em português o título horroroso que nada tem a ver com a trama do filme: Os brutos também amam. O musical West Side Story, estrelado por Natalie Wood, baseado na fábula (no sentido formalista do termo, e não no sentido vizinho do apólogo ou da parábola) de Romeu e Julieta, de Shakespeare, teve por título em português uma aberração que afugentou espectadores, crentes de que se tratava de algum melodrama romântico: Amor, sublime amor.

 

Nascido em 1913 e falecido em 1960, Albert Camus foi um escritor, jornalista e filósofo de grande influência na França – embora tenha nascido na Argélia, em uma família de origem francesa. Escritor prolífico, foi agraciado com um Prêmio Nobel da Literatura.

Outros desafios

Às vezes é extremamente difícil vencer o desafio de transpor uma língua para outra. O escritor francês Georges Perec (1936-1982), autor de Les Choses (1965), L’homme qui dort (1967) e La Vie, mode d’emploi (1978), publicou em 1969 um romance lipogramático a que falta por opção e trabalho do autor a vogal e: La Disparition. O próprio título é um desafio, embora fácil de resolver: em lugar de “O desaparecimento”, poder-se-ia dizer “O sumiço”. A vogal e é talvez a de maior frequência na língua francesa. Imagine-se o trabalho do escritor para evitar todas as palavras que contêm essa vogal. Eis a regra enunciada e seguida pelo próprio autor: “Il faut, sinon il suffit, qu’il n’y ait pas un mot qui soit fortuit, qui soit dû au pur hasard, au traintrain, au soi-disant naïf, au radotant, mais qu’a contrario tout mot soit produit sous la sanction d’un tamis contraignant, sous la sommation d’un canon absolu!”. Em tradução aproximada, mantendo a vogal e, isto é, desrespeitando o trabalho lipogramático do autor (lipograma é um texto a que falta voluntariamente uma letra usual): “É preciso, senão suficiente, que não haja uma palavra que seja fortuita, que seja devida ao puro acaso, à repetição monótona, ao pretenso ingênuo, à tagarelice, mas que, ao contrário, toda palavra seja produzida sob a sanção de um crivo constritivo, sob a ordem (somatório) de um modelo absoluto!”. Certas expressões populares do francês já me deram dores de cabeça, como tradutor. Pediram-me que traduzisse as letras de algumas músicas de Georges Brassens (1921- 1981), entre as quais “Le Testament” e “Marinette”. O problema de Brassens é que ele utiliza expressões nem sempre fáceis de traduzir e mistura o popular com o culto, uma linguagem familiar com uma linguagem inconveniente. Aliás, ele mesmo confessa isso numa de suas canções (“Le pornographe”): Je suis le pornographe / Du phonographe, / le polisson / de la chanson (“eu sou o pornográfico do fonógrafo, o devasso da canção). Na canção “Le testament”, a primeira que me pediram que traduzisse, ele subverte a expressão faire l’école buissonnière que significa, em gíria escolar, “faltar à aula, gazetear”. Na canção, para dizer que pretende demorar muito para morrer, ele diz: Je ferai la tombe buissonnière (ao pé da letra: vou gazetear o túmulo, o que não faz muito sentido em português). Em outra parte da mesma canção, ele diz: Je veux partir pour l’autre monde / par le chemin des écoliers. Literalmente: “Quero partir para o outro mundo / pelo caminho dos estudantes”. O caminho dos estudantes que não gostam de ir à aula ou gazetear é o caminho mais longo. Em “Marinette”, a outra canção que me pediram que traduzisse, o refrão diz: j’avais l’air d’un con, o que, em linguagem mais educada, significa “fiquei com cara de babaca”; em outra parte, ele diz: La belle était déjà morte d’un rhume mal placé. Ao pé da letra: “A bela já tinha morrido de uma gripe malcolocada”. Acontece que rhume mal placé, a gripe malcolocada, é a designação metafórica de uma doença venérea – gonorreia. Pode-se traduzir literalmente, mas o sabor da ironia, o bom humor, a metáfora genial e o jogo de palavras do original se perdem na tradução.

 

Ao falar da implantação dos métodos audiovisuais no ensino do francês nas Alianças Francesas, na década de 60, Denis Ropa, numa conferência na antiga Faculdade de Filosofia, citou um professor contrário aos métodos, que disse: idiot-visuel, num trocadilho difícil de traduzir, porque é impossível trazer para o português a aproximação fônica que existe entre idiot-visuel (idiota visual) e audio-visuelle (audiovisual).

 

Uma simples pergunta como Comment va Monsieur? apresenta problema para o tradutor. Essa frase não pode ser traduzida como “Como vai o senhor?”. O pronome de tratamento “o senhor” é usado em português como forma de respeito entre pessoas de pouca intimidade, ainda que de mesma classe social. Em francês, no entanto, o pronome de tratamento Monsieur, da pergunta acima transcrita, é usado pelos criados no trato com o patrão. Diga-se o mesmo para o feminino Madame.

 

 

Quando os problemas são maiores

A gafe na tradução pode ser inocente, mas também pode trazer consequências desastrosas e não apenas para o tradutor. Em seu belo livro Escola de Tradutores (6. ed. rev. e ampl. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1987), Paulo Rónai informa, nas páginas 30-31, transcrevendo depoimento de Peter Farb, no livro Word Play: what happens when people talk. Londres: Jonathan Cape, 1973, p. 198: “No fim de julho, a Alemanha e a Itália renderam-se e os Aliados dirigiram um ultimato ao Japão para que ele se rendesse também. O Primeiro-Ministro do Japão convocou uma conferência de imprensa na qual declarou que o seu país iria mokusatsu o último aliado. A escolha desse verbo fora de extrema infelicidade. O Premier aparentemente pretendia dizer com aquilo que o gabinete levaria o ultimato em consideração. Mas a palavra tinha também outro sentido, o de ‘não tomar conhecimento’, e foi este que os tradutores de inglês da Domei, a Agencia Radiofônica japonesa, empregaram. O mundo ficou ciente de que o Japão rejeitara o ultimato – em vez de levá-lo em consideração. Essa interpretação errada da Domei levou os Estados Unidos a mandar seus B-29, carregados de bombas atômicas, sobre Hiroxima e Nagasáqui. Evidentemente, se mokusatsu tivesse sido traduzido corretamente, não teria havido necessidade de lançar a bomba atômica” (grifos do autor).

 

Quando eu traduzia Les masques, de Régis Debray – a tradução saiu pela Record em 1989 –, vi a seguinte frase, no texto original: “Te quiero, te quiero tanto. Je t’aime, en français”. E lasquei: “Te quiero, te quiero tanto. Eu te amo, em português”. Obviamente, eu nunca poderia traduzir literalmente. Mas o revisor castigou-me e lançou a correção absurda que leva, para cúmulo do meu tormento, a minha assinatura: “Te quiero, te quiero tanto. Eu te amo, em francês”. Está lá, nas pp. 20-1, do livro lançado pela Record. Assumi, por causa do meu nome na folha de rosto, uma tolice que não foi minha.

 

Numa outra tradução (não anotei o nome do livro), a cena se passa no séc. XVIII. Num diálogo, alguém diz algo óbvio a que o interlocutor replica, com ironia: Tiens, je ne m’enfaisais aucune idée, Monsieur de la Palisse! Traduzi: “Ora veja só, eu nem tinha pensado nisso, Conselheiro Acácio!”. Monsieur de la Palisse foi marechal de França e morreu numa batalha em 1525. Seus subordinados e amigos, em sua homenagem, fizeram uma canção cuja letra dizia, em certo momento:“Un quart d’heure avant sa mort / Il était encore en vie” (Em tradução mais ou menos livre: “Quinze minutos antes de morrer, ele ainda estava vivo”). A ideia dos versos era a de que, até quinze minutos antes de sua morte, o marechal lutava bravamente, estava bem vivo. Hoje chama-se “Monsieur de la Palisse” a todo aquele que disser um truísmo, uma tautologia, uma verdade óbvia. Assim que terminei minha tradução dei-me conta de que, na época em que a história do livro se desenrola, o Conselheiro Acácio ainda não tinha sido criado por Eça de Queirós. Felizmente corrigi a tempo o meu texto e substituí “Conselheiro Acácio” por “Sabidão”. Alberto Manguel, no livro Uma história da leitura (São Paulo: Companhia das Letras, 1997, p. 61), ensina que o anexim latino Verba volant scripta manent (em tradução livre: “O dito voa, o escrito permanece”) originalmente significava que as palavras ditas em voz alta voavam para proveito dos que as ouviam e não podiam ou não sabiam ler, enquanto a palavra escrita permanecia morta, parada, na estante. O autor informa que, nas línguas primordiais da Bíblia, o hebreu e o aramaico, o ato de ler e o ato de falar têm o mesmo nome. O sentido do provérbio latino alterou-se radicalmente: as palavras ditas se perdem no ar, enquanto as palavras escritas se perpetuam nos livros.

 

Entrevista com Jaime Pinski: a experiência de ser editor

 

Traduções que deram certo

Uma tradução malfeita pode dar certo e fazer sucesso. O sapatinho de Cinderela, de Charles Perrault, dos Contes de ma mère l’Oye (coletânea de 1697, que inclui “O “Gato de Botas”, “O Pequeno Polegar”, “A Bela Adormecida”, entre outras histórias) não era, originalmente de vidro ou de cristal, mas de vair. O nome francês antigo vair significa “pele de esquilo”, que se usava na fabricação de sapatos de luxo. O tradutor alemão do conto Cendrillon (Cinderela), achou que vair significava vidro (em francês, verre, de pronúncia igual a vair), sem atentar para o fato de que Cinderela, por mais leve que fosse, não teria seu peso suportado por um sapato de vidro. Mas, como o exagero surrealista faz parte das histórias infantis, o erro genial se espalhou sem que ninguém contestasse, uma vez que ninguém tampouco contestou a impossibilidade de um sapato ter um número especial que só sirva para um único pezinho feminino em todo o reino…

 

Erro grosseiro e nada inteligente, contra o qual se insurgiu Ambrose Bierce no seu Dicionário do diabo, é o que cometeu o anônimo tradutor do brocardo latino Exceptio probat regulam, que impingiu a ideia generalizada e burra de que “a exceção confirma a regra”. O erro do traduto rfoi ter dado ao verbo latino probo, as, avi, atum, are o significado de “provar”, quando, segundo Lewis & Short (A Latin Dictionary. Oxford: Oxford University Press, l879, s.v. probo), o sentido de probare é “to try, to test, to examine, inspect, judge of any thing in respect of its goodness…”; isto é, probare significa “testar”, “pôr à prova”, e não “confirmar”. A exceção não confirma a regra: a exceção testa a regra, põe a regra à prova! O pior é que a tradução burra está tão generalizada e difundida que vai ser difícil erradicá-la, o que é profundamente lamentável.

Reconto de uma História Árabe: As Mil e Uma Noites e o Poder das Histórias

Os maiores erros do tradutor são fruto da tradução de oitiva, isto é, da tradução automática para o português de palavras semelhantes, na língua estrangeira. Rato e rojo, em espanhol, significam “momento” e “vermelho” e não “rato” e “roxo”. Em inglês, libra-ry e actual significam “biblioteca” e “real” e não “livraria” e “atual”; to pretend, em inglês, é “fingir” e não “pretender”. Essas palavras heterossemânticas (semelhantes na forma mas de sentidos diferentes) motivaram Paulo Rónai a publicar pela Nova Fronteira, em 1967, um Guia Prático da Tradução Francesa, mostrando, por exemplo, que régime de bananes não é “regime de bananas”, mas “cacho de bananas” e que faire un somme não é “fazer uma soma”, mas “tirar uma soneca”.

 

Durante a Idade Média, até o séc. XVI, o termo utilizado para designar  profissional da medicina era físico e não médico, inicialmente, talvez, por força do prestígio da família Médici (que significa “médicos”, em italiano), que não queria que seu nome fosse confundido com os praticantes do curandeirismo. Os que não eram curandeiros, mas bons profissionais da saúde, eram chamados arquiatros, cujos pacientes eram, em princípio, reis e nobres. Foi por isso que o livro The Physician, de Noah Gordon, tem o título em português O físico, na tradução de A. Soares Rodrigues.

 

O protagonista do romance O menino do dedo verde, de Maurice Druon, se chamava Tistou, que D. Marcos Barbosa traduziu para Tistu, mantendo a pronúncia original, sem atentar para o fato de que Tistou, em francês, é amálgama da expressão Tisse tout (“tece tudo”), que caracteriza o personagem do livro. Aliás, essas aglutinações são comuns em histórias em francês. Picsou (= pique sou, “pega centavo”) é o nome do tio Patinhas, o milionário personagem de Walt Disney; Petibonum, uma cidade das historinhas de Astérix, se lê em francês como petit bonhomme (“homenzinho”). A frase de Pompeu citada por Plutarco em A vida de Pompeu, Navigare necesse, vivere non necesse, significa “Navegar é necessário; viver não é necessário”. A substituição de “necessário” por “preciso” levou à interpretação errônea de que “preciso” aí significa “com precisão”, isto é, navegar é algo que exige precisão nas manobras, enquanto viver se constitui de atos que não necessitam de precisão.

Resenhas literárias podem contribuir com a formação de leitores. Entenda

A frase dita por rompeu se origina do fato de que havia ameaça de tempestade, e os amigos de Pompeu o aconselharam a não embarcar. Mas o dever imperioso de Pompeu era mais importante que sua própria vida. Essa é a explicação de Paulo Rónai no glossário do seu livro Não perca o seu latim (Rio de Janeiro: Nova Fronteira,1980, s.v. Navigare necesse…). Fernando Pessoa, ao parodiar a frase, manteve o sentido original do adjetivo invariável necesse: “Viver não é necessário; o que é necessário é criar”.

 

Em O Pequeno Príncipe, de Saint-Exupéry, Dom Marcos Barbosa traduziu o nome do personagem Renard no feminino: “Raposa”. O diálogo em português entre a Raposa e o Principezinho dá a falsa impressão de um namoro, algo perfeitamente plausível no mundo possível de uma história fantástica. O ideal seria manter o masculino do nome original, Raposo, para ficar mais nítida a ideia de amizade pura e desinteressada.

 

 

Um possível engano

Quando traduzi o último volume da trilogia do egípcio nobelizado Nagib Mahfuz – O jardim do passado (Record, 1992) – acho que cometi uma gafe que não corrigi. Dois pais falavam a respeito de seus respectivos filhos, de mesma idade. Um deles gabava-se do seu rapaz, já bem encaminhado na vida, e o outro lamentava que o futuro do seu ainda era incerto. O pai feliz consolou o outro com um provérbio árabe, não adaptado pelo tradutor francês, que falava de um sultão que se enforcara na porta da própria casa. O contexto indicava que a ideia do provérbio era de que algo bom agora não significa bom também amanhã, e que algo ruim pode melhorar com o tempo. Como se tratava de consolar alguém que se lamentava, achei por bem, depois de muito pensar, arriscar a seguinte adaptação: “Até a araruta tem seu dia de mingau” (que se encontra na p. 196 do romance traduzido). A felicidade do meu achado deu-me ânimo bastante para prosseguir na tradução, todo contente. Só depois de ter enviado os datiloscritos à editora (na época eu ainda não tinha computador) foi que me ocorreu a possibilidade de ter cometido, realmente, uma grande burrice, motivada pela minha ignorância da cultura árabe: é bem possível que, no Egito, não exista araruta.

 

 

*José Augusto Carvalho é mestre em Linguística pela Unicamp e Doutor em Letras pela USP, é autor de um Pequeno Manual de Pontuação em Português e de uma Gramática Superior da Língua Portuguesa, ambos em segunda edição pela Thesaurus e de Problemas e Curiosidades da Língua Portuguesa, recém-publicado (2014) pela Thesaurus Editora.

 

Fotos e textos adaptados da matéria “Gafes nas traduções”

 

Revista Conhecimento Prático – Literatura Ed.59