Confira a origem de Tarzan

Existem alguns personagens cujo alcance supera todas as barreiras: as fronteiras entre países, a passagem do tempo e o próprio limite das páginas para as quais foi criado. Mais de 100 anos depois de sua criação, certamente em qualquer lugar do planeta, alguém já ouvir falar de Tarzan, a maior obra de Edgar Rice Burroughs (1875 -1950)

Por Adilson de Carvalho Santos | Foto: © Disney Entertainment/Divulgação| Adaptação web Caroline Svitras

 

Homem-macaco, como Tarzan ficou conhecido, fez de Burroughs um homem rico, e um escritor prolífico se valendo de sua prodigiosa imaginação. O autor, em sua juventude, se alimentava de pulps, livros de aventura publicados em papel barato, o que o estimulou a escrever também. Seu primeiro livro veio a ser “A Princess of Mars”, que originou o personagem John Carter. A ótima aceitação lhe rendeu o suficiente para continuar escrevendo e Burroughs voltou seus olhos para o continente africano que, na virada do século XIX para o XX, despertava o interesse dos países de primeiro mundo e inflamava a imaginação de escritores e leitores. Para Tarzan, Edgar buscou inspiração na lendária história dos gêmeos Rômulo e Remo, filhos do deus Ares, amamentados e cuidados por uma loba, e que vieram a fundar Roma. Edgar juntou à receita esse fascínio pelas terras misteriosas da África, que nunca visitara, para imaginar a história de um homem, filho de lordes ingleses, que vem a ser o único sobrevivente de um acidente na costa africana. Com a morte de seus pais, o jovem é adotado pela símia Kala, que havia perdido seu próprio filhote. Kala cuida do menino e o protege dos perigos da selva, mas ele cresce e descobre suas origens. Seu verdadeiro nome é John Clayton III, mas é rebatizado por Kala como Tarzan, que na linguagem dos macacos (criada pelo próprio Edgar) significa “pele branca”. Logo ele entra em contato com uma expedição e conhece a jovem Jane Porter, que o resgata de volta à civilização. Mas Tarzan se depara com a cobiça e a maldade humana na selva de pedra, o que o leva a abandonar seu título de nobreza e sua amada Jane, e a voltar ao seu verdadeiro lar: a selva. Burroughs tinha 37 anos quando publicou “Tarzan of the Apes” em outubro de 1912 na revista pulp All Story Weekly. A popularidade foi imediata, mas incomodou o escritor Rudyard Kipling, que viu em Tarzan um plágio de seu Mogli, embora Edgar negasse. Historiadores e sociólogos também criticaram o autor acusando-o de racismo e imperialismo. Tarzan era, afinal, o homem branco que domina os selvagens africanos. Sua superioridade não é só física, pois com seu intelecto Tarzan supera seus adversários e vence as feras, triunfo de sua condição humana baseado nas teorias darwinianas em que somente o mais forte sobrevive.

 

Edgard Rice Burroughs | Foto: Wikipedia

 

Burroughs, contudo, não fez nenhuma pesquisa sobre a geografia ou a história do continente africano, chegando certa vez a incluir um tigre na África. Também não se preocupou em especificar em que parte da África a história se desenrola ou que espécie símia adota Tarzan. Embora os filmes falem em gorilas, Edgar preferiu criar uma espécie imaginária, os mangani, descritos como um elo intermediário entre os chimpanzés e os gorilas. O próprio termo “Ape” no inglês é um termo genérico para os macacos.

 

As pretensões do autor não pareciam incluir divagações sobre teorias evolucionistas ou mergulhos em profundos estudos sociológicos. Por isso, em seus 24 livros escritos com o personagem, o autor imaginou a África como um lugar de mistérios, com cidades perdidas e criaturas exóticas, tribos de canibais, descendentes de legiões romanas, cidades com tesouros inestimáveis e tudo o mais que a imaginação pudesse gerar. Edgar era um exímio contador de histórias de aventura que explorassem a dicotomia civilização versus vida selvagem, mergulhada na máxima de Rousseau que diz que o homem nasce puro e a sociedade o corrompe.

 

Foto: © Edgar Rice Burroughs, Inc. /DIVULGAÇÃO

 

Quando Tarzan volta para a Inglaterra para assumir suas posses e o título de nobreza, ele se depara com a corrupção e a ambição desmedida. Por isso, ele abdica de tudo, de sua identidade como Lorde Greystoke, e até mesmo de seu amor por Jane Porter, pois em sua essência há a constante confrontação entre o barbarismo de sua criação e sua herança na civilização. A jornada do herói é abraçar essa dicotomia como filho de dois mundos. Apesar das acusações de imperialismo e de apologia ao neocolonialismo difundidas na figura de um homem branco dominando a África, podemos também ver que o herói de Burroughs é um defensor dos animais e da selva, se opondo aos exploradores que buscam enriquecimento ilícito, adiantando em quase um século as discussões de questões ambientalistas que ganhariam força mundialmente.

 

Quando o livro chegou ao Brasil, foi traduzido para nossa língua por Monteiro Lobato e publicado pela Companhia Editora Nacional em sua coleção Terramarear. Contudo, dos 24 livros de Burroughs, somente 18 foram publicados no Brasil, diferente de outras partes do mundo, como Portugal, onde todos os livros de Tarzan foram publicados.

 

 

A volta de Tarzan

Não demorou para que a história de Tarzan continuasse em “The Return of Tarzan”, publicado em 1913, em que narra o reencontro de Tarzan e Jane. A história foi publicada em forma de pulp, e pouco mais tarde editada em forma de livro, como seriam várias das sequências que se seguiram. Os dois livros seguintes “The Beasts of Tarzan” (1914) e “The Son of Tarzan” (1915) são os dois únicos livros do personagem em que parte da ação se desenrola na civilização – no caso, na Inglaterra. Em ambos, Burroughs transforma seu herói em um homem de família, casado com Jane e com um filho, Jack Clayton, que seria rebatizado como Korak pelos mangani. Burroughs revelou tempos depois ter se arrependido de ter casado seu herói, pois isso restringia as possibilidades narrativas para elaborar outras aventuras. De fato, nos livros que se seguiram Jane só apareceria em dez deles.

 

Foto: © Edgar Rice Burroughs, Inc. \ DIVULGAÇÃO

 

O quinto livro foi “Tarzan & The Jewels of Opar”, com tradução para o Português do poeta Manuel Bandeira. Em seguida, em “Jungle Tales of Tarzan”, o autor apresenta uma coletânea de contos da juventude do herói antes de seu encontro com Jane no primeiro livro. Já em “Tarzan the Untamed” (1918) o homem-macaco enfrenta alemães nos idos da primeira guerra mundial. Cada vez mais guiado por uma fértil imaginação, e intencionalmente livre de qualquer ligação com a África real, Burroughs escreve “Tarzan the Terrible” em que leva o herói a Pal-ul-Don, uma imaginária região habitada por dinossauros para a qual o escritor chega a criar um mapa. Em nenhum dos livros há a presença da macaca Cheetah como companheira do homem-macaco, mas sim a lealdade do feroz leão Jad-bal-la em “Tarzan & the Golden Lion” (1922) e do macaco N’Kima em “Tarzan & The Lost Empire” (1929). Depois de ter seus romances publicados em livro pelas editoras A.C.McClurg e Metropolitan, o criador de Tarzan alcançou um maior controle sobre seu personagem e fundou a empresa “Edgar Rice Burroughs Inc.” através da qual passou a publicar seus próprios livros a partir de “Tarzan The Invincible” (1931). No Brasil as tiragens dos livros ficavam entre 10 e 20 mil exemplares. Além de Tarzan, o escritor continuou as aventuras de John Carter em uma série de livros e escreveu outros romances de aventura como “A Terra Que o tempo Esqueceu” (The Land that Time Forgot) sobre uma ilha habitada por dinossauros e homens primitivos no estilo das aventuras escapistas de Jules Verne e Conan Doyle. A influência desses autores é sentida também no livro “Tarzan at the Earth’s Core” em que o homem-macaco vive uma incrível aventura no centro da Terra. A fantasia era um terreno fértil para sua veia criativa e, não importando se sua visão da África fosse irreal ou se seu personagem tivesse detratores, o compromisso de Burroughs era com seus leitores, que mergulhavam em suas histórias a cada desafio colocado nas aventuras de seu herói das selvas como povos canibais, homens-formigas, soldados nazistas, caçadores de marfim ou guerreiros de civilizações perdidas. Os últimos dois livros de Tarzan foram publicados postumamente, mas o alcance da obra permaneceu vivo e fornecendo material para infinitas adaptações, muitas das quais o autor acompanhou em vida.

 

 

Tarzan na arte sequencial

Ainda em 1929, depois de outros oito livros, o homem-macaco foi adaptado para as tiras de jornal, com as belíssimas ilustrações de Hal Foster (o criador do personagem Príncipe Valente), publicadas no jornal Metropolitan Newspaper Syndicate. Logo, passou a outros jornais tendo Edgar Rice Burroughs se encarregado de escrever os textos que acompanhavam as ilustrações. Estas aumentaram ainda mais a popularidade do rei das selvas, e desde então foram décadas de histórias, incluindo revistas em quadrinhos publicadas por editoras como Dell Comics, Gold Key, DC, Marvel, Dark Horse com desenhistas que retrataram todo o esplendor da obra de Burroughs como Rex Mason, Russ Manning, Joe Kubert, Doug Wildey (o criador do desenho Jonny Quest), John Buscema, Gil Kane, Mike Grell e, o melhor de todos, o mestre Burne Hogarth. Este, dono de um estilo inconfundível, demonstrava dominar noções perfeitas de anatomia, bem como sabia explorar os cenários grandiosos imaginados por Burroughs ou dar forma às criaturas exóticas encontradas pelo homem-macaco. Seu estilo brilhou em traços que guardavam proximidade com o barroco e o expressionismo. Hogarth desenhou as tiras, histórias em quadrinhos e um luxuoso livro ilustrado que adaptava o primeiro livro de Burroughs, que mostra o esplendoroso trabalho do Michelangelo dos quadrinhos, como ficou conhecido na Europa. Muitas das aventuras de Tarzan nos quadrinhos faziam adaptações dos livros originais, supervisionados pelo próprio autor. Depois, outros autores vieram a escrever histórias originais inspirados nos livros de Burroughs. No Brasil, Tarzan foi primeiro publicado em 1934 no número 31 de “Suplemento Juvenil”. Tempos depois, a extinta editora Ebal assumiu a publicação de Tarzan a partir de 1951 na coleção “Lança de Prata”, e depois em série própria, seguindo durante décadas até o final da década de 1980. Em tempos mais recentes, o herói da selva protagonizou aventuras inusitadas ao lado de Superman, Batman e até mesmo Predador – o monstro dos filmes de cinema. A adaptação de Tarzan para os quadrinhos tem o mérito de ter sido uma das primeiras HQs de aventura, anterior mesmo a heróis como Fantasma, Mandrake e Batman. A popularidade das tiras de jornais veio em um momento conveniente para o público norte-americano, já que ocorreu no mesmo ano da quebra da bolsa de valores de Nova York. As tiras de jornal ofereciam um escapismo e diversão baratos que se multiplicaram e diversificaram formando um gênero expressivo até hoje. Recentemente, os herdeiros de Burroughs iniciaram a postagem de webcomics, um território novo para um personagem que foge ao padrão dos heróis com superpoderes. Em 2013 foi a vez de um encontro inesperado em que Tarzan vive uma aventura conjunta com John Carter, outro filho do autor que fez da África a terra da aventura.

 

Foto: Reprodução Internet

 

Na década de 1930, o personagem foi adaptado para o rádio em um programa semanal de sucesso com as vozes de James Pierce, genro de Edgar Rice Burroughs como Tarzan, e Joan Burroughs, filha do autor, como Jane. Foi transmitido entre 1931 e 1936. Décadas depois, um novo programa de rádio foi ao ar nos Estados Unidos, entre 1951 e 1953.

 

Tarzan – Um dos maiores heróis do cinema e da TV

Contudo, foi no cinema e na TV que o personagem foi mais explorado, perpetuando seu apelo por gerações muito embora, na na maioria das vezes, sem manter fidelidade ao espírito da obra e até desagradando ao seu criador. Em 1918, quando Edgar já preparava o sétimo livro (“Tarzan The Untamed”), Elmo Lincoln se tornou o primeiro intérprete do homem-macaco em “Tarzan of the Apes”, fazendo um milhão de dólares na bilheteria, um marco pela primeira vez em plena era do cinema mudo. Elmo, de 1,90 m de altura e 90 quilos, marcou sua imagem com o pé sobre o corpo de um leão. A cena foi, no entanto, bem real pois o felino avançou sobre a atriz Enid Markey (a intérprete de Jane), o que fez Elmo – segundo reza a lenda – segurar o rabo do animal e matá-lo com a faca que trazia na cintura. Elmo ainda fez no mesmo ano a sequência “The Romance of Tarzan” e o seriado “The Adventures of Tarzan”, mas desistiu do papel que passou a Gene Pollan, seguido de Dempsey Tabler, Frank Merill e James Pierce, que durante as filmagens conheceu Joan, a filha de Edgar, com quem se casou. Com o advento do cinema falado, Burroughs cedeu os direitos de adaptação à MGM e ao produtor Sol Lesser do Studio da RKO. A Metro fez de Johnny Weissmuller, campeão olímpico de natação, o primeiro Tarzan falado do cinema, mas desagradou Burroughs por explorar a figura máscula, viril e heroica do personagem, porém retratando-o como um primitivo ignorante, distante do homem culto que Tarzan vem a se tornar quando descobre sua origem – que aliás também não é mostrada no filme, que se concentra em seu romance com Jane, vivida pela atriz Maureen O’Sullivan. Em paralelo, Buster Crabbe, outro atleta olímpico, fez o filme de Lesser, depois substituído por Herman Brix e Glenn Morris, mas foi Weissmuller quem caiu no gosto popular enchendo os cofres da MGM, mas também sofrendo com o peso da censura que reclamava dos trajes sumários usados pelos atores. Devido à força dos censores de plantão, a história do quarto filme da série “Tarzan Finds a Son” (O Filho de Tarzan), de 1937, teve de ser modificada, pois o código Hays (que regulamentava a censura dos filmes) apontava que seria imoral Tarzan e Jane, que não eram casados oficialmente, terem um filho pelos meios naturais. Por isso, o casal adota o menino Boy (Johnny Sheffield), sobrevivente de um acidente aéreo na selva. Weissmuller foi Tarzan 12 vezes, primeiro na MGM e depois na RKO. O famoso grito usado nos filmes empregou a voz de Weissmuller mixada com outros sons, um resultado nunca igualado por outro intérprete do personagem. Curiosamente, a frase “Me Tarzan, You Jane” popularizada nunca foi falada nos filmes.

 

Elmo Lincoln, o primeiro Tarzan do cinema | Foto: Reprodução internet

 

A partir de 1949, Lex Barker assumiu o papel ficando por cinco filmes, seguido por Gordon Scott (um dos melhores, não apenas pelo físico como também por mostrar um herói civilizado, tal qual nos livros), que curiosamente não agradou ao autor. Depois, Dennis Miller, Jock Mohoney e Mike Henry – que fez três filmes, dois dos quais filmados no Brasil. A passagem do ator pelo Rio de Janeiro foi desastrosa para sua imagem ao serflagrado fugindo de uma vaca em plena Quinta da Boa Vista, além de ter sido mordido no queixo pela macaca Cheetah. Nessa época, os direitos do personagem pertenciam a Sy Weintraub, que planejava uma série de TV com Mike Henry, mas este entrou em conflito com os produtores devido aos seus incidentes e deixou o papel para o ator texano Ron Ely. A série de TV de Tarzan durou 57 episódios e foi tão popular que teve dois de seus episódios reeditados para exibição como filme no cinema (“Tarzan: Silêncio Mortal”) em 1970. Ely foi o ator que mais se acidentou durante as filmagens por dispensar dublês para as cenas de perigo. Contudo, um dos casos mais curiosos ocorreu com o ator Gordon Scott, que foi quase estrangulado por uma pyton, necessitando de seis homens da produção para se soltar do abraço mortal da cobra.

 

Foto: © Edgar Rice Burroughs, Inc./ DIVULGAÇÃO

 

A década de 80 ainda trouxe dois filmes curiosos: “Tarzan The Ape Man” (1981) provocou burburinhos na mídia da época devido ao seu conteúdo erótico. Dirigido por John Derek com sua esposa, a atriz Bo Derek (também produtora) como Jane. Nessa releitura, Jane é o foco da história e Tarzan (o ator Miles O’Keefe) funciona como um objeto do desejo de Jane, que é mostrada no pôster promocional do filme. O filme foi duramente criticado na época, com Tarzan só aparecendo em cena depois da primeira metade da história. Ao contrário deste, o diretor britânico Hugh Hudson realizou em 1984 a versão mais próxima do livro original entitulado “Greystoke – A Lenda de Tarzan, o Rei das Selvas” estrelado por Christopher Lambert e Andie MacDowell como Tarzan e Jane. Na década de 1990 Casper Van Dien no cinema e os atores Worf Larson e Joe Lara na TV deram continuidade ao legado de Burroughs.

 

Tarzan ainda teve uma animação realizada pelos estúdios da Filmation, extremamente respeitosa aos livros: “Tarzan, Lord of the Jungle” (1976/1977). E depois, a mais celebrada adaptação que foi realizada para o cinema, em 1999, pelos estúdios Disney (um antigo sonho de seu criador), que moderniza a história de Tarzan com visual surfista deslizando pelas árvores com agilidade admirável. Ainda houve uma animação alemã de 2013 entitulada “Tarzan – A Evolução da Lenda” que também tenta uma atualização da história, colocando até o meteoro que extinguiu os dinossauros como elemento narrativo.

 

Foto: © Edgar Rice Burroughs, Inc. \ DIVULGAÇÃO

 

2016 trouxe o ator sueco Alexander Skardgard como o 19º ator a viver o personagem no filme “A Lenda de Tarzan” (The Legend of Tarzan), que ainda tem Margot Robbie como Jane Porter, e novamente readaptando a história e mostrando que o apelo do personagem é ilimitado.

 

 

*Adilson de Carvalho Santos é Professor licenciado em Inglês e respectivas literaturas pela UERJ e licenciado em Portugues Literatura pela UNIGRANRIO autor de artigos sobre cinema e adaptacoes literarias em blogcineonline.wordpress.com. Tambem colecionador de historias em quadrinhos.

Adaptado do texto “Tarzan o eterno rei das selvas de Edgar Rice Burroughs”

Revista Conhecimento Prático – Literatura Ed. 67