Confira a análise do conto “O ovo e a galinha”

Por Conceição da Silva Zacheu Russo* | Adaptação web Caroline Svitras

 

 

O conto “O ovo e a galinha” faz parte do livro A legião estrangeira, cuja primeira edição ocorreu em 1964, e Felicidade Clandestina, cuja primeira edição ocorreu em 1971. Encontra- se inserido, também, em A Descoberta do Mundo, cuja primeira edição ocorreu em 1984, com o título “Atualidade do Ovo e da Galinha”, que reproduz crônicas publicadas no Jornal do Brasil. A respeito do conto, a própria Clarice Lispector reconhece a estranheza de sua composição e por essa razão escolheu-o para ser lido em um Congresso de Bruxaria realizado na Colômbia, onde foi convidada para representar o Brasil. Segundo a autora, ao que parece, ninguém o entendeu e ela mesma afirma que este conto ainda representava um mistério para ela. “O Ovo e a Galinha” foi considerado um “tratado poético sobre o olhar”, pelo crítico José Miguel Wisnik e como “meditação”, por Benedito Nunes.

 

Com relação aos gêneros literários, Clarice Lispector, no que diz respeito a sua própria obra, afirma na contracapa de Felicidade Clandestina (1998): “Vamos falar a verdade: isto aqui não é crônica coisa nenhuma. Isto é apenas. Não entra em gêneros. Gêneros não me interessam mais”. Sendo assim, a discussão sobre os gêneros não tem relevância, por ser um texto híbrido. É o que diz Benedito Nunes, “A distinção entre conto e crônica, absorvida pela flexibilidade que a narrativa curta adquire em Clarice Lispector, torna-se irrelevante”.

 

Para analisar a estrutura do conto, resolvemos dividi-lo em etapas. Na primeira etapa, a personagem encontra-se em determinada situação. No caso, a dona de casa encontra-se em sua casa e vê o ovo. Na segunda etapa, um evento ou incidente é discretamente pressentido. Em “O ovo e a galinha”, a dona de casa vê o ovo como um mistério a ser desvendado. Na terceira etapa, há a ocorrência do incidente ou evento, quando nos deparamos com a epifania, um momento revelador que ilumina a vida da personagem. Em nosso conto, a personagem sente-se hipnotizada pelo ovo e questiona sua própria identidade. Na quarta e última etapa, quando ocorre o desfecho, há um relato sobre a vida da personagem após o evento ou incidente. Em nosso conto, a personagem quer sua rotina de volta, mas constata a impossibilidade, por reconhecer que o ovo a ilumina.

 

 

No conto analisado, a trama oculta nos revela o ofício do escritor, por meio de um exercício metalinguístico, considerado pelo crítico José Miguel Wisnik um “tratado poético sobre o olhar”, que “não se limita a comentar as vicissitudes do olho e do pensamento diante da coisa, mas cifra na própria escolha do objeto uma espécie de circularidade enigmática do olhar”. Após ressaltar a simbologia da palavra ovo, destaca “que mesmo assim prototípico, alegórico, marca sublimada e apagada de um real que hesita entre a consciência e o inconsciente, o eu e o outro, o ovo não deixa de ser, no conto de Clarice Lispector, o ovo doméstico, cotidiano”. O olhar caminha em um plano espiralado, como em uma observação científica. O ovo passa a ser um mistério a ser desvendado. Oscila entre o ir e vir, sendo analisado sob diversos ângulos, mas não há uma conclusão definitiva, para não correr o risco de perder todo o seu encanto e todo o sentido da observação.

 

Enquanto no início do texto o ovo está no momento presente, em uma fração de segundos passa a ser passado, pois deixa de fazer parte do presente e passa a ser uma lembrança. Ao mesmo tempo, caminha para o futuro, por intermédio da galinha: “o ovo vive foragido por estar sempre adiantado demais para a sua época: ele é mais do que atual: ele é o futuro.” Como afirma a narradora, por fazer parte do futuro, volta a ser um mistério a ser desvendado. Ao mesmo tempo em que se vê a realidade, é importante que ela seja negada, como no trecho a seguir: “Ele vive dentro da galinha para que não o chamem de branco. Não porque isso faça mal a ele, a quem nada faz mal, mas as pessoas que chamam a verdade de que o ovo é branco, essas pessoas morrem para a vida. Chamar de branco aquilo que é branco pode destruir a humanidade. A verdade sempre destrói a humanidade.” Ao negar a verdade, temos chance de sobreviver na sociedade em que vivemos. É por isso que, na sequência, o texto nos informa que “nossa vantagem é que o ovo é invisível para a enorme maioria das pessoas”.

 

É interessante notar que neste jogo de esconde-esconde promovido pela linguagem, o texto nos revela um grande mistério de acordo com a autora: “Quanto a quem veio antes, foi o ovo que achou a galinha como um bom disfarce. A galinha não foi sequer chamada”. É possível observar que há um jogo de linguagem entre a palavra e o objeto. A temática consiste na natureza e nos limites da linguagem. Há uma mediação entre o sujeito e o mundo. O foco narrativo oscila entre a impessoalidade (O ovo é “uma exteriorização”) e um narrador que ora se encontra na primeira pessoa do singular (“quando eu era antiga”), ora se encontra na primeira pessoa do plural (“nós, agentes disfarçados”). Algumas vezes, entretanto, o “eu” se configura de maneira diferente, como agente da própria linguagem (“a que não sabia que ‘eu’ é apenas uma das palavras que se desenha enquanto se atende ao telefone”), num exercício de metalinguagem. No conto, o significado acompanha o movimento do “eu”, que está em busca de si mesmo e uma cadeia de significantes que constituem unidades narrativas. Essas unidades narrativas se desdobram dentro de cada parágrafo ou entre parágrafos, reiterando o objeto observado. O tempo da narrativa é predominantemente psicológico, entretanto temos uma tênue noção de tempo, ao acompanharmos as raras ações descritas da personagem. Ela chega à cozinha e vê o ovo. Em um determinado momento, quebra o ovo, e as crianças – em um misto de alegria e confusão – comem o ovo. Nesse ambiente confuso e nebuloso, encontramos o espaço: a cozinha da dona de casa. Entretanto, o espaço criado artificialmente pelo narrador passa a ser introspectivo e a personagem faz conjecturas a respeito do papel que desempenha no mundo ao observar o ovo.

 

 

Segundo Regina Pontieri, o ovo pode ser considerado um ícone, se for visto como um ovo-vazio, no sentido de sua materialidade gráfica, que reitera a letra que desenha a ausência como símbolo matemático do zero: 0v0. “Ele traz inscrito no visível de sua própria materialidade corporal o invisível de seu sentido”. A semelhança entre significados pode se configurar melhor como metáfora do que como ícone, se quisermos enfatizar nesse, “o mimetismo do significado pela materialidade do significante”. Ainda segundo a autora, a abrangência da leitura que “O ovo e a galinha” desperta não é capaz de dar conta da rede sêmica desenhada, pelo fato de a natureza do signo ser móvel. Sendo assim, “o signo desdiz um sentido no mesmo momento que o evoca”.

 

Este conto foi considerado como “meditação”, por Benedito Nunes, que reafirma a “meditação visual” declarada por Clarice Lispector, expressão usada em A paixão segundo GH, para designar o caráter das visões encadeadas da personagem. Tanto Benedito Nunes quanto José Miguel Wisnik têm um ponto em comum. Ambos remetem o texto ao olhar, que configura a metáfora. E esse fato nos remete a Regina Pontieri, ao afirmar que o texto se aproxima da metáfora. Se observado o título do conto, “O ovo e a galinha”, nota-se que a escolha da conjunção aditiva “e” põe em destaque duas ideias distintas e trabalha como se essas partes se interagissem dentro do contexto discursivo. Além do valor aditivo, também há uma ideia de simultaneidade. Em Clarice Lispector, fala-se de um só objeto, mas o significado se amplia de uma cadeia para outra à medida que o objeto é definido e redefinido. O objeto muitas vezes é visível, mas seu significado é indizível na teia que se forma para compor a trama narrativa. Há uma tensão conflitiva entre o olhar e o objeto observado, produzindo uma narrativa que se amplia para revelar o que há por detrás do texto: “Comecei a falar da galinha e há muito já não estou falando mais de galinha. Mas ainda estou falando do ovo”.

 

 

O ovo e a galinha pertencem ao mesmo plano da escritura, e a narrativa se desdobra por meio da visão da personagem, que é sujeito e objeto da narrativa. De acordo com Benedito Nunes, há quatro ou cinco histórias aparentemente desarticuladas em cadeias autônomas de significantes que, entretanto, correspondem a uma só história, conforme o seguinte trecho: “é o sujeito que se narra, fazendo de sua experiência a  condição de possibilidade de todas as histórias”. É o que se observa no conto de Clarice Lispector, quando a metáfora é apresentada logo no início do conto: “De manhã na cozinha sobre a mesa vejo o ovo”. Nessa frase inicial, podemos identificar o tempo e o espaço, além do relacionamento visual entre o sujeito e o objeto. Em seguida, todos esses referenciais começam a ser diluídos na trama narrativa: “Imediatamente percebo que não se pode estar vendo um ovo. Ver um ovo nunca se mantém no presente: mal vejo um ovo e já se torna ter visto um ovo há três milênios”. O assunto inicial, o  ovo, vai desdobrando-se e multiplicando-se com o desenrolar da trama. No texto, a personagem, que se encontra na cozinha, oscila entre a visão do sujeito e do ovo, ora de maneira afirmativa, “só vê o ovo quem já o tiver visto”, ora de maneira negativa: “não se pode estar vendo ovo”. O descascamento da metáfora atinge uma maior abrangência, abrindo a significação para a construção do texto. Sensações táteis são criadas e a metáfora é esculpida, lapidada e retocada, em busca da forma mais perfeita. O ovo é comparado ao resultado do trabalho do escritor, que procura a forma mais simples de utilizar a palavra, e que traduz prazer ou dor, na construção do texto de Clarice Lispector: “E também o tempo que me deram, e que nos dão apenas para que no ócio honrado o ovo se faça, pois tenho usado esse tempo para prazeres ilícitos e dores ilícitas, inteiramente esquecida do ovo”. A repetição da visão do ovo é constantemente reiterada: “Olho o olho com um só olhar” ou “Ver o ovo é impossível”. E as repetições conduzem a linguagem ao paradoxo: “O que eu não sei do ovo é o que realmente importa. O que eu não sei do ovo me dá o ovo propriamente dito”. A realidade passa a se concretizar no espaço da articulação da linguagem e, após se propagar em círculos cada vez mais abrangentes, atinge o último elo das cadeias autônomas de significantes, onde se encontra o sujeito que se narra, para instaurar a sua constante busca.

 

Em Clarice Lispector, o grande trunfo está no peso poético da linguagem. Ao fazer escolhas, a autora propicia ao leitor um delicioso caminho que permite sinestesias capazes de prolongar o sabor da leitura, remetendo-o a outra dimensão que lhe conduz ao encontro consigo mesmo. “O Ovo e a Galinha”, de Clarice Lispector, é um conto que à primeira vista nos parece indecifrável. De acordo com Nádia Gotlib “o ovo, como símbolo do tudo e do nada, do que se enche de sentido e do que se esvazia de sentido, cheio e oco, também é o que simboliza essa dupla configuração do narrar”. A narradora espera que o ovo a ilumine e ilumine, também, o ambiente em que ela se encontra, com sua palidez, abrindo a iluminação de um eu próprio, enquanto o eu lírico busca a chama de uma vela para encontrar o caminho da iluminação. O que encontramos no conto é a busca incessante da verdade, que carrega consigo um brilho que seduz e ilumina. A contemplação do objeto é uma busca incansável do pensamento que cava e escava a metáfora, recomeçando indefinidamente em sua definição do objeto nos vários estratos de sua significação. Há um começo e um recomeço em um ritmo quase frenético e sem interrupções, formando um verdadeiro mosaico, que completa uma imagem e se abre para outra, para se transformar em uma constante espiral.

 

 

** Mestre em Literatura e Crítica Literária (PUC/SP), especialista em Literatura, em Língua Portuguesa, em Psicopedagogia no Processo Ensino-Aprendizagem, com licenciatura plena em Letras e bacharelado em Comunicação Social. Possui experiência na graduação e pós-graduação como professora de Literatura Brasileira,Teoria Literária e Comunicação Empresarial, além de ministrar aulas de Língua Portuguesa, na Prefeitura de São Caetano do Sul. Possui experiência na área de Letras, com ênfase em Literatura Brasileira, atuando principalmente nos seguintes temas: literatura brasileira, literatura e cinema, literatura e semiótica, crítica e interpretação. Publicou artigo e resumos em anais de Congressos e Simpósios. E-mail: prof.russo@uol.com.br

Adaptado do texto “O Mistério”

Fotos: Revista Conhecimento Prático – Literatura Ed. 60