Compreenda as mensagens por trás de Hamlet e Macbeth

No monumental Shakespeare: a invenção do humano (Ed. Objetiva, 1998), Harold Bloom lança a pedra fundamental acerca da contemporaneidade do bardo inglês ao ser questionado por que ainda se falar de Shakespeare: mas quem mais haveria de ser?

Por Luciano Melo* | Fotos: Wikipedia | Adaptação web Caroline Svitras

 

Macbeth

A intensa presença de elementos fantasmagóricos faz de Macbeth, como adverte Harold Bloom (op. cit.), uma tragédia da imaginação. O que temos é um protagonista perseguido pelo mal que causou — e que o destino o obriga a continuar causando. Isso faz de nós compatíveis e seres em potencial a Macbeths, uma vez que possuímos, de igual maneira, esse lado assustador da mente. Se Macbeth nos aterroriza, é porque em certa medida aterrorizamos também. Dessa forma, o que temos aqui é uma representação do teatro medieval, com personagens alegóricos desfilando o pathos cristão destinado a todos nós.

 

Assim, o que transcende em Macbeth é o excesso de terror, banhado em sangue por quase todos os atos, num mundo muito próximo da Idade Média. Bloom lembrará das palavras do general Macbeth: “Haverá sangue. / Dizem que o sangue pede sangue”, para reforçar o tom horripilante da obra, como se os atos do casal protagonista se justificassem não por seu juízo próprio, mas por uma “força oculta” que os movem. Muito já se discutiu a respeito desse leitmotiv que torna Macbeth um assassino insano, passando por Nietzsche e Freud, mas um dos questionamentos mais recorrentes – e não revelado por Shakespeare – é o motivo do casal não ter filhos. Lady Macbeth, em certa altura, recorda ter amamentado uma criança morta — o que sugere um relacionamento anterior? Macbeth seria, portanto, seu segundo esposo? Também não deixa de ser curioso que o general sentencie a morte de Fleance, filho de Banquo. Seria, portanto, uma suposta esterilidade do casal e a impossibilidade de transição da coroa (do próprio sangue dos Macbeth) uma das chaves para a fúria presenciada na peça?

 

 

Hamlet, um supra-herói

A aparição inicial do Fantasma em Hamlet (1601) ambientará o enredo da tragédia no reino da Dinamarca num clima de intensa suspeita. Porém, a figura fantasmagórica que se apresentava na época do Renascimento como figuração de matéria diabólica (o Mal), a partir do século XIX, com o advento da psicanálise, tende-se a considerar a representação do pai de Hamlet como sua própria consciência.

 

Hamlet é, em todo caso, um supra-herói. Possui todas as prerrogativas de vilania (niilista, vingativo, assassino etc.), mas perdura essencialmente a aura de ser justo e magistralmente inteligente. Harold Bloom (op. cit.), ao se referir a Nietzsche em O Nascimento da Tragédia (1873), apregoa que Hamlet não pensa em demasia, mas com extrema objetividade. Isso faz dele um indivíduo dionisíaco, já que enxerga com clareza o objetivo de sua incumbência e o realiza, a par de todos os obstáculos impostos pela consciência. O fato é que a transcendência da peça está nessa perene modernidade da obra, diante de algo que nos é imposto e que se deve enfrentar. Afinal, diante da imprevisibilidade da vida, a única certeza é que Shakespeare continuará por toda a eternidade. Sua obra ainda é a mais perfeita expressão de revelação da experiência humana mesmo depois do fim, como na notável reação de Macbeth ao saber da morte de sua esposa:

 

“A vida é apenas uma sombra ambulante, um pobre ator,
Que se exibe e se agita no palco por um tempo.
Então, não se ouve mais nada dele: era apenas uma fábula,
Contada por um idiota, cheia de som e fúria,
Que não significa nada.”

 

Quer conferir o artigo na íntegra? Garanta a sua revista Conhecimento Prático – Literatura Ed. 73 aqui!

Adaptado do texto “Shakespeare: quem mais haveria de ser?”

*Luciano Melo é Mestre em Estudos Comparados em Literaturas de Língua Portuguesa (FFLCH-USP) e professor de Língua Portuguesa e Literatura do Centro Paula Souza e da rede pública estadual de São Paulo.