Como acontece a construção de um texto infantil?

A literatura infantil é fruto de um ser adulto, que filtra os desejos infantis, seleciona temáticas que se distanciam de assuntos contemporâneos importantes para a criança se situar no mundo

Por Simone Strelciunas Goh* | Fotos: Shutterstock | Adaptação web Caroline Svitras

A literatura infantil tem como objetivo principal, nesta sociedade em transformação, ser o agente de formação, intermediária entre a criança e o mundo, pois nenhuma forma de ler o mundo dos homens é tão eficaz e rica quanto a que a literatura permite. Partindo desse foco, a literatura infantil existe, está em desenvolvimento, talvez em mutação, como disse alguém, mas não se pode negar-lhe a importância, ou diminuir-lhe o valor com adjetivos. O importante é podermos disponibilizar às crianças boas obras que lhes permitam o engrandecer como ser humano; livros que brincam com as palavras, imagens, pontos, traços, indo além da leitura simétrica.

 

O pedagógico estará presente sim na maioria das obras, pois como discutimos, elas são produzidas por um adulto em uma sociedade cujos ideais estão ancorados no capitalismo, que muitas vezes se esconde em questões da educação, no entanto, que esse texto seja mágico, plural, esteticamente rico.

 

Textualidade da literatura infantil

Lajolo e Zilberman (2009) no livro Literatura Infantil Brasileira, História e Histórias ressaltam que não há uma tabela mágica que faculte a escolha de um bom livro infantil, mas estipulam determinadas características que a literatura infantil deveria abarcar para ser qualificada:

A- Assunto: os livros infantis devem apresentar temática pertinente ao universo infantil.

B- Idade: levar em consideração o desenvolvimento infantil de acordo com a idade do leitor.

C- Objetividade de informações: as informações contidas no livro infantil devem ser comprovadas pelos campos responsáveis — história, ciências, cultura. O livro infantil jamais deve preconizar juízos de valores que firam os direitos humanos e nunca se apoiar em bases ideológicas preconceituosas.

D- Qualidades estéticas: o livro deve ser artístico, já englobando o cuidado com a ilustração e a editoração.

 

As autoras alertam que a criança, ao escolher o livro, pode ser manipulada por ideologias publicitárias, citam a importância do bibliotecário como agente reflexivo nesse processo e acrescentam ainda mais sete tópicos para facilitar tal escolha:

1- Como se dão as descrições do texto, longas e sem atrativo?

2- Obras que contêm informação documental devem ser avaliadas por especialista.

3- A linguagem dos diálogos é realista ou artificial?

4- Na ficção há um equilíbrio?

5- Como os livros realistas tratam de temas como: morte, violência etc.?

6- A temática realista explora em demasia tais problemas?

7- No mundo fantástico existe um clima plausível de lógica e coerência?

 

Tais tópicos são fruto de suas experiências e de uma visão geral extraída de diversos teóricos sobre o assunto. Com o intuito de sistematizar a escolha de bons livros infantis, emprestamos os termos da linguística textual e apresentamos cinco critérios [Situcionalidade, Informatividade, Intertextualidade, Intencionalidade e Aceitabilidade], que cremos contemplar as inquietações de Lajolo e Zilberman, e podem proporcionar ao professor ou estudioso sobre o assunto uma ferramenta teórica sintética e ao mesmo tempo flexível, que permita uma abordagem global sobre as obras de literatura infantil, não as diminuindo, nem tampouco enaltecendo uma ou outra obra, mas, a priori, submetendo os livros a uma visão sistemática.

 

A linguística textual, inicialmente, se preocupou com o estudo dos mecanismos interfrásticos, tendo uma visão de que o texto seria apenas uma unidade linguística mais alta, contudo, nos idos dos anos 80, baseando-se em Patofi, essa ciência passa a entender que o texto é uma representação semântica indeterminada em relação às próprias manifestações lineares do texto, mas determinadas pela parte transformacional, segundo Ingedore Koch em Linguística Textual (2009). Destacamos assim a importância da relação texto/usuário, e utilizaremos os critérios centrados no usuário para fomento de nossa base teórica que ora denominamos “textualidade da literatura infantil”.

 

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Adaptado do texto “Textualidade da Literatura infantil”

*Simone Strelciunas Goh é doutora em Língua Portuguesa e Filologia pela FFLCH – USP. Professora das Faculdades Metropolitanas Unidas – FMU – São Paulo – SP – Brasil.