Caminhos da licenciatura

As dificuldades na formação de bons docentes

Por Rosilene Maria do Nascimento* | Fotos: Shutterstock | Adaptação web Caroline Svitras

Para ser um professor

Antonio Nóvoa em entrevista sobre formação de professores salienta que a função hoje é mais complexa do que no passado, e que não basta deter o conhecimento para o saber transmitir a alguém, é preciso compreender o conhecimento, ser capaz de reorganizá-lo, ser capaz de o reelaborar e de transpô-lo em situação didática em sala de aula. Esta compreensão do conhecimento é, absolutamente, essencial nas competências práticas dos professores.

 

Cortella deixa claro que o professor trabalha com uma ferramenta chamada conhecimento, que é de suma importância para o educador, e estabelece que é necessário um acompanhamento científico, histórico e filosófico. Por isso, e para que possamos ser capazes de pensar sobre o tema conhecimento e, a partir disto, produzir uma reflexão que nos ofereça mais fundamentos para nossas práticas pedagógicas.

 

Mário Sérgio Cortella ocupou o cargo de Secretário Municipal de Educação de São Paulo (1991-1992), durante a administração de Luiza Erundina, e foi membro-conselheiro do Conselho Técnico Científico da Educação Básica da CAPES/MEC (2008/2010).

Paulo Freire no livro Pedagogia da Autonomia, relata que não pode existir docente sem discente, ou seja todo professor será um eterno aluno. O educador quando demonstra gosto pelo que está ensinando, contagia o aluno, que por sua vez deve possuir interesse por aprender. Faz-se necessário um ambiente propício à aprendizagem, dar leveza ao um ambiente, mesmo que as atividades exijam concentração e esforço, para que os alunos desenvolvam o raciocínio e a criatividade. Ensinar exige: rigorosidade metódica, pesquisa, respeito aos saberes dos educandos, criticidade, estética, ética, corporificação das palavras pelo exemplo, risco aceitação do novo, rejeição a qualquer forma de discriminação, reflexão crítica sobre a prática, reconhecimento e assunção cultural. Ensinar não é transferir conhecimento. Ensinar exige: consciência do inacabamento, reconhecimento de ser condicionado, respeito à autonomia do ser do educando, bom senso, humildade, tolerância, luta pelos direitos dos educadores, apreensão da realidade, alegria e esperança, convicção de que a mudança é possível e curiosidade. Ensinar é uma especificidade humana e exige: segurança, competência profissional e generosidade, comprometimento, compreender que a educação é uma forma de intervenção no mundo, liberdade e autoridade, tomada consciente de decisões, exige saber escutar, reconhecer que a educação é ideológica, diálogo, e querer bem aos educandos.

 

Ensinando literatura

 

O professor deve valer-se dos outros conhecimentos, a fim de favorecer a aprendizagem e o ato de aprender do aluno. Leituras como o livro Múltiplas inteligências da teoria de Gardner, que aborda a Inteligência Lógico- matemática, Espacial, Corporal-Cinestésica, Musical, Interpessoal, Intrapessoal e a Naturalista. A inteligência emocional conforme descreve Daniel Goleman em seu livro. Prevalecer-se dos conhecimentos da neurociência sobre o SNC – sistema nervoso central -, sensações sensoriais, atenção, memória de curto e longo prazo, aprendizagem e plasticidade cerebral. Compreender o aluno, a sua afetividade e as relações estabelecidas no coletivo. Richard J. Davidson define que a identidade emocional é única, e é determinada pela combinação de seis dimensões em maior ou menor grau. Sendo: resiliência, atitude, intuição social, autopercepção, sensibilidade ao contexto e atenção. Sendo intuição social a facilidade com que captamos os sinais sociais emitidos pelas pessoas ao nosso redor enfatiza que esta é uma capacidade presente em muitos professores.

 

 

A formação do professor

O professor sai da universidade e passa em um concurso, e quando chega em sala de aula se depara com uma realidade em que alguns alunos: não leem, não interpretam, não escrevem, não fazem cálculos de subtração com recurso, multiplicação, divisão, enfim não aprendem. E a inquietude do saber o motivo pelo qual não aprendem, faz com que saia da zona de conforto, quando pensa que já havia terminado os estudos, e retorne a estudar, afim de compreender o porquê de alguns alunos não conseguirem aprender. Na busca de entender o sentimento de amor ou ódio à disciplina de matemática foi que me fez optar por uma pós-graduação em Psicopedagogia, para entender as dificuldades e os transtornos de aprendizagem. Dois anos após, estava novamente buscando o conhecimento, cursando uma outra pós-graduação sobre a Metodologia do Ensino da Matemática.

 

Inteligência emocional é um conceito em Psicologia que descreve a capacidade de reconhecer os próprios sentimentos e os dos outros, assim como a capacidade de lidar com eles.

Atualmente, por causa da demanda de profissionais nas áreas de exatas (matemática, física) ou a falta de profissionais em algumas outras áreas não é mais necessário concluir a licenciatura para se tornar professor. Estudantes de licenciaturas podem assumir as salas de aulas em virtude da falta desses profissionais no magistério (lei da oferta e da procura). Muitas vezes o professor estudante tem sob a sua responsabilidade uma sala de aula com uma média de 35 alunos, sem nada entender de como o aluno aprende, SNC – Sistema Nervoso Central, memórias, aprendizado, dificuldades e transtornos de aprendizados, inteligência múltiplas e emocional, então a sua função fica apenas em reproduzir o conhecimento mediante modelos vivenciados. Os currículos das Universidades precisam também favorecer a formação do professor, pois cursei licenciatura em Matemática e a minha formação favoreceu mais a ser um matemático do que ser um professor de matemática. O professor se encontra sozinho, e com apenas o conhecimento adquirido em sua licenciatura, ou ainda adquirindo em curso na Universidade, acaba reproduzindo um saber, ou modelos de seus tempos escolares e que já não mais favorecem ao aprendizado dos alunos, nesta geração de “nativos digitais”.

 

5 indicações de livros para professores se aperfeiçoarem

 

Os índices de desistência do magistério são consideráveis. As Secretarias de Educação devem repensar e elaborar planos, convênio conforme o PIBID com algumas Universidades de apoio à formação do professor estudante e prepará-los para entrarem em sala de aula. Devem favorecer a qualificação em serviço com convênios com as Universidades e investimentos para que a profissão de professor volte novamente a ser atrativa. Presenciei um fato que aconteceu com uma professora eventual (substituta) era o seu primeiro dia de aula, a diretora a levou na porta da sala de aula que estava sem professor, A professora perguntou: “O que eu faço?” A diretora respondeu: “Se você não conseguir dar aula, apenas não deixe que se matem e nem saírem para o corredor”. A professora ficou os 50 minutos com a porta entreaberta cuidando para que ninguém saísse ao corredor, pois aula ela não conseguiria dar mesmo.

 

Esse é o apoio e a preparação para quem vai dar a sua primeira aula? Tem professor estudante que não tem noção do que vai encontrar em sala de aula, cabe sair do improviso e preparar estes que se dedicam e querem ser professor. Pois alguns alunos não reconhecem o professor eventual como professor e em alguns casos a dinâmica da escola não favorece para que isto aconteça. Faltam incentivos para o professor continuar a estudar. Incentivos para leitura. Um profissional no início de carreira com o salário que ganha não tem condição de investir em formação complementar sendo que o professor deve estar sempre se atualizando. Pois a função do professor é intermediar para que o aluno transforme as informações em conhecimento, antes íamos à biblioteca pesquisar, hoje o acesso à informação está a um clique na internet, através de computadores, tablets, smartphones etc. As SEE encaminham livros paradidáticos para as escolas que são apenas para os alunos. Participei de uma tabulação em uma escola, na caracterização de professores, para o PPP – Projeto Político Pedagógico, no quesito sobre leitura. Algumas perguntas como: Quantos livros você leu no ano passado? Você pode citá-los: Você lê alguma revista semanal? Você lê jornal? Na pergunta do quesito de leitura de livros, alguns professores responderam que não tinham lido nenhum livro no ano anterior. Como formar alunos leitores se alguns professores não são? Deve haver incentivos para que o professor, leia, estude, pois a leitura faz parte de sua atualização, além de estar em constante reflexão entre teoria e prática. Professores do município de SP recebem o cartão do educador, com parcerias com livrarias com descontos de 20% na compra de livros, um exemplo a ser seguido pelo SEE-SP pois os professores da rede estadual recebem apenas 10% de desconto mediante a apresentação do comprovante de pagamento.

 

Desperte o interesse dos alunos

 

A SEE-SP disponibiliza a bolsa mestrado para o professor estudar, mas há o requisito de que este seja efetivo e tenha cumprido o estágio probatório. Os grandes investimentos devem ser feitos no início da carreira do professor, pois é o momento em que mais o profissional busca o conhecimento e tem garra para continuar a estudar e mais precisa refletir sua prática e a teoria. Nas escolas Estaduais faltam momentos de formação para que os professores participem e se sintam sujeitos e possam se aperfeiçoar e trocar experiências. As escolas municipais favorecem estes momentos de formação e reflexão, com congressos, palestras e troca de experiências e oficinas. O conhecimento e a experiência são fundamentais para minimizar um dos principais problemas que envolvem os professores, o desgaste profissional.

 

 

Por exemplo em uma sala numerosa, considerando que cada aluno possui um ritmo e modo diferente de aprender, naturalmente que alguns necessitam de intervenções individualizadas e durante esse processo de aprender, o professor só pode contribuir se ele deter o conhecimento, trocar experiência, refletir e intervir etc. O conhecimento coletivo favorece a intervenção e o acompanhamento de alguns alunos com necessidades educacionais especiais. Caso contrário o aluno será incluído na escola e excluído dentro da sala de aula no momento de aprender. No início da carreira, algumas professoras foram essenciais, na minha formação, reflexão e até para mudança de atitudes e intervenção pedagógica, caso contrário, seria apenas reprodutora de algumas práticas pedagógicas vigentes. O professor necessita de uma formação permanente e se não tiver formação (subsidiadas pelos órgãos públicos), não deixará de se tornar um excelente profissional, pois mediante a necessidade, o professor, com certeza buscará atualizar o conhecimento, sendo questão de sobrevivência na educação do século XXI, porém, o percurso e desenvolvimento serão nas práticas em sala de aula, na leitura individual de autores e com os seus pares em serviço (dependendo da escola, isto não acontece). Os investimentos com recursos próprios na formação, isso demandará um tempo maior, e temos urgências de investimentos a fim de mudar os índices de avaliação, podemos citar na avaliação do Pisa a posição lamentável que o nosso país se encontra e principalmente em matemática. Apesar de ter conseguido avanços, o Brasil ainda está nas posições mais baixas do ranking do Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa). As avaliações do Pisa acontecem a cada três anos e abrangem três áreas do conhecimento – Leitura, Matemática e Ciências – havendo, a cada edição do programa, maior ênfase em cada uma dessas áreas e em 2012 foi novamente a Matemática; e em 2015 será a disciplina de Ciências.

 

A escola no mundo contemporâneo

 

Segundo divulgado no site INEP a avaliação Pisa observa as competências dos estudantes em Leitura, Matemática e Ciências, e coleta informações para a elaboração de indicadores contextuais, os quais possibilitam relacionar o desempenho dos alunos a variáveis demográficas, socioeconômicas e educacionais. Essas informações são coletadas por meio da aplicação de questionários específicos para os alunos e para as escolas conforme dados e estatística divulgados no site. Entre os 65 países avaliados e comparados, o Brasil ficou em 58º lugar. No entanto, desde 2003, o Brasil conseguiu os maiores ganhos na performance em matemática, chegando aos 391 pontos em 2012. Apesar de ter conseguido uma evolução significativa nos itens avaliados pelo Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa), o Brasil ainda está nas posições mais baixas do ranking. O acesso à escola está garantido, podemos então questionar a qualidade da educação na permanência dos alunos em sala de aula.

 

*Rosilene Maria do Nascimento é professora da Rede Municipal e Estadual de Ensino.

Adaptado do texto “Educação & Professor”

Fotos: Revista Conhecimento Prático – Literatura Ed. 60