Black Mirror traz à tona toda obscuridade da sociedade moderna

Por Gabriel Chagas* | Foto: Divulgação Netflix | Adaptação web Caroline Svitras

Em relação ao inesquecível White Bear, devemos admitir que provavelmente seja o episódio em que o conceito de reviravolta se manifeste de maneira mais evidente. Orquestrado com ritmo preciso, Débord e Aristóteles se encontram na feitura desse capítulo, uma vez que a distopia absurda e inicialmente incompreensível se transforma, no sentido literal do termo, em um espetáculo com câmeras e público. Nessa trama, a mudança inesperada parece operar uma significação menos concreta, porém mais profunda sobre a condição da pós-modernidade, obtendo grande êxito no quesito estético e narrativo, uma vez que respeita o fato de que “além de convincentes, as reviravoltas precisam ser inesperadas”. (LODGE, 2009, p. 80) Dessa maneira, White Bear ilustra um mundo distópico (embora muito mais real do que pareça) em que a necessidade quase visceral do espetáculo abalou o próprio senso de humanidade.

 

Por isso, o título do episódio, que remete ao imaginário infantil e inocente, se torna uma dolorosa ironia ao nos depararmos com tamanha crueldade de todas as partes. White Bear, acima de tudo, desvela um mundo sem heroicidade. Assim, percebemos que a sociedade do espetáculo não se trata de um ser individual dotado de perversidade, mas uma consequência (e ao mesmo tempo causa) da condição humana no mundo contemporâneo. Por isso, “o espetáculo não é um conjunto de imagens, mas uma relação social entre pessoas, mediatizada por imagens.” (DÉBORD, 2003, p. 14) Seria impossível definir heróis e vilões em um universo em que todos os personagens são dotados de vilania.

 

Em outras palavras, será que um público que tortura friamente uma criminosa almejando se divertir com sua incapacidade e amnésia também não seria um tanto quanto criminoso?

 

Sem a pretensão de uma resposta definitiva e acerca dessa mesma ausência de heroicidade, gostaria de trazer à tela os episódios Nosedive e Shut Up And Dance. O primeiro deles é, aparentemente, mais leve em relação ao impacto dos acontecimentos, porém, tão intenso quanto o segundo em termos de lições deixadas. Na verdade, Nosedive seja talvez o mais real dos episódios de Black Mirror, pois cria um universo profundamente semelhante ao nosso. Por isso, não são necessárias muitas linhas para a articulação das ideias que compõem essa narrativa. Qualquer usuário de redes sociais que leia este texto escrito em 2017 irá se identificar, em maior ou menor grau, com a protagonista maníaca por curtidas. Nessa história, o mais importante a ser destacado é a compulsiva necessidade de ser notada e apreciada, sendo cabível passar por quaisquer absurdos em troca de um ranking elevado nas redes. Mais uma vez, Black Mirror desvela a ausência de heroicidade no mundo atual, pois existe apenas uma personagem dotada de alguma aparente bondade, a caminhoneira que socorre a protagonista errante. No entanto, desde sua aparição, essa personagem se mostra nitidamente fora do sistema criado pelas redes sociais. Isto é, não há espaço para esse tipo de caráter em mundo dominado por aparências. A prova cabal disso é a falsa amizade que, desde o início, é movida por interesses de ambas as partes que nada têm a ver com o real sentido de um laço de afeto. Por fim, a protagonista, rejeitada pela amiga que nunca teve e excluída da rede social que não a quer mais, é removida para o não lugar, representado simbolicamente pela última cena do capítulo. Conseguintemente, a rede social em Nosedive é análogo ao espetáculo de White Bear, pois não se trata de uma entidade dotada de vilania, mas sim de uma ferramenta através da qual a precária condição humana se manifesta.

 

 

A protagonista, nessa jornada, não existe mais como indivíduo autônomo e perde o controle de suas reais intenções pessoais quando passa a seguir a impositiva vontade social de ser virtualmente famosa, ilustrada por sua melhor amiga prestes a casar. Temos, dessa maneira, um possível exemplo do que Durkheim postulou ao analisar o fato social:

 

“Estamos, pois, diante de maneiras de agir, de pensar e de sentir que apresentam a propriedade marcante de existir fora das consciências individuais. Esses tipos de conduta ou de pensamento não são apenas exteriores ao indivíduo, são também dotados de um poder imperativo e coercitivo, em virtude do qual se lhe impõem, quer queira, quer não.” (DURKHEIM, 1972, p.1)

 

Já sobre Shut Up And Dance, a heroicidade nula se manifesta de forma mais dolorosa e impactante. Todos os personagens envolvidos na rede de assustadoras chantagens têm uma falha moral profunda e o plano macabro só funciona devido à vontade lancinante de cobri-las por parte dos indivíduos, que se unem involuntariamente como força coletiva. Por maldosa ironia, a união desses personagens, o que poderia ser algo valoroso em algum sentido, só existe por conta de suas atitudes egoístas e desesperadas. Revisitando Aristóteles, a reviravolta, nesse caso, se dá por dois motivos: o impacto em saber o repulsivo motivo dos desejos sexuais do protagonista e, além disso, o fato de que a perversidade por trás do chantagista anônimo é tamanha que, apesar de cumpridas todas as tarefas, as verdades são inconsequentemente reveladas. Então, caso façamos questão de formalizar uma moral advinda deste episódio, a lição que parece nos ser deixada é a de que, em maior ou menor grau, todos nós estamos derrotados por termos nosso calcanhar de aquiles. Para usar o termo de Machado de Assis, Black Mirror nos mostra que há um teto de vidro encobrindo o legado de nossa miséria.

 

Black Mirror somos nós

 

Dando continuidade a essa análise, o singelo e emblemático San Junipero não poderia ficar de fora de nossa leitura. Aparentemente, poderia parecer o único dos treze episódios cujo final é feliz, mas talvez essa afirmativa seja precipitada. Para defender essa ideia, gostaria de partir das considerações de Freud ao analisar as formas de afastar o sofrimento presente na sociedade:

 

“O eremita rejeita o mundo e não quer saber de tratar com ele. Pode-se, porém, fazer mais do que isso; pode-se tentar recriar o mundo, em seu lugar construir um outro mundo, no qual os seus aspectos mais insuportáveis sejam eliminados e substituídos por outros mais adequados a nossos próprios desejos.” (FREUD, p. 12)

 

Talvez seja cruel afirmar que as duas carismáticas protagonistas de San Junipero se enquadrem no papel de eremita. Contudo, deve-se admitir que a noção de recriar o mundo vai perfeitamente ao encontro do que o espectador presencia no comovente episódio. Por isso, ainda seguindo as linhas de Freud, acredito que a veracidade desse happy ending mereça ser questionada:

 

“Mas quem quer que, numa atitude de desafio desesperado, se lance por este caminho em busca da felicidade, geralmente não chega a nada. A realidade é demasiado forte para ele. Torna-se um louco; alguém que, a maioria das vezes, não encontra ninguém para ajudá-lo a tornar real o seu delírio.” (FREUD, p. 12)

 

Seguindo essa linha de raciocínio, poderíamos facilmente contra-argumentar a visão freudiana devido ao fato de que as personagens encontram reciprocamente alguém para “tornar real o seu delírio”, ou seja, a realidade não se torna demasiado forte para elas e, de fato, o próprio pai da psicanálise, dando continuidade ao mesmo texto, parece não achar tão grave essas correções fantasiosas na realidade:

 

“Afirma-se, contudo, que cada um de nós se comporta, sob determinado aspecto, como um paranoico, corrige algum aspecto do mundo que lhe é insuportável pela elaboração de um desejo e introduz esse delírio na realidade.” (FREUD, p. 12)

 

No entanto, “o remodelamento delirante da realidade” (FREUD, p. 12) deve ser compreendido como um escapismo total e absurdo, uma vez que, embora as cores do episódio nos remetam a uma atmosfera aprazível, todas as realizações positivas da narrativa ocorrem no plano do irreal, o que significa que a realidade não é capaz de abarcar a real felicidade das protagonistas. Não pretendo aqui chegar a uma conclusão definitiva sobre o happy ending dessa espécie de Romeu e Julieta dos nossos tempos, porém parece pertinente levantar o seguinte questionamento: mais vale uma ilusão feliz do que uma verdade triste? A caverna de Platão já nos ensinou a complexidade de se lidar com o verdadeiro sentido da realidade e, honestamente, não parece necessário haver resposta definitiva para esse questionamento.

 

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Adaptado do texto “Black Mirror somos nós”

*Gabriel das Chagas Alves Pereira de Souza é Graduando em Letras pela UFRJ e autor do romance O encantador de histórias. gabriel.chagas19@gmail.com