Black Mirror somos nós

Encontramo-nos hoje em meio a uma era moderna que perdeu contato com as raízes de sua própria modernidade. (Marshall Berman, Tudo que é sólido desmancha no ar)

Por Gabriel Chagas* | Fotos: Divulgação Netflix | Adaptação web Caroline Svitras

Este artigo é baseado no estudo introdutório do livro O Verso e o Silêncio de Adelino Fontoura, que tenta resgatar um pouco do trabalho literário desse poeta maranhense e que traz boa parte de sua produção poética, que é relativamente pequena, porém, bastante significativa.

 

 

Com lançamento em 2011, a série Black Mirror, definitivamente, tem dado o que falar. Obra-prima da pós-modernidade, o seriado, que até hoje rendeu treze profundos episódios isolados um do outro, não para de receber elogios por parte do público e da crítica. Fora isso, a série foi condecorada em 2012 com um Emmy Internacional de Melhor Minissérie de TV, concedido a produções cuja transmissão se dá inicialmente fora dos Estados Unidos. Dessa maneira, o presente artigo pretende discutir e investigar aspectos dessa obra no intuito de desvelar as possíveis camadas ocultas por trás de algumas dessas 13 histórias.

 

Mais que simples crítica à tecnologia

Em primeiro lugar, cabe destacar que, muito mais do que uma simples crítica à tecnologia, esses episódios independentes se unem na espinha dorsal de nossa condição para formar um doloroso e monumental ensaio sobre os nossos tempos. Na verdade, as redes sociais, videogames, satélites e aplicativos parecem se tornar apenas maneiras de ilustrar um mundo desesperado em disfarçar o fato de que falhou naquilo que realmente importa. Assim sendo, compreender Black Mirror é, antes de tudo, ter em mente uma ferida bem mais profunda do que o simples vício digital, que, em uma leitura mais atenta, serve exclusivamente para mostrar que nossos grilhões são frutos daquilo que nós mesmos produzimos.

 

Dito isso, é interessante trazer à tela algumas considerações de Guy Débord, importante autor francês, cuja obra, já na década de 60, conseguiu enxergar alguns aspectos de nossa moderna sociedade que são essenciais para aquilo que Black Mirror se propõe a discutir:

 

“Toda a vida das sociedades nas quais reinam as condições modernas de produção se anuncia como uma imensa acumulação de espetáculos. Tudo o que era diretamente vivido se esvai na fumaça da representação.” (DÉBORD, 2003, p. 13)

 

O escritor francês Guy Debord nasceu em Paris, em 1931. Foi um dos pensadores da Internacional Situacionista e da Internacional Letrista e seus textos formaram a base das manifestações do Maio de 68. | Foto: Shutterstock

Assim, o conceito de espetacularização, tão bem destrinchado por Débord, é, em algum sentido, o que move a maioria das tramas do famoso seriado. Os personagens das narrativas são, por isso, vítimas de uma patológica necessidade de se cultivar espetáculos. Seja pela desesperada busca por aprovação nas redes sociais, por um personagem caricato que se torna candidato político ou literalmente por um espetáculo doentio feito com uma criminosa em estado de amnésia; a espetacularização da realidade e, nessa perspectiva, “a fumaça da representação” que ofusca o mundo real servem para denunciar como estamos entregues à necessidade de basear a vida cotidiana em espetáculos, sejam eles telejornais sensacionalistas ou desespero por curtidas no Instagram. Para perceber mais profundamente a pertinência dessa afirmação, não precisamos ir longe. O que é o episódio piloto da série senão uma grande alegoria sobre a espetacularização do absurdo?

 

The National Anthem, grotesco e impactante, inicia a série já deixando claro o tom que guiará Black Mirror. O sequestro, que, aparentemente, move a narrativa do início ao fim, nada mais é do que um grande espetáculo difundido pela internet, e é dele que surgem todas as inquietações que movem o episódio. Relacionar-se sexualmente com um porco, o que já seria suficientemente degradante e absurdo, não é o bastante se não vier atrelado a um fenômeno midiático, daí a necessidade de se transmitir ao vivo pela televisão. Nesse sentido, o final do capítulo só vem a corroborar para a consolidação dessa ideia, uma vez que é revelado ao espectador que a prisioneira já havia sido libertada antes de o ato se realizar, ou seja, os personagens são apenas grandes vítimas desse palco.

 

 

 

Ainda sobre o final desse impactante episódio-piloto, a liquidez de nossas relações se manifesta de forma contundente. Afinal, um ano após o tenebroso fato, a mídia mostra que a vida parece continuar com seus eventos cômodos e banais. É, portanto, uma aguda prova de nossos tempos líquidos e incertos, em que nada é para sempre e o excesso de informações pode apagar absolutamente tudo que ontem parecia ser tão inesquecível. Não à toa, Bauman postulou que:

 

“A liquidez da vida e a da sociedade se alimentam e se revigoram mutuamente. A vida líquida, assim como a sociedade líquido-moderna, não pode manter a forma ou permanecer em seu curso por muito tempo. […] A vida líquida é uma sucessão de reinícios (…)” (BAUMAN, 2007, p. 7-8)

 

“Sucessão de reinícios”

Sendo assim, justamente por conta da “sucessão de reinícios”, a espetacularização se faz, mais do que uma tendência, uma necessidade dos tempos atuais. Nesse sentido, as ideias de Bauman e Débord não apenas se encontram como também se complementam, pois a vida líquida e a sociedade do espetáculo são, afinal, duas faces de nossa atual condição. Sendo a realidade líquida e efêmera, precisamos de uma excessiva quantidade de espetáculos para que os inúmeros estímulos aos quais estamos entregues todos os dias sejam minimamente significativos. Em outras palavras, em um mundo que, citando Marx, “tudo que é sólido desmancha no ar”, apenas um espetáculo, ainda que extraído dos acontecimentos fúteis e cotidianos, pode fazer com que a atenção se prenda por mais de cinco minutos ao mesmo fato.

 

Ainda sobre espetáculos, é impossível não pensar em Fifteen Million Merits ou White Bear, perturbadores e geniais. Embora pareçam tão distintos à primeira vista, agrupá-los faz sentido devido ao fato de que ambos, mais uma vez, se baseiam de forma explícita no conceito de sociedade do espetáculo. Ademais, faz-se pertinente termos a definição dada por Aristóteles para o conceito de peripécia, segundo o qual se trata de uma “mudança da ação no sentido contrário ao que foi indicado” (ARISTÓTELES, p.255). Neste texto, esse conceito aristotélico será chamado de reviravolta.

 

 

Dito isso, proponho que esses dois episódios manifestam o elemento narrativo da reviravolta com funções semelhantes, porém não idênticas. Isso se dá porque, em Fifteen Million Merits, o espetáculo, explicitamente representado por um palco, serve para desvelar nossas hipocrisias. O protagonista, a princípio disposto a confrontar o sistema, termina a trama em um exemplo de reviravolta que aponta para um revolucionário que traiu seus ideais. Ou seja, perante o medo de voltar à condição escrava que já conhecia tão bem, prefere se tornar mais uma celebridade que alimenta esse sistema patológico. Nesse caso, a história vai no sentido contrário ao que se esperava devido ao fato de que a espetacularização não só vence o protagonista, como também o absorve para dentre de seus mecanismos de poder. Estaria Black Mirror nos ensinando que muitos revolucionários, afinal de contas, acabam engolidos pelo sistema?

 

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Adaptado do texto “Black Mirror somos nós”

*Gabriel das Chagas Alves Pereira de Souza é Graduando em Letras pela UFRJ e autor do romance O encantador de histórias. gabriel.chagas19@gmail.com