Assassinato no Expresso do Oriente é adaptado em filme com Johnny Depp

Há 84 anos que um seleto grupo de passageiros embarcou em uma luxuosa composição ficando confinados nela por força de uma tempestade de neve

Por Adilson de Carvalho Santos* | Fotos retiradas da revista | Adaptação web Caroline Svitras

Durante dias, até que pudessem retomar sua viagem, um dos mais ilustres passageiros: Samuel Ratchett – um riquíssimo empresário – aparece morto em sua cabine onde foi esfaqueado 12 vezes. Para que o assassino fosse encontrado, seria necessário correr contra o tempo, já que, assim que a tempestade parasse e o trem chegasse à parada mais próxima, o assassino poderia escapar. O detetive belga Hercule Poirot, a bordo do trem, assume as investigações que remontam ao sequestro e morte de uma criança, caso este não resolvido na época e que ganhara as manchetes internacionais.

 

Todo esse intrigante enredo não foi real, mas fruto da imaginação de Agatha Mary Clarissa Miller, nascida em 15 de setembro de 1890, que alcançou a eternidade usando o sobrenome de seu primeiro marido: Archibald Christie. O referido livro que viria a ser chamar Assassinato no Expresso do Oriente surgiu em sua mente quando a própria autora viajou a bordo do Expresso do Oriente em 1928. Além disso, o episódio do luxuoso trem preso durante uma tempestade de neve realmente ocorreu anos antes. A trama sobre o sequestro e a morte de um inocente foi retirada de um caso real: o sequestro e assassinato do filho do aviador Charles Lindbergh que provocou comoção nos anos 30. Agatha escrevia movida por ideias surgidas de todas as formas e de todos os lugares. Durante sua estadia na Turquia, hospedou-se no Pera Palas Hotel, onde escreveu o livro que seria publicado de forma seriada nas páginas do Saturday Evening Post, em 1933, e com o título Murder on the Calais Coach, até ser publicado pela primeira vez como romance em janeiro de 1934 pela Editora Collins. Nessa época, a viagem no Expresso do Oriente havia atingido seu ápice de glamour e sofisticação, antes que a II Guerra interrompesse o serviço do transporte. Na época, Agatha já era um sucesso editorial com mais de 20 livros e contos publicados em várias coletâneas. Era uma celebridade no mundo das letras e Assassinato no Expresso do Oriente alcançaria a impressionante marca de 3 milhões de cópias vendidas na época.

 

O Expresso do Oriente

Transporte ferroviário de luxo inaugurado em 1883, pelo empresário belga Georges Nagelnackers, que fazia a travessia entre Paris e Constantinopla (hoje, Instambul) e que trazia como passageiros milionários e a fina nata da aristocracia europeia. O serviço foi temporariamente interrompido em 1914 por força da Primeira Guerra e retomado em 1918. Um ano depois passou a usar o túnel Simplon ligando Suiça à Itália. A década de 30 foi apogeu do luxuoso trem que passou a se dividir em 3 linhas: o Expresso do Oriente tradicional, o Simplon Orient Express e o Arlberg Orient Express que saia de Paris rumo a Budapeste. Outra interrupção se deu entre 1939 e 1945 devido à Segunda Guerra, após a qual o trem voltou a circular com algumas mudanças geográficas devidos às consequências dos dois conflitos mundiais. A rota original se encerra em 1962, período da Guerra Fria e em 1977 se dá a última viagem Paris-Istambul. Atualmente, o Orient Express faz a viagem entre a França e a Áustria, mas sem o glamour de outrora, enquanto os vagões da composições originais se encontram expostos em museus. Além de Agatha Christie, outros escritores o usaram como elementos de histórias de personagens como James Bond e Sherlock Holmes, entre outros.

 

Assassinato no Expresso do Oriente no cinema

Além do teatro, o cinema e a TV constantemente revisitam as obras de Agatha Christie. Há 40 anos estreou a melhor versão de um livro de Dame Agatha, título de nobreza que lhe foi concedido em 1971. Em 24 de novembro de 1974 chegou às telas Assassinato no Expresso do Oriente (Murder on The Orient Express) dirigido por Sidney Lumet, a melhor adaptação cinematográfica de um livro da Rainha do Crime. O filme reuniu um superelenco encabeçado por Albert Finney no papel de Hercule Poirot. Na lista de passageiros/suspeitos investigados estavam personagens interpretados por Sean Connery, Anthony Perkins, Martin Balsam, Michael York, John Gieguld, Vanessa Redgrave, Jaqueline Bisset, Jean-Pierre Cassell, Lauren Bacall e Ingrid Bergman, tendo Bergman ganhado, por seu papel, o Oscar de melhor atriz coadjuvante. A vítima era interpretada por Richard Widmark, que tempos depois afirmou que aceitou o papel pela oportunidade de trabalhar com esse elenco superstar. O roteiro de Paul Dehner manteve o elemento envolvente da obra de Agatha e fez mudanças mínimas no material original como a nacionalidade do diretor da linha férrea, que de francês virou italiano.

 

O filme foi indicado para um total de seis Oscars. Na época, Agatha já era a autora mais lida do mundo, e aos 84 anos aprovou a atuação de Finney como Poirot. Ela compareceu à estreia do filme, satisfeita pela primeira vez com uma adaptação de uma obra sua para o cinema. Essa seria sua última aparição pública antes de falecer de causas naturais em janeiro de 1976. Assassinato no Expresso do Oriente ainda seria refilmado para a TV em 2001, com Alfred Molina como Poirot. Essa adaptação subaproveitou a trama reduzindo o número de suspeitos e incluindo o interesse amoroso de uma mulher por Poirot, o que não existe no livro. Em 2010, surge uma nova adaptação, também para a TV, com David Suchet em elogiada atuação na série britânica que leva o nome do personagem. Entre dezembro de 1992 e janeiro de 1993 ainda houve uma adaptação para a rádio BBC, dividida em cinco partes, com Poirot na voz de John Moffatt.

 

Tanto sucesso não significa que Agatha não tivesse seus detratores. Alfred Hithcock dizia desprezar seu estilo de narrativa que se convencionou chamar pejorativamente de “whodunit” (quem fez isso?). Contudo, inegável é o fato que Agatha Christie tornou-se sinônimo do gênero literário que escreveu. Sua narrativa serviu de inspiração para diversos imitadores, e no cinema, seu estilo (um crime e vários suspeitos) foi homenageado pelo renomado Robert Altman em 2001 no filme Assassinato em Gosford Park (Gosford Park). A ideia de um assassino invisível foi usada no filme Identidade (Identity) em 2003 e a premissa de passageiros ameaçados por um crime, recentemente usada em Sem Escalas (Non Stop), com Liam Neeson e Julianne Moore. Apesar do anunciado encerramento da bem-sucedida e longeva série britânica Poirot, rumores sobre novas adaptações de seus livros são frequentes na mídia e indicam que, se o crime não compensa, certamente ele cria seguidores, e entre tantos autores notórios Agatha Christie se destaca como uma excelente analista da natureza humana, nossas fraquezas e ambições que há décadas alimentam a imaginação de gerações de leitores.

 

Revista Conhecimento Prático – Literatura Ed. 57

Adaptado do texto “80 Anos do Clássico de Agatha Christie”

*Professor formado em Letras, bacharel em Inglês – Literatura (UERJ); leciona e é assistente-colaborador do crítico Rubens Ewald Filho.