As origens do Cordel

Este artigo é uma homenagem aos poetas do povo

Por Luzdalva S. Magi* | Foto: J. Borges | Adaptação web Caroline Svitras

 

A Literatura de Cordel surgiu primeiramente na forma de cantigas trovadorescas que eram acompanhadas por instrumentos musicais, versos compostos para cantar e dançar, o que facilitava ao ouvinte a memorização e assimilação do tema apresentado. A presença de rimas, as constantes repetições eram os recursos utilizados pelos compositores para que o público assimilasse o discurso inserido na obra. Não havia registro escrito, apenas a apresentação oral dos versos compostos. Muito tempo depois, com o surgimento do Humanismo, é que a poesia e a música se separaram. Atualmente, o papel dos trovadores, menestréis e jograis foi assumido por cantores e grupos musicais que fazem uso do verso e da melodia para levar seu discurso ao público.

 

Symphonia da Cantiga 160, Cantigas de Santa Maria de Afonso X, o Sábio – Códice do Escorial. (1221-1284).

As cantigas de amigo traziam características de confissão e anseios e o eu lírico feminino falava de possibilidades reais de sentimentos. Esse tipo de cantiga era comumente utilizado em bailados e celebrações de grupos agrícolas, nos quais a característica matriarcal era forte e influente – nos rituais da primavera, nas festas comemorativas, ela sacramentava a importância social do ser feminino. No entanto, em outras situações, essa mesma cantiga era a síntese da mulher sofredora, que vaga pela praia e fala com os elementos da natureza, está à espera do seu amado que partiu para terras distantes, que canta ao acaso sua dor e o temor obscuro de não mais rever o ente querido.

“Ondas do mar de Vigo
Se vistes meu amigo?
E, ai, Deus, se verra cedo!
Ondas do mar levado
Se vistes meu amado?
E, ai, Deus, se verra cedo!”

As transformações sofridas pelas cantigas de amigo não a esvaziaram de seu sentido primeiro. Traços comuns entre elas e obras e composições atuais são facilmente observáveis. Vamos usar como termo de comparação a canção de Caetano Veloso e Ferreira Goulart, Onde Andarás, gravada por grandes intérpretes, como Joanna, Marisa Monte e Maria Bethânia.

Onde andarás nesta tarde vazia
Tão clara e sem fim
Enquanto o mar bate azul em Ipanema
Em que bar, em que cinema te esqueces de mim.
(…)
Eu sei, meu endereço apagaste do teu coração,
(…)
Não serve pra nada a escada, o elevador,
Já não serve pra nada a janela
A cortina amarela, perdi meu amor
E é por isso que eu saio pra rua
Sem saber pra quê
Na esperança talvez de que o acaso,
Por mero descaso, me leve a você.
(…)

A melancolia do abandono, o sopro de desesperança, o vagar pela praia acalentando o desejo de encontrar o amor distante está presente como em qualquer canção medieval, muda a linguagem, sim, porém a mensagem e o traço sentimental e desvairado permanecem intocáveis como nas falas dos antigos menestréis. Essa mágica da poética que acontece sinestesicamente é que enleva e cativa o ouvinte e que o faz repetir mecanicamente um refrão.

 

 

Os vários tipos de cantigas de alguma forma permaneceram, chegaram ao Brasil com os colonizadores e foram se adaptando, como todo traço cultural se adapta. Dessa adaptação é que surgiu a modalidade de expressão poética chamada Cordel, comum no Nordeste brasileiro, tendo como similar do menestrel o repentista. O gênero é chamado Cordel porque os livretos eram compostos de folhas atadas por uma espécie de barbante, os quais eram expostos em varais nas feiras livres para serem comercializados. Na França, a Literatura de Cordel recebeu o nome de Littèrature de Colportage; na Espanha, de Pliegos Sueltos e em Portugal, de Folhas Volantes.

 

Os temas dos cordéis variam, podem falar de amor, de contendas, de feitos heróicos, de personagens históricos, mas o mais comum é o desafio – uma peleja poética empreendida por dois autores que têm como objetivo mostrar a presteza do verso e o raciocínio rápido. A disputa de versos é conhecida como “duelo de repentes”. Nela, os compositores improvisam e satirizam ou elogiam seu rival.

 

 

O principal autor de Cordel no Brasil foi Leandro Gomes de Barros (1865-1918), que se inspirou em cavaleiros lendários e compôs a “A Batalha de Oliveiros com Ferrabrás”, fazendo alusão a Carlos Magno e os Doze Pares de França.

 

“Eram doze cavaleiros,
Homens muito valorosos,
Destemidos e animosos
Entre todos os guerreiros,
Como bem fosse Oliveiros,
Um dos pares de fiança,
Que sua perseverança
Venceu todos os infiéis
Eram uns leões cruéis
Os Doze Pares de França!”
(…)

O Cordel também assume traços bem humorados, como a crítica de costumes. Com certa galhofa e ar descompromissado, demonstra os preconceitos comportamentais da sociedade de maneira geral, como é possível verificar no excerto abaixo da obra apresentada por José Martins dos Santos, autor de Moça Namoradeira.

“Aconselho às moças donzelas
Que vivem na maganagem
Que desprezem a malandragem
E o namoro das janelas
Vá lavar suas panelas,
Talher, prato e frigideira,
Tenho visto moça solteira
Com os malandros abraçada
Termina sendo falada
A moça namoradeira.”

O Brasil, hoje, possui dois representantes repentistas de total responsabilidade, Caju e Castanha – eles cantam o humor e a beleza, a feiura e a delicadeza e vão espalhando talento, bom humor, acidez e crítica social por onde passam. Entretanto, não são valorizados como deveriam e nos rincões afastados desse País laboram excelentes compositores e repentistas que nem sequer são conhecidos.

 

Ritmos, batidas, versos…

Todos os estilos têm uma origem. As canções trovadorescas chegaram ao Brasil vindas de Portugal, o Repente nasceu do sofrimento do retirante nordestino e o Rap surgiu nos guetos americanos. E o que esses estilos, criados em momentos e situações tão distintas, têm em comum? Principalmente, a rima, a toada repetitiva e o conteúdo de sua mensagem, a despeito de todos eles, no que diz respeito à sonoridade, possuírem arranjos bem diferentes, próprios de sua época. Os trovadores cantavam seu tempo, sua terra e seus amores; os repentistas empreendem um duelo que varia entre o social e o político e os cantores de rap abordam o social e o cotidiano nas comunidades marginalizadas pela sociedade.

 

A banda Racionais MC’S, por exemplo, faz um Rap cortante, inspirado nas diferenças sociais e na violência que assola os grandes centros urbanos. Poesia forte, batida seca e dolorida, é uma música difícil porque faz pensar, traça um panorama que nem todos conhecem – a consciência do que acontece nas ruas da periferia, uma realidade quase sempre marcada pela história do menino pobre, criado pela mãe que trabalha e que tem de optar entre trazer o sustento para casa ou cuidar de seu filho e mantê-lo a salvo dos perigos da rua. O rap tem a mesma força cultural de outros ritmos e representa o cotidiano da maioria das pessoas que povoam as cidades em busca de uma vida melhor.

 

*Luzdalva S. Magi, formada em Letras pelo Centro Universitário Fundação Santo André (FSA), é professora de Língua Portuguesa, de Língua Inglesa, de Língua Francesa e suas Literaturas, de Técnicas de Redação e Análise do Discurso e também de Crítica Literária. Trabalha na Rede Particular, Estadual e Municipal da cidade de Santo André, no ABC. Contato – email: dalvamagi@yahoo.com.br, blog: http://sublime-poem.blogspot.com.br

Adaptado do texto “Das canções trovadorescas ao Cordel”

Fotos: Revista Conhecimento Prático – Literatura Ed, 54