Reconto de uma História Árabe: As Mil e Uma Noites e o Poder das Histórias

Texto Sandra Bozza | Adaptação Isadora Couto | Foto Shutterstock

Há muitos e muitos anos, em uma época muito distante da nossa, havia um rei, Shariar, que sofreu tremendo desgosto. Por saber que havia sido traído por sua esposa, decidiu que se casaria cada noite com uma mulher e mandaria matá-la na manhã seguinte! Não havia mais quem quisesse casar com o tal rei. Tinham de buscar noivas em reinos distantes e estranhos, pois as que conheciam a determinação do rei, sabiam de seu destino após a primeira noite! E assim aconteceu, causando tristeza e medo em todo o reino, durante três longos anos. Foram mais de mil noites! Porém, como nada é para sempre, uma esperança surgiu com o nome de Sherazade. Ela, astuta e bem instruída, conhecedora das artes e das letras, teve a ideia de acabar com aquela barbárie!

– Meu pai, disse ela ao Primeiro-Ministro do Rei, eu sei como impedir que isso continue. Ajude-me a casar com o rei e ele nunca mais determinará a morte de nenhuma outra jovem, daqui ou de outro reino qualquer. O pai, desesperado, se negou terminantemente a auxiliá-la:

– Por mais que eu saiba que isso não pode continuar, não posso arriscar em consentir em sacrificar minha filha mais velha.  Mas ela não se contentou e achou outros caminhos para despertar a atenção do rei. Um dia tocava, divinamente, um instrumento raro, no outro comentava sobre uma famosa obra de arte e em outros fazia questão de preparar e servir o prato favorito daquele homem, que continuava se casando cada noite com uma mulher diferente. Sem perceber, o rei foi prestando uma atenção especial em Sherazade e a pediu em casamento.
Na noite de núpcias, na porta do quarto real, ouviu-se uma choradeira do lado de fora.  – Oh, Majestade, deve ser minha irmãzinha, Duniazade, explicou a noiva. Ela está chorando porque está acostumada a que eu lhe conte uma história, como nossa mãe fazia todas as noites, quando éramos pequenas. Já que amanhã estarei morta, peço-lhe, por favor, que a deixe entrar para que eu a entretenha pela última vez! E, antes mesmo de abrir a porta, começou, com sua melhor voz:

“Era uma vez um mágico famoso e muito malvado,
Capaz de tudo fazer, quando era provocado
De sua cartola preta, com sua bengala comprida,
Podia tirar sol e estrelas, a lua, a morte e a vida…”
Furioso, Shariar tentou impedir que a história continuasse, mas, de vez em quando, também prestava atenção em alguns trechos:
“Certo dia, no deserto, com a caravana a andar
Cruzou o caminho de todos, um imenso urso polar …”
Logo ele resmungava, tossia e voltava a se entreter e a se deliciar com a voz macia e alegre de Sherazade:
“Nesse instante uma luz, todo o céu iluminou
E o homem com a bengala, nunca mais ali pisou!”  – O homem com a bengala era o mágico? – quis saber o rei, que não conseguira prestar atenção na história inteira.  – Sim, meu senhor, era o mágico que…  E nesse instante, interrompeu o que explicava para levar sua irmã, que acabara por adormecer, para seus aposentos, pois ela não poderia passar a noite nos aposentos reais. Quando voltou, fingiu-se de muito cansada e caiu na cama em sono profundo. O rei, que era muito curioso, ainda tentou acordá-la para que ela contasse as partes da história que ele havia  perdido. Como ela não acordava e o rei queria saber a história toda, decidiu não enviá-la para morte naquela manhã e saiu para cumprir suas tarefas reais.

Agora rainha, Sherazade sabia que teria que dar boas explicações para todo o reino e, naquele dia, não saiu de seus aposentos reais. Passou as horas organizando a mais linda das histórias para contar à noite, se o rei ainda a quisesse escutar.  Chegada a noite, rei e rainha se encontraram em silêncio e nem bem o Soberano adentrou o quarto, ouviu uma suave melodia, que embalava uma história triste, de uma fada que perdera suas asas porque não usava seus poderes para o Bem. Enquanto seus vassalos trocavam suas roupas de dormir, na sala ao lado, separada apenas por cortinas vermelhas e finas, a rainha tocava levemente as cordas de uma harpa e narrava, narrava, narrava…  Disfarçando, o rei prestava tanta atenção, que nem percebeu que os empregados que o vestiram haviam saído. Ele estava de novo a sós com sua mais nova esposa e começou a se sentir calmo ouvindo aquela voz suave, que tinha o poder de lhe trazer à memória as mais lindas cenas, visualizando em sua mente as aventuras descritas por aquela poderosa voz. No momento mais interessante da história, a rainha, repentinamente, calou-se. – Continue! – ordenou Shariar.
– Mas o dia está amanhecendo, Majestade! Já ouço o carrasco afiar a espada! – Ele que espere! – declarou o rei. Shariar deitou-se e dormiu profundamente, só despertando ao anoitecer. Ordenou, então, à esposa que concluísse a história. Assim ela o fez: “E assim termina essa história, que a todos pode mostrar, Que quando um dom nos é dado, é para os outros ajudar!” Porém, o sultão não se deu por satisfeito e pediu, desta vez com delicadeza: – Conte-me outra, por favor!

Sherazade com sua voz melodiosa começou a narrar histórias de aventuras de reis, de viagens fantásticas de heróis e de mistérios. Contava uma história após a outra, deixando seu marido maravilhado.  Sem que percebesse, o rei começou a viver cada dia esperando pelo momento de ouvir as histórias encantadoras narradas pelo poder da voz de sua esposa. E ela contava, vivamente, histórias de amor, enigmas, dramas e aventuras, sempre deixando de contar a última parte, para que o rei não a mandasse matar.  O rei transformara-se em um homem bom e feliz, que voltava correndo para sua esposa! Não só por causa das histórias, mas porque aprendeu a admirá-la e a sua forma de ser o deixava sempre feliz.

Certa manhã ela terminou uma história ao surgir do sol e falou: – Agora não tenho mais nada para lhe contar. Você percebeu que estamos casados há exatamente mil e uma noites?
Só então Shariar constatou que não possuía mais desgosto em seu coração. A amargura desaparecera.  – Estão batendo na porta! Deve ser o carrasco. Finalmente você pode me mandar para a morte!  Olhando para Sherazade, sentiu o amor lhe inundar o coração como um raio de luz. Descobriu que jamais poderia matá-la, pois não conseguiria mais viver sem ela e suas encantadoras histórias.  Encaminharam-se para as varandas do palácio e de lá contaram aos súditos que a partir daquele dia a alma daquele reino seria formada pela magia, paixão e encantamento de todas as histórias que ali se contassem.

 

Revista Literatura | Ed. 67