Arte como sobrevivência

Notas sobre leitura, escrita e criação artística: experiências de vida e morte.

Por Míriam Gomes de Freitas* | Foto: Shuttersotck | Adaptação web Caroline Svitras

 

Desde o início da história da humanidade até os dias de hoje é inegável que a leitura tem contribuído para o bem-estar do indivíduo, exercendo papel fundamental na formação da cidadania e na transformação da mentalidade humana, como dizem estes versos da canção Livros do músico Caetano Veloso: “Mas os livros que em nossa vida entraram / São como a radiação de um corpo negro / Apontando para a expansão do Universo / Porque a frase, o conceito, o enredo, o verso […] / É que pode lançar mundos no mundo”.

 

 

Como pessoas em processo de construção ou simplesmente como sobreviventes dos cárceres imaginários – ou não – , das clausuras familiares e da grande solidão, os leitores têm a sensação evidente de que os livros e a leitura podem conduzi-los ao conhecimento do próprio mundo, à preservação da dignidade, do sonho e do desconhecido. Por isso existem as bibliotecas, que desde a Antiguidade até os dias atuais, são verdadeiros espaços vitais de reflexões simbólicas e ficcionais. Os moradores dos grandes centros urbanos declaram que vão à biblioteca para “não deixarem de existir” ou para “não se deixarem destruir”. Existem filmes e livros que retratam, com magnitude, a questão da influência da leitura na vida das pessoas, em como as palavras lidas podem transformar o olhar, os sentimentos e as atitudes de alguém. Balzac e a costureirinha chinesa é um exemplo disso. Nessa mesma linhagem, Minhas tardes com Margueritte, do francês Jean Becker, é também um filme que narra a história do encontro e da amizade entre Germain – um quase analfabeto – e Margueritte, uma idosa devoradora de livros, em que ambos compartilham suas vidas e a literatura. Ele, para se salvar do abismo do desconhecimento e do engodo da ignorância; ela, para resistir à velhice e suas limitações, além da solidão e do abandono.

 

BALZAC E A COSTUREIRINHA CHINESA
A obra, escrita por Dai Sijie, foi às telas do cinema dirigida pelo próprio autor que relata a história do fim da década de 60, na China, cujo líder Mao Tse-Tung ordena que fossem extintas das bibliotecas do país, as obras consideradas símbolos da decadência ocidental. Porém, três adolescentes chineses quando abrem uma mala secreta com livros de Balzac, Flaubert, Baudelaire, Rousseau, Dostoiévski, Dickens, mudam para sempre suas vidas e a da jovem costureirinha analfabeta moradora da montanha Fênix Celestial | Foto: Divulgação / ©Europa Filmes

Assim como a leitura, a escrita e as outras formas de criações artísticas, também são suplemento da alma. A metáfora e as nuances poéticas presentes na arte são capazes de narrar a vida e seus momentos pautados na perda, na ausência, na experiência, no devaneio. A escrita, sobretudo, pode libertar o homem de suas premonições interiores, transformando-o e, de certa forma, integrando-o à alegria no momento em que as palavras o libertam do instante indelével da queda. A escrita e a arte também dão lugar à sobrevivência, à fuga da dor, e descortinam o lado sombrio para que na escuridão se faça luz. Dos tempos muito difíceis da história e da política mundial, nasceram obras que são verdadeiros relatos de sobrevivência, como Se isto é um homem, da autoria de Primo Levi, escritor italiano que sobreviveu ao campo de concentração de Auschwitz. Assim também, Pier Paolo Pasolini, cineasta e escritor italiano fez de suas obras um retrato crítico e polêmico do Fascismo de Mussolini. Em uma de suas cartas, ao amigo Franco Farolfi, descreveu a revoada de vaga-lumes na escuridão do campo em Bolonha, na Itália. Pois, as pequenas luzes daqueles insetos, simbolizavam a esperança, a amizade, as coisas ternas que, por vezes, já estavam desaparecendo naqueles tempos de tirania moderna. Tudo isso, a escrita de Pasolini flagrou e descreveu momentos de “tentativas” e “sobrevivências” de um mundo cujos sentimentos humanos mais fraternos, já se extinguiam. Roland Barthes, o ensaísta francês, um dia após a morte de sua mãe, Henriette Binger, iniciou a escrita de seu Diário de luto, em cujas páginas expressou a dor da perda, do luto: “Caminho como posso através do luto”. Movido por uma tristeza mórbida, Barthes escreveu seu diário entre os anos de 1977 e 1979, onde tudo refletia a náusea da ausência: “Esta manhã, pensei sem parar em mam. Tristeza, nauseada. Náusea do Irremediável”.

 

No Brasil, um dos exemplos de sobrevivência à dor e à morte manifestados através da literatura, foi a do escritor gaúcho Caio Fernando Abreu. Este, ao saber-se soropositivo, escreveu três cartas que intitulou Cartas para além dos muros, publicadas no jornal Estado de São Paulo na década de 90. A última, publicada em 18/9/1994, representa um lampejo de sobrevivência, de luta, de aceitação; ou não seriam estas, as pequenas emanações de luz dos vaga-lumes ou pirilampos? A AIDS naqueles tempos matava facilmente, e o escritor, mesmo muito doente, motivado pelo espírito de resistência, empunhou sua luta pela vida, através de sonhos, de crenças e de muita fé. Apesar de seu estado enfermo, ainda continuava mais vivo do que nunca, ao dizer “leio Zuenir Ventura para entender o Rio; uso a estrela do PT no peito (Who knows?); abro o Ching ao acaso: Shêng, a Ascensão; não perco Éramos seis e agradeço, agradeço, agradeço. A vida grita. E a luta continua”.

 

Quanto a essa roupagem da escrita sob o luto e a dor súbita da doença, a escritora norte-americana, Eve Kosofsky Sedgwick, quando soube que tinha câncer, escreveu a obra A dialogue on love (2000), um misto de poemas, diário de terapia, memórias; tudo como um relato de experiências através da escrita. A possibilidade da morte trouxe à autora um olhar submerso no desejo de continuidade através da escritura. A epifania da vida se revelou através dessa obra híbrida, notável pelas ondulações de textos que dialogam com o leitor e sua cumplicidade.

 

Já na escultura e na pintura, podem-se destacar, respectivamente, as incansáveis sobreviventes da dor, das traições, do destino malogrado – a francesa Camille Claudel e a mexicana Frida Khalo – , que através de suas artes, desnudaram suas mazelas e suas vidas. Primeiramente, ao evocar Camille, temos sua obra intitulada Le Dieu envolé, appelé aussi L’implorante, concebida entre 1893 e 1897, que retrata a figura feminina em súplica num momento de dor – humildade e desespero – talvez fossem a tradução dessa obra. Suas esculturas são profundamente marcadas pelos 15 anos de relacionamento conturbado e conflituoso com o escultor Auguste Rodin. O sofrimento e a depressão após o término, levou-a à loucura e sua arte consagrou-se como uma revelação do amor “ausente”, ao confessar: “Há sempre algo de ausente que me atormenta”.

 

Foto: Wikipedia

A mexicana Frida Khalo, além de se expressar pela pintura, escreveu diários que eram um registro de sua dor e solidão através das palavras. Assim, escrevia e pintava os seus sofrimentos em nuances letais de descontentamento e fatalidade. Teve um casamento tumultuado com o pintor Diego Riviera, em que ambos mantinham relações extraconjugais, sendo que ele a traiu com Cristina, a irmã mais nova de Frida. A tela intitulada Diego y yo (1949) expressa a experiência difícil vivida em seu matrimônio. Após a trágica descoberta das muitas traições de Diego (Unos cuantos piquetitos, 1935), a pintora Frida, bissexual, envolve-se com homens e mulheres, chegando a manter um caso com Leon Trotski, depois de separar-se do marido. Todas essas passagens turbulentas de sua vida foram refletidas em sua obra (autorretratos), tanto nas telas quanto nas palavras. Tentou várias vezes suicídio com facas e martelos; foi vítima de vários abortos, pois possuía o útero perfurado devido a um acidente na juventude. Antes de morrer, escrevera em seu diário: “Espero que minha partida seja feliz, e espero nunca mais regressar”. Em sua pintura de cores vivas e densidade árdua, deixa refletir sua alma dilacerada ao flagrar sua própria angústia sob as faces de suas várias mortes. A expressão de sua desesperança em relação à vida é pintada em Sin esperanza (1945).

 

Assim, a leitura, a escrita e as outras formas de arte, muitas vezes, foram fonte vital de sobrevivência e resistência para aqueles que se viram à beira da loucura, da morte, da mais profunda angústia existencial. Ao invés de se matarem com armas de fogo ou de metal, buscaram, como as luzes intermitentes dos vaga-lumes na escuridão, acenderem suas lanternas internas, onde a vida fosse a pulsão da esperança; os ombros alheios fossem o suporte às decepções; a doença: o diálogo com a luta; o cárcere: a morada da poesia. As narrativas, os versos, as linhas da escultura e a pintura dos artistas que, pela experiência muitas vezes do trágico, revelaram a tez de suas intimidades, representam hoje a paisagem de sentimentos que antes invisíveis, ganharam voz em um hemisfério da subjetivação, tensionados pelos limites do homem entre as fronteiras da racionalidade e da emoção, da vida e da morte. Pois, o artista e a obra se constroem simultaneamente, e no mal-estar dessa interminável reconstrução pautada no olhar desesperado de sobrevivência, ele nasce e renasce diversas vezes à procura de um outro “eu” que se constitui em suas criações, as quais são reflexos de seus próprios fragmentos.

 

*Mírian Gomes de Freitas é doutoranda em Estudos de Literatura (UFF), escritora, além de professora do Núcleo de Línguas do Instituto Federal de Educação, Ciências e Tecnologia de Juiz de Fora, MG.

Contato: mfreitasbrazilmg@aol.com

Adaptado do texto “Uma poética da sobrevivência”

Revista Conhecimento Prático – Literatura Ed. 66