Aprendizagem Significativa

Da Redação | Foto: Shutterstock | Adaptação web Caroline Svitras

Ensinar, por si só, não é fácil e ensinar literatura, em virtude de sua complexidade, é uma tarefa que deveria ter sido incluída entre os doze trabalhos de Hércules. Há que se considerar aspectos culturais, filosóficos, artísticos, históricos… nos quais as obras literárias estão inseridas e, de quebra, ainda buscar desenvolver o interesse pela leitura, sem a qual o ensino da literatura corre o risco de se tornar um discurso oco. Pensando nos professores de literatura e nos professores em geral, a Conhecimento Prático convidou o professor Júlio Furtado para uma entrevista na qual ele apresenta uma abordagem de ensino que contribuirá para que você torne suas aulas mais “significativas”.

 

Júlio Furtado, cujo vasto currículo inclui graduação em Pedagogia, pós-graduação em Orientação educacional, Gestalt-terapia e Dinâmica de grupo, além de especialização em Programação Neurolinguística e diploma em Psicopedagogia pela Universidade de Havana, Cuba – campo ainda pouco explorado no Brasil –, é o autor de Aprendizagem Significativa, obra dirigida a pais, educadores e a professores de qualquer segmento de ensino que oferece ferramentas para a compreensão e a reflexão sobre o ato de aprender, os modos de aprender e, consequentemente, o papel de cada um de nós no processo de ensino e aprendizagem.

 

Professor, o que é aprendizagem significativa?

É a aprendizagem que ocorre a partir de uma associação com aprendizagens anteriores, criando, inicialmente, um sentido e, posteriormente, um significado que permite a ampliação do repertório de quem aprende. Em outras palavras, os novos conhecimentos adquiridos relacionam-se com o conhecimento prévio que a pessoa possui. Em Língua Portuguesa, podemos exemplificar quando a criança aprende flexão de gênero, relacionando ao conceito de masculino e feminino que ela já sabe. A partir dessa aprendizagem ela amplia o seu vocabulário fazendo a correta flexão de gênero das palavras. A aprendizagem se incorpora ao uso rotineiro da criança a partir da construção do significado que ela criou.
Quando, como e onde surgiu o conceito?

O termo surgiu no início da década de sessenta nos Estados Unidos com os estudos de David Ausubel. Segundo Ausubel, aprendizagem significativa é um processo por meio do qual uma nova informação relaciona-se, de maneira substantiva (não literal) e não arbitrária, a um aspecto relevante da estrutura de conhecimento do indivíduo.

 

O afeto em sala de aula transforma o aprendizado

 

O que o levou a se interessar por essa abordagem?

Em minha prática como professor sempre me incomodei muito com o processo de aprendizagem mecânica. Em minhas aulas sempre tentei fazer o aluno construir algum significado em torno do conteúdo que estava sendo ensinado. De forma empírica, sempre forcei o aluno a definir os conceitos com suas próprias palavras e a relacionar os conceitos com a vida, com o objetivo de que a aprendizagem fosse mais consistente. Ao ter contato com a teoria de Ausubel, encontrei nela a fundamentação teórica de que precisava para embasar minha prática docente.
Quais as principais diferenças entre a aprendizagem significativa e as abordagens tradicionais, que privilegiam a mera transmissão de conteúdos?

A principal diferença está na construção de sentido a partir da conexão com aprendizagens anteriores. As abordagens tradicionais promovem basicamente aprendizagens mecânicas que ocorrem, em geral, pela simples transmissão de conteúdos. Deixemos claro que é possível que um aluno aprenda significativamente a partir da mera transmissão de conteúdos, desde que o novo conhecimento se relacione com conteúdos que o aluno já conhece e construa nesse encontro um sentido que dê sustentação à ampliação de um conceito. Para isso, porém, é preciso que o novo conhecimento provoque interesse suficiente para que ocorra esse processo.

 

Leitura e ampliação do vocabulário

 

O senhor tem observado entraves e/ou resistência para introduzir a aprendizagem significa nas escolas? Em caso afirmativo, quais e por quê?

Sim, vários. Perseguir a aprendizagem significativa rompe com alguns paradigmas aos quais a maioria de nós está arraigada porque a escola em que estudamos acreditava que a simples transmissão garantia a aprendizagem significativa. Geralmente, o professor que somos é a síntese dos professores que tivemos em nossa vida escolar, os quais, via de regra, não focaram a aprendizagem significativa. Outro entrave é a formação que nós, professores, recebemos de forma muito mais teórica do que prática. Aprendemos teoricamente que precisamos promover aprendizagens significativas, que precisamos contextualizar o ensino e que precisamos favorecer a formação de sentidos e conexões por parte do aluno. O que acontece, porém, é que ao encararmos a realidade, não sabemos traduzir na prática os ensinamentos teóricos. Precisamos urgentemente de uma formação verdadeiramente prático-teórico-prática.

 

Há alguns anos fiz uma especialização em psicopedagogia e observei que era um campo de estudo e trabalho pouco explorado no Brasil, haja vista o número reduzido de cursos dessa especialidade. Qual a realidade hoje do trabalho do psicopedagogo?

Estamos próximo de uma regulamentação da profissão, o que vai contribuir para um grande debate a respeito da prática desse profissional. Penso que em termos de alcance, a Psicopedagogia precisa se pautar muito mais pela potencialização da possibilidade do que pela ação terapêutica das impossibilidades. Uma Psicopedagogia institucional preventiva e apoiadora da prática docente teria um resultado bastante positivo em nossas escolas. Existem cidades que já instituíram a presença de um psicopedagogo em cada escola com esse papel. Hoje, porém, a realidade do trabalho do psicopedagogo ainda é muito mais clínica e restrita.

 

Revista Conhecimento Prático – Literatura Ed. 53

Adaptado do texto “Aprendizagem Significativa, uma Proposta de Ensino”

*Júlio Furtado é educador, escritor e palestrante. Autor do livro “Aprendizagem significativa modalidades de aprendizagem e o papel do professor” (Editora Mediação). Contatos pelo site: www.juliofurtado.com.br