Aprender a ler e a escrever: uma possibilidade de inclusão social

Por Sandra Bozza* | Foto: Shutterstock | Adaptação web Caroline Svitras

 

Gostaria de iniciar esse diálogo escrito congraçando os leitores à seguinte reflexão: enquanto leem este texto, bilhões de cidadãos da Terra estão em caráter de exclusão pelo fato de não saberem ler. São espoliados da herança científica e cultural construída no processo histórico de suprir necessidades cada vez mais complexas. Grande parte desse processo foi registrado e legado às sociedades regidas e organizadas pela língua escrita, possibilitando, assim, que esses mesmos conhecimentos sejam, a todo tempo, revisitados, rechaçados, ampliados e superados. Todos os analfabetos (funcionais e de fato) deixam de ter acesso à criação artística e científica, aos avanços e às descobertas, realizações e valores que pertencem a nossa comunidade planetária. É essa a principal verve de nossa reflexão.

 

Nesse espaço, não esperamos lançar luzes, ainda que sutis, sobre uma preocupação que pouco tem sido aventada socialmente: a função da linguagem na formação do sujeito e o papel da língua escrita no enriquecimento da linguagem de cada um. Isso já tem sido competentemente discutido em todas as instâncias em que esse assunto é relevante. O que aqui pretendemos é oxigenar, mais uma vez, a ideia dos danos que o analfabetismo funcional pode causar aos cidadãos e as consequências nefastas desses danos em todas as esferas do cotidiano humano.
Que a leitura amplia horizontes e que as informações conseguidas a partir dela podem resultar em conhecimentos todos já sabemos. O que talvez seja a necessidade mais premente nos dias atuais (quando tanto se tem comentado sobre a pobre proficiência em leitura que a escola brasileira tem produzido) é refletir sobre o seu papel no intelecto de cada ser.

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A escrita exige (e simultaneamente desenvolve) o funcionamento da função simbólica, que é determinante para o desenvolvimento da inteligência. Todavia, os não alfabetizados com competência não estarão suficientemente aptos para sobreviverem com plenitude em uma sociedade letrada. Um bom exemplo desse fenômeno pode ser observado na barreira que a saúde pública enfrenta no combate à diabetes. Segundo os especialistas, a maior dificuldade na prescrição e administração da insulina (e consequentemente no controle da doença) reside na precariedade da competência leitora que muitos pacientes possuem, pois não se trata apenas de não saber interpretar o que é prescrito na bula ou na receita médica, mas sim de ter competência para relativizar e estabelecer conexões entre seu estado de saúde e as necessidades da dose do medicamento e da ingestão de glicose que realizaram naquele dia. Ou seja, não estamos a falar apenas de não conseguir compreender uma ideia colocada através da língua escrita, mas, também, de um baixo desenvolvimento cognitivo que, muita vezes, não permite que o tratamento seja eficaz. Em outras palavras, o sujeito não competente na leitura pode sofrer de déficits cognitivos e ser prejudicado nas mais diversas ações e necessidades de sua vida.

 


Para um ramo da Psicologia do Desenvolvimento Humano, nomeadamente a sociocultural, a linguagem, sistema simbólico dos grupos humanos, representa um salto qualitativo na evolução da espécie. É ela quem fornece os conceitos, as formas de organização do real, a mediação entre o sujeito e o objeto do conhecimento. É por meio dela que as funções psicológicas superiores são socialmente formalizadas e culturalmente transmitidas. Conceber o desenvolvimento humano nessa perspectiva implica reflexões e ações por parte de quem é responsável pelo desenvolvimento das novas gerações, que contribuam efetivamente para que uma parcela cada vez maior de sujeitos que se apropriem adequadamente da escrita e aumentem seu potencial de desenvolvimento cognitivo.

 

A escrita (ao ser ensinada, apreendida ou utilizada) exige e amplia todas as capacidades superiores do cérebro, o que torna o sujeito que a domina um ser que pode transitar com maior competência pelos fenômenos cotidianos, culturais e, principalmente, pelos intelectuais.

 

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Aqueles que apostam na teoria da conspiração e atribuem a má qualidade do ensino ao poder, que faz questão de não produzir uma educação de qualidade, muitas vezes perdem a oportunidade de constatar, na prática, que o que ocorre com mais intensidade é o fato de muitos não perceberem que é possível produzir inteligência e que um dos caminhos para isso é a aprendizagem, que impulsiona o desenvolvimento de cada sujeito. E que, especificamente, a aquisição da língua escrita catapulta os processos cognitivos para planos cada vez mais sofisticados em função do exercício da função simbólica que esses processos exigem.

 

Quanto mais desenvolvida a competência leitora, maiores possibilidades de estabelecer relações com a realidade e com as informações materializadas na e pela escrita. Por essa razão, há que se refletir sobre as palavras escritas em 1981, por Mário Perini: “De tudo isso, creio que se pode tirar uma moral: o ato de compreender o que nos dizem, oral e por escrito, não se resume, nem de longe, ao uso correto e eficiente da língua. Portanto, para que haja comunicação é preciso que os interlocutores tenham em comum muito mais do que o conhecimento da mesma língua: é necessário que compartilhem grandes fatias de conhecimento do mundo em geral.
É isso que sugere o título deste texto: a inserção social a que nos referimos diz respeito ao conhecimento de mundo de uma forma ampla e irrestrita, que dificilmente se conseguiria não fosse o acesso e o poder de transitar pelo universo letrado que a escrita pode nos proporcionar.

 

 

*Sandra Bozza é Mestre em Ciências da Educação, Especialista em Literatura Infantil e Professora de Metodologia do Ensino da Língua Escrita.

Revista Conhecimento Prático – Literatura Ed.64