Aprenda a estimular sua criatividade a partir de exercícios mentais

Por Celeste Carneiro* | Fotos retiradas da Revista | Adaptação web Caroline Svitras

Quando a neurocientista Jill Taylor teve um derrame cerebral no hemisfério esquerdo, pôde experimentar sensações de euforia, de paz profunda, suspensão da noção de tempo e a sensação de união com o universo, que ela chamou de nirvana.

 

Algum tempo depois, ela conseguia escrever, mas era impossível fazer a leitura, por causa das regiões diferentes do cérebro onde essas funções se processam. Quando se escreve a mão, usa-se o hemisfério cerebral do lado oposto à mão que escreve, com exceção de alguns casos de canhotos e destros invertidos. Mas quando o texto é digitado costuma-se usar as duas mãos, estimulando os dois hemisférios cerebrais.

 

Com o hemisfério esquerdo afetado – responsável pelo processamento das informações em forma de linguagem, usa as palavras para classificar cada elemento do mundo ao nosso redor, abriga as células responsáveis por percebermos os limites de nosso corpo – aos poucos o hemisfério direito do cérebro, que entende o mundo pelo lado mais emocional, começou a prevalecer. O hemisfério direito pensa em forma de imagens, facilitando o processo da criação.

 

Após quatro anos do derrame, Jill Taylor começou a recobrar sua capacidade de fazer cálculos simples e um ano depois conseguia arrumar a louça no escorredor, pois a organização pede a capacidade de calcular.

 

Neuroplasticidade

Conhecendo o funcionamento do cérebro, ela sabia qual área estimular, recuperando-se assim, sem sequelas, após 8 anos de exercícios e vontade firme, tendo o propósito de repassar sua experiência e orientar os cuidadores e médicos que tratam de pacientes vítimas de AVC (Acidente Vascular Cerebral).

 

Sobre o misterioso Shakespeare

 

A neuroplasticidade, em que o cérebro altera suas conexões conforme o tipo de estímulo, tem ajudado bastante às vítimas de acidentes que danificam regiões do cérebro. Hoje sabe-se que é possível a neurogênese e que o hipocampo, a área do cérebro responsável por armazenar memórias recentes, ao ser estimulado, facilita a aprendizagem.

 

Reforçamos a necessidade de estimular as diversas áreas do encéfalo desde a infância, para ajudar os neurônios a fazerem novas conexões, e que as pessoas diversifiquem os campos de interesse, procurem se conhecer melhor para agir com maior precisão e acerto.

 

Estímulo da criatividade

Nascido em 1899 e falecido em 1986, Jorge Francisco Isidoro Luis Borges Acevedo foi um escritor, poeta, tradutor e crítico literário argentino.

Há quem imagine que, para pensarmos com originalidade, precisamos familiarizar-nos com as ideias alheias. Mas há gênios que se destacaram na sociedade, embora não procurassem tomar conhecimento das ideias alheias para estimular sua criatividade. Jorge Luís Borges não costumava ler jornais e Einstein dizia que “o dom da imaginação foi mais importante para mim do que a minha capacidade de assimilar conhecimentos”. Na maioria dos casos, a liberdade é essencial para que se produza algo.

 

Acostumado a viver num meio no qual o racionalismo e a vida material são supervalorizados, o homem moderno tem relevado outros componentes que fazem parte de sua estrutura psíquica, como as aspirações, a criatividade, a intuição, a atenção para o seu lado espiritual/exisencial, sonhador, assim como o investimento nas relações interpessoais, tão importantes quanto as relações meramente profissionais e comerciais.

 

Costumo dizer aos meus alunos que, assim como eles conseguiram descobrir que são capazes de se expressar bem pela arte, um outro instrutor poderá desvendar a capacidade para a Matemática, a Física, ou qualquer outra área do conhecimento.Como procuramos silenciar a mente e a voz enquanto realizamos as tarefas artísticas, provavelmente estimulamos também o ponto místico de que fala o neurocientista radicado nos Estados Unidos Vilayanu Ramachandran, e, ao mesmo tempo, revelamos o artista desconhecido que todos nós somos.

 

 

Arteterapia

A arte, segundo Jung, pode e deve ser usada como componente de “cura”, além da criatividade poder ter essa função em si mesma. Este processo natural se realiza por intermédio de símbolos presentes em todas as expressões artísticas, bem como nos sonhos e nas fantasias.

 

Nascido em 1951, Vilayanu Ramachandran é um neurocientista cujos principais trabalhos estão na área da neurologia comportamental e da psicofísica visual.

 

Os alunos relatam em seus trabalhos de conclusão do curso de Arteterapia que nos estágios realizados puderam obter os mesmos resultados que venho conseguindo. A mesma informação recebo de pessoas de vários lugares que aplicaram os exercícios contidos no livro e nos artigos publicados.

 

Que possamos silenciar a mente, encontrar um espaço confortável em nosso interior, a fim de acessarmos o universo de ideias, imagens, sons e belezas que possuímos e que nos aguardam, silenciosos, para se tornarem visíveis.

 

Revista Conhecimento Prático – Literatura Ed. 57

Adaptado do texto “Criatividade: A escrita num estado não usual de consciência”

*Celeste Carneiro é arteterapeuta junguiana, especialização em Psicologia Transpessoal, autora de livros, coordenadora e supervisora em cursos de Arteterapia.