Antônio Torres e a Literatura da Migração

Por Maurício Silva* | Fotos retiradas da revista | Adaptação web Caroline Svitras

Fato social presente na história brasileira desde os tempos mais remotos, a migração (migração/imigração/emigração) é apenas um dos inúmeros e intrincados capítulos de nossa realidade social desde tempos antigos. Nesse sentido, ondas migratórias de maior ou menor extensão e volume foram e ainda são verificadas em todo o território nacional, principalmente quando vinculadas aos vários ciclos econômicos que nossa história conheceu. Assim sendo, tanto os ciclos correspondentes à economia colonial (o ciclo do pau-brasil, da cana-de-açúcar e o da mineração) quanto aqueles que, majoritariamente, dominaram a economia pós-colonial até meados do século XX (como o da borracha e o do café) foram acompanhados de intensos fluxos migratórios.

A Literatura Brasileira, em especial na sua vertente que buscava incorporar com mais veemência os fatos do cotidiano, procurou, na medida do possível, retratar esteticamente diversas ocorrências histórico-sociais, entre as quais recebeu singular atenção a questão da migração, em especial a partir da década de 1930, quando se começou a cultivar o que, posteriormente, a crítica convencionou chamar de realismo social ou, mais especificamente, nas palavras de Alfredo Bosi, em sua História Concisa da Literatura Brasileira, “romance social-regional”, que trazia como marca distintiva a crítica às relações sociais e a representação de fatos históricos de relevância, entre eles a própria migração. Assim, autores como Graciliano Ramos, José Lins do Rego, Raquel de Queiroz, Jorge Amado e muitos outros se destacaram como figuras de relevo dentro do cenário literário nacional exatamente por conciliarem, em seus romances, alta qualidade estética e profundo questionamento da realidade brasileira contemporânea.

 

Atualmente, nosso universo literário apresenta uma heterogeneidade talvez pouco conhecida em épocas passadas, devido, de um lado, à multiplicidade e à complexidade que o atual contexto sociocultural parece apresentar e, de outro lado, à nossa relativa incapacidade de perceber as tendências literárias dominantes no presente num cenário artístico muito próximo. Daí uma profunda e contínua impressão de que a literatura contemporânea pouco tem de inovador e original, o que acaba por legitimar uma já propalada ideia de que a produção literária brasileira estaria passando por uma grave crise criativa.

 

Felizmente, esse fato é prontamente desmentido pela mais superficial análise de nossa atual produção artística: com poucas exceções, a atual literatura brasileira tem revelado obras de valor realmente elevado do ponto de vista estético, marcadas por uma estimulante originalidade. Nem mesmo o caráter crítico e social, característico de uma parcela significativa e relevante da produção de meados do século, falta ao vigoroso espectro literário que a presente realidade cultural apresenta: do romance histórico à narrativa intimista, passando pela expressão inovadora das vanguardas ou pela composição de cunho mais engajado, a literatura contemporânea apresenta um vasto conjunto de autores e obras verdadeiramente singulares, reflexo flagrante de uma situação cultural marcada pela intensa criatividade e pelo alto valor estético.

 

Tema caro a um grande número de romancistas, a migração não podia deixar de ser retratada em nossa atual produção literária, tendo talvez como principal representante um dos grandes nomes da literatura brasileira contemporânea: Antônio Torres. Ele mesmo migrante, saído da Bahia para São Paulo e o Rio de Janeiro, conheceu de perto a dura realidade de milhares de pessoas que partem de suas regiões para outras localidades, onde a esperança de sobrevivência pulsa um pouco mais intensamente. Romancista nato – buscando resgatar, inclusive, a não muito remota tendência social da literatura –, não pôde deixar de representar, nos seus livros, tão estimulante realidade. De fato, em Antônio Torres, a temática da migração surge, talvez como em nenhum outro romancista contemporâneo, em todo o seu vigor sugestivo e grandeza estética.

 

 

Crise de identidade

Como dissemos antes, a migração vai se desdobrar, nos romances de Antônio Torres, também enquanto crise de identidade, consequência mais imediata da dicotomia cidade-campo vivida pelas personagens. Com efeito, vítimas de um maçante processo de deslocamento e, talvez mais do que isso, de uma degradante condição de exilado, as personagens dos romances de Antônio Torres acabam, necessariamente, tornando-se pacientes de uma crise de identidade.

 

A condição intermediária característica do migrante – e, em última instância, da própria migração –, contribui sobremaneira para esta situação: sem participar efetivamente de uma realidade comprometida com o campo (passado), já que dele se desvinculou temporariamente, nem de uma realidade amparada na cidade (futuro), já que nela vive como um exilado, os protagonistas dessa saga do deslocamento são verdadeiros deserdados da terra, seres em transição, seja entre dois espaços distintos (campo/cidade), dois tempos diferentes (passado/futuro) ou mesmo duas personalidades diversas (campesino/citadino). Enfim, são personagens que, a rigor, carecem de uma identidade definida.

 

Essa crise de identidade, que pode encontrar uma correspondência na realidade concreta da migração, manifesta-se, explicita ou implicitamente, de várias maneiras: na revolta constante de De Jesus (sintomaticamente também chamado de Estrangeiro), em Os homens dos pés redondos, na solidão quase crônica de A., em Um cão uivando para a lua, ou, ainda, no elucidativo suicídio de Nelo, em Essa Terra. Todas essas personagens são migrantes que acabam por travar uma surda batalha com a nova realidade que se lhes depara, batalha essa que fatalmente desemboca numa crise existencial.

 

 

“O meu pai não veio e não virá jamais. Odeia todas as cidades, sem distinção de tamanho, situação geográfica, renda per capita ou densidade populacional. Diz que são invenções do diabo. Elas roubaram todos os seus filhos […]. Preferiu a solidão da caatinga ao amontoado da Construção Civil.”
Antônio Torres, em Balada da infância perdida.

 

O complexo de culpa do protagonista de Um cão uivando para a lua, por exemplo, tem muito a dizer sobre a crise vivida por esse retirante consciente de sua condição de ser indesejado: deixando para trás a família, culpando-se pelo que acredita ser uma desconsideração da sua parte, A. sente-se como um verdadeiro desenraizado na cidade que precisa conquistar; não bastasse isso, a própria desidentificação das personagens do romance, que são chamados apenas pela primeira letra de seus nomes (A., T.) já é um indício marcante desse fato. Porém, mais do que o complexo de culpa de A., é a contundente experiência do encontro de Marília com a cidade grande, em Carta ao Bispo, que nos irá revelar todo o caráter trágico da crise de identidade presente nos romances de Antônio Torres: “Eu, Marília, gelei quando bati com a cara na primeira porta.

 

Foi aí que descobri que eu simplesmente não existia. Fui uma invenção de um lugar, de um povo, de uma era, de mim mesmo. E nada disto existe”. Salta aos olhos o contraste brusco entre a afirmação deliberada e enfática da sua condição ontológica (“Eu, Marília…”) e posterior revelação de sua completa insignificância e anulação (“eu simplesmente não existia…”).

 

Independentemente do determinismo social que possa resultar do conflito vivido por personagens colocados num meio avesso a eles – como afirma Malcolm Silverman, em seu livro Moderna Ficção Brasileira –, o importante é notar a dimensão da crise advinda desse conflito, uma crise que vai funcionar como elemento condicionante da personalidade de cada personagem. Por isso mesmo talvez não haja nenhuma noção mais apropriada para entender essa crise do que a já citada ótica do estranhamento, a qual, no limite, vai acabar conformando todo o processo de descobrimento da cidade pelo migrante: tanto a angustiante constatação de De Jesus de que, afinal de contas, sua existência não tem importância alguma, em Os homens dos pés redondos, quanto a visão conturbada e comovente da cidade pelo narrador da Balada da infância perdida vão ser marcadas por um profundo efeito de estranhamento. E é nas palavras substanciais do protagonista de Um cão uivando para a lua – para quem “as vozes da rua são vozes de outro planeta” – que vamos perceber o primeiro e mais flagrante indício desse efeito, a se perpetuar por todo o conjunto de sua produção literária.

 

Adaptado do texto “Antônio Torres e a Literatura da Migração”

Revista Conhecimento Prático – Literatura Ed. 54