Como criar um texto literário digno de inscrever-se nos quadros do gênero lírico

Confundir lirismo com explosão de sentimentos é uma crença antiga e difícil de corrigir. Cabe ao ensino da literatura estudar racionalmente os processos poéticos que fazem de um poema um legítimo poema lírico

Texto Roberto Sarmento Lima* | Fotos Shutterstock


Vamos andar na linha, leitor? Quer mesmo? Então desista de certos vícios de compreensão adquiridos em geral na escola, esse lugar onde se deveria aprender bem uma lição e, ao contrário, e também não raro, se sai dela com a mais enganosa versão dos fatos ditos científicos. É uma pena que seja assim!

Normalmente, o leitor comum pensa que basta ao poeta pingar algumas lágrimas no poema que elabora – um fungado aqui, um engasgo ali – para que se obtenha um texto literário digno de inscrever-se nos quadros do gênero lírico. A irrupção de certa explosão de sentimento – aquele que espera a melhor hora para manifestar-se (e a produção de um poema, segundo essa crença, é um bom lugar para tal) – seria suficiente para que alguém pense de fato em compor. O importante, pensam ainda, é fazer despertar a emoção que existe, recôndita, em cada um de nós. E aí, nessas considerações, literatura vira um caso de confissão, como se a arte, seja ela qual for, pudesse valer por um consultório de psicologia, e até de psiquiatria, para dar sossego às almas atormentadas pela experimentação, súbita que seja, de amor ou ódio, compaixão ou indiferença.

Isso poderia fazer algum sentido em época de romantismo desbragado e por vezes mal compreendido. Sim, porque sempre se fez uma confusão enorme, até os dias de hoje, entre o que é ser romântico e ser alucinadamente emotivo. Não percebem que todo trabalho literário é fruto de intensa elaboração, maquinação, correção. Que o diga o poeta romântico francês Lamartine, em cujas gavetas de escrivaninha, depois que ele morreu, descobriram não sei quantas reescritas do mesmo poema, pondo em xeque, assim, o mito de que o poeta, num assalto, melhormente havido no meio da noite, é tomado por um impulso quase histérico e dana-se a escrever poemas, num só jato, sem revê-los, sem corrigi-los, só porque o “gênio” já nasce pronto e acabado. Ainda mais entre românticos, que entendiam o mundo e a arte que praticavam como seres definitivamente precários e fragmentados. Portanto, nada fica pronto e acabado.

É preciso desde já corrigir alguns enganos. O que mais sofre nas mãos de professor de literatura do ensino médio são assuntos ligados a poesia e seus corolários. Por causa de um filme infame que fez sucesso na década de 1980, o tal Sociedade dos Poetas Mortos, estrelado pelo falecido e bom ator Robin Williams, muitos professores de cursinhos e de escolas queriam, durante a aula de literatura, por meio de uma imitação barata, impor aos alunos a visão mágica e deturpada de que, para ser autêntico poeta, seria preciso ouvir a voz dos ventos e os sons que vêm da noite escura, macaqueando o que já andava bastante macaqueado, que é a tradição da poesia romântica com todas as suas imagens que caíram no gosto popular. Provocavam esses professores os alunos a sentir tal magia (mais ridículo do que isso impossível), fazendo-os segurar, com a lâmpada da sala de aula apagada, uma vela acesa e, tanto melhor para eles, respirar com quase sofreguidão, para que aspirassem ares e ouvissem a própria respiração, só para que viessem a ter uma ideia do que é esse poeta inspirado (Platão, certamente, chegaria a achar graça nisso, logo ele, que disse que o poeta era invadido por um espírito que o deixaria possesso e em transe). Para, a partir daí, chegar a uma definição de lirismo — lirismo abastardado — foi um pulo.

Às vezes me pergunto se algo assim acontece em escolas europeias, asiáticas… Que o filme promovesse essa confusão conceitual, vá lá! É entretenimento apenas; e aquele filme não teve, pelo menos, a pretensão de ser sério nem de discutir com racionalidade nenhuma questão estética. Só queria mesmo era divertir adolescentes. O ruim foi que professores levaram a sério o que não era para levar; e, pior, difundiram a bobagem em escala nacional, espalhando-se a papagaiada em tudo que era aula de literatura por este Brasil gigantesco e adormecido. E, se muitos desses alunos se sentiram estimulados a fazer o curso de letras depois de assistir ao filme, certamente se decepcionaram com o que lhes foi depois ensinado. Porque chegaram à conclusão – ao entrar em contato com Aristóteles e Antonio Candido, num arco de tempo que vai da Antiguidade grega aos nossos dias – de que lirismo não é nada disso que julgavam saber. Poesia lírica é coisa para quem entende, com precisão científica.

Imagine o leitor se ele depara, em uma aula, com estas duas estrofes iniciais do poema “Última Canção do Beco”, extraído da coletânea Lira dos Cinquent’anos, de Manuel Bandeira:

“Beco que cantei num dístico Vão demolir esta casa,
Cheio de elipses mentais,
Mas meu quarto vai ficar,
Beco das minhas tristezas, Não como forma imperfeita
Das minhas perplexidades Neste mundo de aparências:
(Mas também dos meus amores, Vai ficar na eternidade,
Dos meus beijos, dos meus sonhos), Com seus livros, com seus quadros,
Adeus para nunca mais!
Intacto, suspenso no ar!”

 

O eu lírico apresenta uma entidade real: o beco, uma casa, um quarto. Não são necessariamente um beco e uma casa conhecidos do poeta, isso não vem ao caso, como também podem ser, tendo sido evocadas por Manuel Bandeira num momento de nostalgia, querendo lembrar algo que lhe é muito caro: uma cena da sua vida que ele encara com certo carinho e afeto. Até aí, tudo bem. Não há precisamente nada de lírico nas evocações e lembranças. Eu posso me lembrar de um tempo que não volta mais e chorar de saudade, mas não é isso que me credencia a ser poeta. O que importa é o que se vai fazer com esse material, real ou fictício. Também não interessa descobrir se o fato se deu ou não para poder apreciar o texto e ver se, de fato, ele é um poema lírico.

Interessam-me, isso sim, os processos de linguagem que geram e contornam essa lembrança. Lembrança é algo vago e perdido se ela não vai transformar-se em texto. Até lá o percurso pode ser longo ou breve; o texto corporifica e congela a imagem evocada, dá-lhe sustentação e vida própria. Pelo que diz o verso inicial, esse beco já foi cantado antes (“Beco que cantei num dístico”), daí o emprego da forma verbal no pretérito perfeito. Sim, esse poema, reduzido a um dístico, é o “Poema do Beco”, da coletânea Estrela da Manhã, quem não se lembra dele?

“Que importa a paisagem, a Glória,
a baía, a linha do horizonte?
– O que importa é o beco.”
O que parecia ser realidade própria é tão somente realidade de papel e tinta, que é também realidade própria, sem, porém, a concretude geográfica de um endereço buscado e encontrado no Rio de Janeiro, no bairro da Glória. Mas esse beco vai, aos poucos, deixando de ser um ponto localizável nessa cidade e se confunde com a afetividade construída por esse sujeito lírico (“Beco das minhas tristezas, / Das minhas perplexidades”). Daí, o beco evolui para virar testemunha “dos meus amores, dos meus beijos, dos meus sonhos”, que o eu lírico (não exatamente Manuel Bandeira, fique bem claro isso) faz, sorrateiramente, ocultar-se no recôndito da sua memória, como se não quisesse banalizá-lo aos olhos dos intrometidos. Por isso, ao falar de “amores”, “beijos” e “sonhos”, coloca tais menções entre parênteses, cujo uso parece servir para demonstrar que se está enterrando para mais fundo da capacidade de ver e sonhar aquilo que só o beco testemunhou. Como se vê, o beco, objetivamente falando, de paisagem passa a testemunha, por um processo de animização; e, de testemunha, transforma-se na própria vivência amorosa de tais lembranças. Esse processo que começa tímido – o beco é, primeiro que tudo, um objeto separado do sujeito, é algo que se avista na paisagem carioca – caminha aos poucos na direção de sua completa desaparição como realidade concreta e objetiva. O beco esfuma-se, dilui-se. Transforma-se em sentimento, lembrança que desperta a mais sincera emoção. Pois o poeta, mesmo sendo um fingidor, como disse o outro, é sincero. E é sincero porque se entrega ao que diz; e, ao entregar-se, desfigura o real, a ponto de esse real desmanchar-se, perder sua concretude, perder sua alteridade e fundir-se, por fim, ao sujeito, à emoção que o poema desencadeia.

Note o leitor que, para isso, não há lágrimas nem choramingação. O texto é escrito de forma pensada, por meios bastante racionais. O desequilíbrio é aparente, porque é produto de um ato racional de compor. Na estrofe seguinte, o eu lírico informa que “vão demolir esta casa”. De súbito, a casa, perdida no beco, avulta em sua inteireza material; e tudo,então, parece retornar à situação em que sujeito e objeto estão frente a frente, sem confundir-se. Acontece que, logo mais, sem mais delongas, se fica sabendo que, mesmo demolida a casa, o “quarto vai ficar, não como forma imperfeita”. Sim, a demolição da casa não reduzirá, ao menos, o quarto a destroços, montes de tijolos partidos e jogados no chão, mas “vai ficar na eternidade, com seus livros, com seus quadros, intacto, suspenso no ar”.

O lirismo advém dessa imagem em que tudo, depois de tudo, fica “intacto, suspenso no ar”. Paralisado, sem maiores vibrações, a não ser as que vêm da voz que diz isso. Onde exatamente? Primeiro, na lembrança do poeta; segundo, no poema, que sobreviverá – e realmente sobreviveu – a Manuel Bandeira. Sendo assim, para que apagar as luzes da sala de aula e segurar, no escurinho, uma vela fumegante? Com esse artifício típico de ópera-bufa o leitor sentirá melhor o poema? Compreenderá melhor o processo de fusão dos polos sujeito e objeto, que é uma exigência lírica de composição? Possivelmente, com tanto calor nas mãos, não se compreenderá nada disso; antes, se pedirá que voltem a acender as lâmpadas da sala para que as velas sejam apagadas. O teatrinho acaba aí.

A LIÇÃO QUE VEM DO SERTÃO
Como o lirismo é uma condição do texto e não uma etiqueta que se afixe no produto dito poético, nem, muito menos ainda, se restringe ao uso de uma linguagem aparentemente mais afetiva – o perigo está em se deixar levar por essa aparência de adoçamento da expressão verbal –, pode haver lirismo na prosa também, não só no verso; e, para detectar isso, é necessário ter segurança quanto ao discernimento do processo lírico instalado (ou não) no texto. Costuma-se dizer por aí que um trecho de romance ou conto é lírico só porque, nele, foram despejadas algumas metáforas, algumas sinestesias, algumas animizações e por aí se vai. Nada disso! É preciso ver se persiste no texto narrativo a fusão do sujeito e do objeto, aniquilando a distância entre quem vê e o que está diante de quem vê, o seu observador. Se as fronteiras entre um e outro se apagarem, é sinal de que o objeto deixou de ser um objeto válido em si mesmo e se entregou docilmente à fascinação exercida pelo sujeito, de modo a tudo tornar-se mundo subjetivo, ampliadamente subjetivo, fazendo a realidade exterior – vista, então, como mero pretexto para a exaltação desse eu – deixar de importar como tal.

Em um trecho narrativo, que ofereço agora para verificação, extraído do romance Vidas Secas, de Graciliano Ramos, pergunta-se: haveria lirismo nessa passagem?

“Na planície avermelhada os juazeiros alargavam duas manchas verdes. Os infelizes tinham caminhado o dia inteiro, estavam cansados e famintos. Ordinariamente, andavam pouco, mas como haviam repousado bastante na areia do rio seco, a viagem progredira bem três léguas. Fazia horas que procuravam uma sombra. A folhagem dos juazeiros apareceu longe, através dos galhos pelados da catinga rala.
(…)
Entrava dia e saía dia. As noites cobriam a terra de chofre. A tampa anilada baixava, escurecia, quebrada apenas pelas vermelhidões do poente.
(…)
A Lua crescia, a sombra leitosa crescia, as estrelas foram esmorecendo naquela brancura que enchia a noite. Uma, duas, três, agora havia poucas estrelas no céu. Ali perto a nuvem escurecia o morro.”

Se o leitor observou bem e acha que não se enganou ao ler, deve ter percebido que os momentos do texto acima transcrito capazes de suscitar certo enleio e admiração do narrador em face do real são aqueles em que as personagens expressam, mesmo sem falar ou narrar, aquele sentimento de entrega dócil a esse real, que os leva a comover-se. Fabiano, cansado de tanto andar na terra dura e esturricada, avista, de longe, “duas manchas verdes”. Isso foi o que ele viu. Mas essas manchas eram “os juazeiros” que faziam contraste cromático com a “planície avermelhada”. Cansados, famintos, tais retirantes, à procura de uma sombra, veem apenas a cor do juazeiro, não o próprio juazeiro. O suor que corre pelo rosto, pelos olhos, empapando-os, obscurece e perturba a visão, o que lhes pareceu estar diante de “manchas verdes”. Não se trata, pois, de metáfora ou traço impressionista de estilo. Logo mais adiante, o narrador justifica o emprego da imagem, nomeando-a. Não são manchas; são folhagens, na verdade: “A folhagem dos juazeiros apareceu longe, através dos galhos pelados da catinga rala”. Se se vê de longe, nada pode mesmo estar claro e definido, ainda mais com o cansaço e a fome batendo à porta.

Já para uma criança, que tende a ver tudo de acordo com o imaginário infantil, em imagens achatadas, bidimensionais, “as noites cobriam a terra”. E cobriam como se elas fossem uma “tampa anilada” de uma panela que comprimisse a paisagem da seca, caindo sobre ela, fechando e escurecendo tudo o mais. Alguém, diante dessas visões, diria: este é o momento lírico do texto. Graciliano Ramos caiu no lirismo, afastando-se, por instantes, do seu compromisso com a narrativa. E se eu disser que aí não há lirismo nenhum? Pense bem, leitor. E lirismo é a mesma coisa que derramamento de metáforas, ilusionismo, visão feérica do real? Confundir-se-ia o lirismo com sugestões e impressões que a linguagem cria para falar, sorrateiramente, do real? Ora, o real, mesmo assim transfigurado, permanece real. Juazeiro é juazeiro; noite é noite. Tudo continua no mesmo lugar, como sempre foi, com ou sem metáforas. O objeto é,  decididamente, o mesmo objeto; as nuanças é que se modificam ao ser tal objeto apreendido pelo sujeito. E o sujeito, que capta esse objeto, é sujeito, sem tirar nem pôr. Só se pode dizer que há lirismo quando o objeto perde por completo a sua objetividade – só quando, e porque, o sujeito o sujeitou a si, à sua visão privilegiada das coisas, fazendo o real esgarçar-se e simbolizar um estado de espírito, tal como aconteceu com o beco e a casa que ia ser demolida no poema de Manuel Bandeira. Na “Última Canção do Beco”, sim, o beco e a casa perderam sua objetividade, a tal ponto que, mesmo demolida a casa, o quarto vai ficar, intacto, suspenso no ar, independentemente das exigências da realidade, cuja materialidade se desmancha sob a voz do eu lírico. Em Graciliano Ramos, não: a Lua continua Lua; sua sombra leitosa, que se esparrama sobre a catinga rala feito um manto mole e sedoso, é a mesma sombra da mesma luz lunar; não é nome que se dê a um suposto matiz psicológico do observador, ainda que este, estupefato diante de tanta beleza, tenha ficado momentaneamente paralisado ao deparar com a originalidade da paisagem daquele ambiente. Mas ninguém saiu de si, nem foi capaz de operar nova realidade; e a realidade observada também não deixou de ser o que sempre foi e é.

É bom de vez em quando dar uma passada por reflexões sobre a poesia, antes de ir dar uma aula ou escrever um artigo sobre o lirismo, para não se equivocar. Sei que o leitor se admira ao ler, e isso é bom, é excelente estímulo para prosseguir na leitura. Mas não se pode dizer, à toa e sem pudor, que o lirismo está onde ele não está, ainda que as impressões de leitor pareçam querer dizer outra coisa. Aqui, neste terreno de estudos, valem também a comprovação, o raciocínio, a meditação. Arte existe e encanta a quem se envolve com ela; isso tem de continuar existindo na vida que levamos. Mas há uma ciência que controla e disciplina os disparates que a emoção provoca em nós de vez em quando. Que os olhos, como sugere Machado de Assis no fim do conto “A Causa Secreta”, vejam o espetáculo e o saboreiem é algo que se deve cultivar. Mas sem pressa, com calma, refletindo sobre o que veem a cada fase desse processo, a qual deve ser “longa, muito longa, deliciosamente longa”.

*Roberto Sarmento Lima é doutor em Letras e professor da Universidade Federal de Alagoas. contato: sarmentorob@uol.com.br
Revista Conhecimento prático Literatura | Ed. 66

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