Análise de O Cortiço para o Enem

A obra de Aluísio Azevedo propõe o entendimento da formação da identidade brasileira a partir de um caráter cientificista e da discussão de questões sociais

Por Caroline Svitras | Fotos: Reprodução Internet/Wikipedia

Nas últimas semanas, demos início a uma série de matérias que têm o objetivo de auxiliar o estudante a estudar para as provas do Enem e vestibulares. Já analisamos as obras Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis; Iracema, por José de Alencar; e Vidas Secas, escrita por Graciliano Ramos.

Desta vez, o livro a ser dissecado será o clássico O Cortiço, idealizado por Aluísio Azevedo. Em primeiro lugar, para compreender o escrito, devemos ter em mente de que ele foi produzido no período em que a Europa passava pela Segunda Revolução Industrial. Conforme nos conta o professor José Alexandre Romagnolo, do Colégio Marista Arquidiocesano de São Paulo, nessa época “a eletricidade passou a ser parte integrante no dia a dia das pessoas[…] e a atividade industrial se desenvolveu”.

Segundo ele, “a ciência acompanhou esse desenvolvimento por descobertas nas áreas da Química e da Biologia. Isso deu origem ao cientificismo: acreditar que a ciência seria o método mais confiável de se conhecer a realidade”. Com isso, algumas correntes cientificistas, como o Determinismo, o Socialismo, o Positivismo e o Evolucionismo surgiram e expandiram sua influência também para o campo da Literatura. O Cortiço se encaixa no estilo que ficou conhecido como Realismo naturalista, advindo da corrente Naturalista, a qual “entende os comportamentos humanos por meio das leis cientificistas para explicação da Natureza”, conforme Romagnolo ensina.

 

Prepare-se para o vestibular: Memórias Póstumas de Brás Cubas dissecado

 

Segundo o professor, algumas características do Naturalismo presentes na obra de Aluísio Azevedo são:

  • “O escritor assemelha-se a um cientista: o romance seria uma espécie de laboratório onde aquelas teorias científicas poderiam ser confirmadas. Por isso, a obra poder ser classificada como romance de tese.
  • Apresenta-se um “estilo baixo levado a sério”: o narrador naturalista tende a ser objetivo, como um cientista. Apresenta cenas de maneira fria e direta.
  • Personagens são zoomorfizadas, ou animalizadas, ou bestializadas: o ser humano apresentado como um bicho, que atende a satisfação de desejos instintivos: fome e sexo.
  • Apresentam-se patologias sociais.
  • As personagens são psicologicamente simples.
  • Ênfase no coletivo: a coletividade influencia o comportamento de pessoas de diferentes origens e características.
  • Valorização dos aspectos sensoriais da linguagem: apresentação de sensações tácteis, sonoras e olfativas.
  • Determinismo.”

Para auxilar o aluno a entender melhor como essas características se encaixam no contexto da obra, Romagnolo separou um trecho para análise, no qual a maioria delas é explícita. Vejamos:

 

“Daí a pouco, em volta das bicas era um zum-zum crescente; uma aglomeração tumultuosa de machos e fêmeas.
Uns, após outros, lavavam a cara, incomodamente, debaixo do fio de água que escorria da altura de uns cinco palmos. O chão inundava-se. As mulheres precisavam já prender as saias entre as coxas para não as molhar; via-se-lhes a tostada nudez dos braços e do pescoço, que elas despiam, suspendendo o cabelo todo para o alto do casco; os homens, esses não se preocupavam em não molhar o pelo, ao contrário metiam a cabeça bem debaixo da água e esfregavam com força as ventas e as barbas, fossando e fungando contra as palmas da mão. As portas das latrinas não descansavam, era um abrir e fechar de cada instante, um entrar e sair sem tréguas. Não se demoravam lá dentro e vinham ainda amarrando as calças ou as saias; as crianças não se davam ao trabalho de lá ir, despachavam-se ali mesmo, no capinzal dos fundos, por detrás da estalagem ou no recanto das hortas.

O rumor crescia, condensando-se; o zum-zum de todos os dias acentuava-se; já se não destacavam vozes dispersas, mas um só ruído compacto que enchia todo o cortiço. Começavam a fazer compras na venda; ensarilhavam-se discussões e resingas; ouviam-se gargalhadas e pragas; já se não falava, gritava-se. Sentia-se naquela fermentação sanguínea, naquela gula viçosa de plantas rasteiras que mergulham os pés vigorosos na lama preta e nutriente da vida, o prazer animal de existir, a triunfante satisfação de respirar sobre a terra.”

AZEVEDO, Aluísio. O cortiço. São Paulo: Escala, 2012. p. 31.

Compreendendo Vidas Secas

Ênfase no coletivo 

“[…]uma aglomeração tumultuosa” (linha 1)

“As portas das latrinas não descansavam, era um abrir e fechar de cada instante, um entrar e sair sem tréguas. ” (linhas 6-7)

“O rumor crescia[…],um só ruído compacto que enchia todo o cortiço. Começavam a fazer compras na venda; ensarilhavam-se discussões e resingas; ouviam-se gargalhadas e pragas; já se não falava, gritava-se.” (linhas 10-12)

 

Zoomorfismo

“[…]uma aglomeração tumultuosa de machos e fêmeas” (linha 1)

“[…]suspendendo o cabelo todo para o alto do casco; os homens, esses não se preocupavam em não molhar o pelo, ao contrário metiam a cabeça bem debaixo da água e esfregavam com força as ventas e as barbas, fossando e fungando contra as palmas da mão.” (linhas 5-7)

“[…]naquela gula viçosa de plantas rasteiras que mergulham os pés vigorosos na lama preta e nutriente da vida, o prazer animal de existir[…]” (linhas 13-14)

 

Estética do feio

“Uns, após outros, lavavam a cara, incomodamente, debaixo do fio de água que escorria da altura de uns cinco palmos. O chão inundava-se.” (linhas  2-3)

“Não se demoravam lá dentro e vinham ainda amarrando as calças ou as saias; as crianças não se davam ao trabalho de lá ir, despachavam-se ali mesmo, no capinzal dos fundos, por detrás da estalagem ou no recanto das hortas.” (linhas 7-9)

 

Aspectos sensoriais da linguagem

“[…] em volta das bicas era um zum-zum crescente.” (linha 1)

“O rumor crescia, condensando-se; o zum-zum […]” (linha 10)

 

Análise de Iracema para o Enem

 

Por fim, o professor faz um pequeno resumo para que os alunos compreendam melhor o livro e tirem de letra as questões do Enem sobre O Cortiço: “A obra foi publicada em 1890 para retratar a formação do brasileiro, num dado momento histórico, e para discutir determinadas questões sociais. Para tanto, o autor valeu-se de imigrantes portugueses, escravos e seus descendentes mestiços, sujeitos às influências físicas do espaço do Rio de Janeiro e do clima tropical. Valeu-se também da imposição e desmandos de classes sociais mais fortes esmagando mais fracas, no ambiente de degradação de um cortiço. Aluísio de Azevedo oferece a nós um retrato do Brasil, no final do século XIX , que expõe que a miséria material e humana não são naturais, mas fabricadas. São frutos inequívocos de uma sociedade organizada de maneira equivocada.”

 

*José Alexandre Romagnolo é professor de Análise Linguística e de Redação do Colégio Marista Arquidiocesano de São Paulo.