Álvares de Azevedo

Em uma cidade insípida, entre importantes pensadores do século 19, o jovem Álvares de Azevedo soube, como ninguém, escrever belos e tristes versos, principalmente com os temas Amor e Morte

Por Luciana Fátima* | Foto: Reprodução Internet | Adaptação web Caroline Svitras

Manuel Antonio Álvares de Azevedo nasceu em São Paulo, no dia 12 de setembro de 1851. Mas, por necessidades de trabalho de seu pai – que viria a exercer a profissão de juiz na Corte Imperial –, mudou-se para o Rio de Janeiro, passando ali a infância e o início da adolescência. Estudou nas melhores instituições de ensino e usufruiu, até quando pôde, das regalias existentes em uma capital que tentava alcançar a grandeza das cidades europeias. E eis que a grande hora de ingressar no ensino superior chegou. Naquele momento, só havia duas faculdades de Direito no Brasil e “Maneco” – como era carinhosamente chamado pela família – foi enviado para a Academia de Ciências Jurídicas, em São Paulo.

 

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Conhecida como Burgo dos Estudantes, a São Paulo do século 19 – por volta de 1848, quando Maneco começou a estudar na Academia – era em tudo diferente do Rio de Janeiro: uma cidadezinha, com cerca de vinte mil habitantes e onde um dos únicos entretenimentos era o Baile da Concórdia, descrito pelo poeta de maneira bastante amarga, em carta para sua mãe:

“Enquanto no Rio reluzem esses bailes à mil e uma noites, com toda a sua magia de fulgências e luzes, para aqui arrasta-se o narcótico e único baile da “Concórdia Paulista”. Nunca vi lugar tão insípido, como hoje está São Paulo. Nunca vi coisa mais tediosa e mais inspiradora de spleen. Se fosse eu só que pensasse, dir-se-ia que seria moléstia – mas todos pensam assim…”

 

Sofriam os moços mais abastados, acostumados às belezas reluzentes, que vinham estudar em São Paulo, deixando para trás o amor filial e fraterno. E Álvares de Azevedo não era exceção. A solidão do adolescente transbordava nas cartas e nos versos que enchiam folhas e mais folhas, entre o estudo de Direito Natural e o estudo de Direito das Gentes. A dor da ausência das queridas mãe e irmã, distantes lá no Rio de Janeiro, aumentava seu desprezo pela cidade; mas, isso acabaria levando-o a escrever o drama Macário, no qual ele criou o que Antonio Candido (CANDIDO, Antonio. A educação pela noite e outros ensaios. 2003, p.12-13) chama de “invenção literária da cidade de São Paulo”:

“A invenção literária da cidade de São Paulo, que Álvares de Azevedo instaurou como espaço ficcional. Com isso, deu corpo a um processo em curso entre os moços estudantes, enclausurados num lugar sem interesse, onde a sua energia transbordava tanto na boemia e na rebeldia estética quanto na imitação de Byron. O noturno aveludado e acre do Macário suscitou a noite paulistana como tema, caracterizado pelo mistério, o vício, a sedução do marginal, a inquietude e todos os abismos da personalidade. Tema que fascinou gerações numa dimensão quase mitológica.”

 


Há uma teoria de que as duas obras em prosa de Álvares de Azevedo – a peça “Macário” e a novela gótica “Noite na Taverna”– encaixam-se, formando uma única sequência de textos.

Era o auge da segunda fase do Romantismo, um período também chamado Ultrarromântico. Não havia livrarias. A despeito da distância, os grandes clássicos da Literatura chegavam ao Brasil de navio, importados da Europa, e os estudantes liam à exaustão autores como Byron, Musset, Keats, Shelley, Goethe, Wordsworth, Coleridge, Shakespeare, Victor Hugo, entre outros. E, inspirados por eles, os rapazes ansiavam por escrever e publicar seus poemas nos periódicos que circulavam pelos corredores da Academia e nas repúblicas estudantis. Era uma época de efervescência literária; um período em que eles ainda podiam se permitir tais aventuras de escrita. Dentro de pouco tempo, teriam de arcar com a grande responsabilidade de serem homens sérios; deveriam constituir família e ocupar seus lugares na história do país.

 

Contudo, alguns desses moços não chegariam a seguir a carreira jurídica, nem mesmo a de escritor. Álvares de Azevedo, nessa época, apesar de esporadicamente passar férias com a família no Rio de Janeiro, viveu os quatro anos de sua fase literária em São Paulo, tendo produzido sua obra na cidade, entre 1848 e 1851. Muitas são as teorias acerca desse misterioso período da vida do jovem. Acredita-se que ele fazia parte de sociedades secretas, que passava as noites na boemia, bebendo e fumando, em meio às orgias preparadas pelos colegas estudantes. Mas como, então, encontraria tempo para ser um dos mais brilhantes alunos da Academia, tendo sido nomeado orador de importantes discursos acadêmicos? A alta qualidade dos textos e o apuramento crítico literário do que Azevedo escrevia são inegáveis. Sua alma sensível também produzia, entre outras coisas, versos sobre a busca obsessiva de um amor impossível. Sua amante era aquela idealizada pelos Românticos, a musa ou entidade que não pertencia a este mundo. Ele não almejava uma mulher real; desejava um ser onírico, transcendental, etéreo; portanto, inalcançável. E o jovem morreu sem encontrar seu amor, como atestam os versos do poema 12 de setembro – data de seu aniversário.

 

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E aqui, talvez, repouse parte das respostas para os questionamentos iniciais. Todo ser, cedo ou tarde, enfrenta a solidão, o deslocamento; sente-se diferente no mundo, seja ele qual for. As almas solitárias compreendem a solidão do poeta. Ouvem os ecos de sua própria dor nos versos escritos por ele, há tanto tempo. Mudam-se as cidades, mudam-se os tempos; mas os sentimentos não mudam. Os anseios e a eterna busca por um amor perfeito estão sempre presentes, por mais moderna ou líquida que seja a sociedade. A mensagem lírica da busca de Álvares de Azevedo reverbera ainda em tantos livros, filmes e seriados. Daí os amantes da poesia ultrarromântica reproduzirem, massivamente, seus poemas até os dias atuais.

 

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Quando embarcou para o Rio de Janeiro no que seriam as últimas férias de sua vida, Álvares de Azevedo levava na bagagem um pressentimento de morte. Ele teria dito ao primo Jacy Monteiro a frase que a todos impressionou:

“Tenho vontade de não voltar este ano para São Paulo. Tenho um pressentimento de que morro…”

E, antes disso, escrevera ao amigo Luís Antonio uma carta com o seguinte trecho:

“Todos aqui me estranham este ano o taciturno da vida e o peso da distração que me assombra. O meu viver solitário, fechado só no meu quarto, o mais das vezes lendo sem ler, escrevendo sem ver o que escrevo, cismando sem saber o que cismo.”

 

A morte – outra musa dele e dos poetas românticos – já era velha conhecida de Azevedo. Ela sempre esteve presente, tanto em sua vida quanto em sua obra. E o primeiro encontro deu-se quando ele era ainda criança, por volta dos quatro anos de idade, ao perder o irmão recém-nascido e, mais tarde, quando se deparou com a morte dos amigos acadêmicos. Os reflexos daquela perda primeira foram transformados em comovente poesia, conforme trecho de “Anjinho”.

 

 

A busca obsessiva por temas mórbidos e sombrios, e um desesperado desejo de amor, resultou no par mais adorado do ultrarromantismo.

Em meio a essas tragédias, a Morte surge cercada de mistério e deixa curioso o jovem que passa, então, a idealizá-la, bem como fazia com suas musas inalcançáveis. A Morte passa a ser a única maneira de o poeta – ou de seu eu-lírico – elevar-se ao mesmo plano de seu ideal feminino, uma vez que morto ele estaria desprovido de sua condição física e material, estando assim pronto para lançar-se ao infinito, em busca de sua amada etérea. No poema “Saudades”, Maneco desnuda sua alma, confessando a tormenta que lhe aflige.

E na idade do amor envelheci!
[…]
Eu sonhei tanto amor, tantas venturas…
[…]
Vinte anos!… não vivi um só momento!
Pálida sombra dos amores santos,
Passa, quando eu morrer, no meu jazigo;
Ajoelha-te ao luar e canta um pouco,
E lá na morte eu sonharei contigo!

A morte é vista como o caminho mais curto para que ele obtenha a atenção da amada. Azevedo conseguiu, como nenhum outro, unir o par romântico “Amor-Morte” em seus versos, de tal maneira que desenvolveu uma linguagem própria, um estilo particular de produzir sua poesia. Essa, entre outras coisas, fez com que sua literatura sobrevivesse até os dias de hoje, trazendo enorme satisfação a quem se dispõe a deleitar-se sob os acordes de sua ingênua lira. Como ele próprio escreveu, em seu famoso prefácio à segunda parte da Lira dos Vinte Anos, “O que pode [o poeta] senão fazer o poema dos amores da vida real?”

 

Para ler o texto na íntegra compre a sua revista Conhecimento Prático – Literatura Ed. 69

*Luciana Fátima é escritora, fotógrafa, professora e tradutora. Especialista na vida e na obra do poeta, é autora dos livros “Delírio, Poesia e Morte: a solidão de Álvares de Azevedo” e “Álvares de Azevedo: o poeta que não conheceu o amor foi noivo da morte”.

Adaptado do texto “Álvares de Azevedo: O expoente do Romantismo Brasileiro”

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