Alice no País das Maravilhas

A partir de uma leitura mais profunda da obra Alice no País das Maravilhas, é possível identificar elementos sociais marcantes da Inglaterra Vitoriana.

Por Edmilson José de Sá* e Maria Isabel Correia** | Fotos: Reprodução Internet| Adaptação web Caroline Svitras

 

Charles Lutwidge Dodgson – o professor de matemática inglês que ficou conhecido no mundo pelo nome de Lewis Carroll – é o criador de Alice no País das Maravilhas e Alice Através do Espelho e O Que Ela Encontrou Lá, obras das mais conhecidas na literatura inglesa e mundial. O que se sabe de Carroll é que ele era tão tímido que podia ficar horas numa reunião social sem nada contribuir para a conversa, mas a timidez e a gagueira “desapareciam suave e subitamente” quando se via a sós com uma criança. Era um solteirão cheio de manias, empertigado, rabugento, excêntrico e gentil, que levou uma vida sem sexo, sem grandes acontecimentos, mas feliz.

 

Mais biograficamente falando, Dogson nasceu em 1832 na pequena Daresbury, província de Cheshire (do mesmo lugar que veio o Gato de seus livros), próxima a Manchester, na Inglaterra. Ele era o primogênito de sua família que tinha muitas posses e, de acordo com biógrafos do autor, “divertia seus sete irmãos com jogos e passatempos criados por ele mesmo”.

 

Adaptando o conto de Malévola

 

 

Sabe-se que foram feitas diversas análises acerca das obras de Lewis Carroll – sejam elas de cunho psicológico ou sociológico – as quais até hoje tendem a gerar diversos questionamentos sobre o que elas realmente representam. O autor português Pedro Braga indaga: Lewis Carroll tinha em mente, no ponto de partida, escrever somente para o público infanto-juvenil? Ou teria ele uma visão mais ampla dos destinatários de suas histórias?

 

 

Martin Gardner foi um matemático e escritor americano que adquiriu notoriedade através de seu livro The Annotated Alice, que analisa a magnus opera Alice’s Adventures in Wonderland, de Lewis Carroll, de quem era fã.

Para Martin Gardner, “Carroll era um exímio contador de histórias, e devemos atribuir-lhe a capacidade de fazer uma descoberta semelhante”. Desta forma, pode-se pensar que suas obras voltadas para a matemática não fizeram tanto sucesso quanto as obras de fantasia nonsense.

 

Percebe-se que Carroll nem sempre era levado a sério pela sociedade de sua época, já que, até hoje, suas atribuições vão de “excêntrico” a “matemático idiota”. Contudo, o criador de Alice relatava textos contra-atacando os diversos rótulos que lhe eram/são dados quando afirma que “preservamos nossa sanidade rindo dos absurdos superficiais da vida, mas o riso se transforma em amargura e escárnio se dirigido para as irracionalidades mais profundas do mal e da morte”. Ou seja, parecia que Lewis Carroll não dava importância a qualquer coisa que dissessem ou pensassem de sua pessoa, já que sua filosofia de vida era realmente diferente das demais.

 

As diversas análises psicológicas de suas obras até hoje “quebram as cabeças”, principalmente quando analisam determinadas cenas de seus livros de Alice, como por exemplo: a cena em que Alice se apodera da ponta do lápis do Rei Branco e passa a escrever por ele. Em cinco minutos é possível criar seis interpretações diferentes para isso. Carroll tinha interesse em fenômenos psíquicos e escrita automática, e não convém descartar a hipótese de que tenha sido só por acidente que o lápis nessa cena tinha aquele formato.

O Drácula na cultura popular

 

Nas histórias de Alice, é possível ver diversas charadas que Carroll propunha, mesmo que não tivessem significados e soluções reais. A mais famosa é a Charada do Chapeleiro, que diz “O que há de semelhante entre um corvo e uma escrivaninha?” encontrada em Alice no País das Maravilhas. Pois bem, o próprio Carroll relata uma das possíveis respostas para ela.

 

“Tenho recebido tantas perguntas sobre qual seria uma possível resposta para a charada do Chapeleiro que acho melhor deixar aqui registrado o que me parece ser uma resposta bastante apropriada. Porque o corvo, como a escrivaninha, pode produzir algumas notas, embora sejam muito chatas, e nunca pode ser virado de trás para frente! “

 

 

Outras análises dizem que a semelhança poderia ser de a escrivaninha ser preta, assim como o corvo, mas percebe-se que o pensamento de Carroll tinha, quem sabe, a sua “lógica matemática” já que o cruzamento entre a obra ficcional de Carroll e a obra dedicada a problemas lógicos e matemáticos é que trouxe, para a crítica do século XX, um fascínio particular. Em várias publicações, artigos científicos, histórias ficcionais, todas sob a alcunha de Carroll, predomina o gosto pelos paradoxos e pelo nonsense. O conjunto desses elementos de lógica e antilógica é que produz o especial sabor de que se reveste a sua obra.

 

A Alice de Lewis Carroll
Alice Liddell

Alice no País das Maravilhas, que teve uma verdadeira Alice como inspiração, nos faz pensar se Carroll apaixonou-se por Alice Liddell. Ora, se com isso se quer dizer que queria casar com ela, ou fazer amor com ela, não há ligeiro indício de tal coisa. Por outro lado, sua atitude em relação a ela era de um homem apaixonado.

 

Discutiu-se muito se Carroll apaixonou-se por Alice Liddell. Isso pode soar meio assustador nos dias de hoje, já que poderia ser um caso de pedofilia. Talvez Carroll, em vez de ter toda a fama de hoje, fosse até preso por suas manifestações de afeto pela menina Alice.

 

Os livros de Lewis Carroll não seguem o esquema dos contos de fada tradicionais. Nem das fábulas antigas. Não concluem com nenhuma moral, com nenhum ensinamento edificante. São histórias fantásticas, no sentido primeiro dessa palavra; há um encadeamento lógico dentro do que é permitido nos “contos maravilhosos”, uma lógica que foge à lógica do mundo real e que pontua o tempo e o espaço, os movimentos, as transformações, as transições. Uma lógica rigorosa. O lúdico transmuda-se no irônico. O sisudo, no hilário e no ridículo. O sistema é colocado em causa pela linguagem metafórica. Tudo é um jogo, seja de cartas, de croque ou de xadrez. Um jogo, como a própria via, sem dourar a pílula, sem edulcorar a realidade mesmo ficcional.

 

A verdade é que não existe nenhum fato que indique se Carroll tinha consciência de alguma coisa a não ser a mais pura inocência em suas atitudes com as meninas, nem sequer um sinal de “impropriedade em qualquer das ternas rememorações que dezenas delas escreveram a respeito dele mais tarde”.

J. R. R. Tolkien e a Primeira Guerra

 

 

Segundo se sabe, a literatura tem mencionado que Alice Liddell nasceu em 4 de maio de 1852, era a filha do meio e que Dogson (Carroll) era um dos tutores da menina, que ele a conheceu quando ela tinha quatro anos e que sua mãe não se agradava muito de Carroll, apesar de ele ter sido uma figura masculina muito importante para a pequena Alice.

 

Vladimir Nabokov | Foto: Wikipedia

Voltando às paixões de Carroll, que foi até comparado a Humbert Humbert, o narrador de Lolita, de Vladimir Nabokov, Martin Garden adiciona: “é verdade que ambos tinham paixão por meninas, mas suas metas eram diametralmente opostas. As “ninfetas” de Humbert Humbert eram criaturas a serem usadas carnalmente”.

 

 

Lewis Carroll tinha também paixão por fotografias, e também só gostava de fotografar meninas: Alice Liddell foi uma delas. Para ele, as fotografias o inspiraram para muitas das ilustrações presentes nos livros de Alice, como Rougeau expressa que, interessado em captar o real, o natural, Carroll substituiu seus desenhos pelas suas fotografias. O medalhão original de As Aventuras de Alice no Subterrâneo inclui uma excelente semelhança do que Carroll tinha esboçado de Alice Liddell. No entanto, depois de capturar uma imagem clara da jovem com sua câmera, Carroll trocou a ilustração inicial pela imagem, e fez uma extensão do texto. Carroll ainda usou suas fotografias para esclarecer a visão artística que ele pretendia mostrar com as ilustrações de obras literárias.

 

É possível perceber que Carroll usava de suas fotografias com a intenção de ilustrar seus trabalhos de literatura e não com segundas intenções, como muitos poderiam pensar.

 

O que se sabe é que a relação entre Lewis Carroll e sua Alice Liddell era realmente de amizade, já que a própria Alice relatou em entrevista, 34 anos depois da publicação de Alice no País das Maravilhas, que gostava tanto de ouvir as histórias que ele contava, que pediu para Carroll escrevê-las.

 

Alice e a História da Inglaterra

 

Analisando alguns fatos da narrativa principal de Alice no País das Maravilhas, é possível confrontar, no que diz respeito especificamente ao conteúdo, com as características da literatura da Era Vitoriana, para mostrar que o livro de Alice pode ser lido como uma crítica à Inglaterra daquele período do século XIX, que tinha como uma de suas características principais a repressão da vontade individual.

 

Os castigos corporais eram considerados o caminho mais garantido para o conhecimento; professores bondosos, honestos e possuidores de uma mente liberal sempre mantinham uma vara e uma palmatória a curta distância, e o aluno médio assim tratado como uma pequena besta podia, então, ser perdoado por se comportar como tal.

 

A Era Vitoriana foi um período de mudança dramática que trouxe a Inglaterra a seu ponto mais alto de desenvolvimento como uma potência mundial | Foto: Wikipedia

Entende-se que o período em que Lewis Carroll estava vivendo era, portanto, uma época de grandes mudanças e tensão, não só entre o moderno e a tradição, como também entre a religião e a ciência, e que nesse período a Literatura teve grande importância na vida daquela sociedade, como a de hoje, cabendo a Carroll trazer o prazer da leitura, já que suas obras tinham teor moralizante e pedagógico.

 

Das histórias voltadas às crianças da época, Alice no País das Maravilhas, escrita em 1865, se tornou a mais famosa, por “desafiar” os padrões impostos pela Rainha Vitória, principalmente na questão educativa infantil.

 

 

Um trecho de Alice no País das Maravilhas é curioso por insinuar crítica ao sistema educacional da época:

“Assim ela ficou pensando consigo mesma (da melhor maneira possível, pois o dia quente a fazia sentir muito sonolenta e estúpida) se o prazer de fazer uma corrente de margaridas valeria o esforço de se levantar e colher as margaridas, quando de repente um Coelho Branco de olhos cor-de-rosa passou correndo perto dela.”

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É percebido que naquela época se exigia das crianças um comportamento adulto, iniciado pelos pais, que representavam as exigências morais da sociedade. Ou seja, o cidadão inglês, então, tinha a visão de ser punido caso agisse contra os princípios da época.

 

 

Mesmo tendo o foco principal na Era Vitoriana, alguns trechos da famosa obra de Carroll relatam também outros pontos históricos da Inglaterra. O Capítulo VIII – O campo de Croqué da Rainha, que fala da questão das rosas brancas pintadas de vermelho, na verdade insinua que o episódio dos jardineiros em que eles pintam as rosas brancas de vermelho, é uma alusão à série de guerras civis entre a Casa de Lancaster e a Casa de York, que durou de 1455 a 1787. Esses conflitos ficaram conhecidos como as Guerras das Rosas (The Wars of the Roses) pelo fato dos dois lados terem como emblema uma rosa: a de York, branca; a de Lancaster, vermelha. Os jardineiros, que são cartas de baralho, pintam as rosas brancas (plantadas por engano) na cor vermelha, para que a Rainha de Copas (vermelha, portanto), não percebesse o lamentável equívoco.

 

A verdade é que Lewis Carroll colocou de “ponta-cabeça a própria cultura vitoriana, expondo o mal-estar, a impostura e a esterilidade de uma sociedade fechada e repressiva”. Percebe-se, portanto, que a Era Vitoriana foi caracterizada por contrastes. De um lado, a sociedade inglesa tinha seu desenvolvimento devido à Revolução Industrial, onde também se expandia em diversas colonizações. Do outro, a mesma sociedade convivia com o medo diante da modernização. Ou seja, todos temiam a modernidade, a rapidez das mudanças e a incerteza que o novo provocava. Foi uma época de transição, no qual o novo queria encontrar seu espaço diante da resistência de um povo extremamente tradicionalista.

A obra Alice no País das Maravilhas se tornou, mesmo com teor nonsense, um grande destaque na literatura mundial, sendo essa até hoje debatida, analisada, investigada, mesmo que sobre a linguagem, quanto aos fatos que a cercam, dentro e fora das histórias de Lewis Carroll. Vale a pena conferir.

 

 

*Edmilson José de Sá é mestre em Linguística (UFPE) e Doutor em Letras (UFPB). Professor de Literatura Inglesa e Literatura Norte-Americana no Centro de Ensino Superior de Arcoverde (PE). Contato: edmilsonjsa@hotmail.com **Maria Isabel Bezerra da Silva Correia é especialista em Língua Portuguesa (UPE) e Língua Inglesa (FIP) e professora de Língua Inglesa. Contato: belscorreia@gmail.com

Adaptado do texto “A Inglaterra de Lewis Carroll”

Para conferir na íntegra garanta a sua revista Conhecimento Prático – Literatura Ed. 69