Abolicionismo brasileiro na História e Literatura

Em 2015, celebraram-se os cento e cinquenta anos da libertação dos escravos nos Estados Unidos. Fazendo com que recordássemos personagens de nossa história e literatura, ligados obviamente à nossa abolição e sua história

Por Juarez Donizete Ambires* | Foto: Shutterstock | Adaptação web Caroline Svitras

O romance A Escrava Isaura, que é de 1875, é nossa expressão mais cabal de que a escravidão chegara ao romance como tema. Na sua vez, o seu parceiro correlato – a abolição – também chegava ao gênero mais nobre da prosa e conquistava adeptos para a causa de libertação. Estes adeptos pertencem particularmente às classes médias citadinas, nas quais estão a mulher leitora e homens tocados pelo liberalismo e outros pensamentos políticos mais à esquerda. A leitura de romances, entretanto, não nos parece o único ou principal instrumento na conquista de adeptos. Meios diversos são utilizados para o trabalho de conversão. Sem dúvida, um deles é a oratória inflamada que tinha em Castro Alves e outros jovens românticos forte presença.

 

No episódio, a facúndia ou arte de bem falar é cultivada no interior dos cursos de Direito. É ainda instrumento de sedução e componente do carisma de algumas lideranças que têm uma causa maior, mas, por vaidade, humanamente rivalizam entre si. É o que se dá, para exemplo, entre Joaquim Nabuco (outro advogado) e o propalado Castro Alves, lideranças que construíram um legado, cujo cerne é a abolição. Nabuco o faz pelo viés da política e conhecimento das mazelas de um mundo escravocrata. Livros como A Escravidão (1949) e O Abolicionismo (1883) dão-nos conta deste conhecimento e da, segundo ele, negativa herança da servidão que ainda nos cerca. Já Castro Alves o faz, como se disse, por meio de sua poesia, cuja elaboração se dá nos anos 1860 e sob algumas influências. Uma delas é a abolição americana.

 

O conjunto das observações feitas encaminha-nos obrigatoriamente para Os Escravos, livro cujos poemas são da década de 1860, mas de publicação póstuma. Seu lançamento ocorre em 1883 e sua repercussão é positiva e imediata. Nos anos 1880 e nos centros urbanos do país, os abolicionistas são muitos e o movimento conquista mais e mais adeptos para a causa. A própria família imperial adere ao movimento. Castro Alves é um dos heróis da causa e a escravidão está por um fio, conforme a mensagem corrente. Logo, poemas do livro são sabidos de cor e recitados em eventos a favor da abolição. Na época, os recitativos estão no gosto da sociedade, acontecem com frequência. Com guirlandas e alegorias, espaços são preparados, havendo ao fim a coleta de fundos em prol da causa.

 

Abolicionismo brasileiro

 

 

O livro chama ainda a atenção do seu leitor para Palmares, e homenageia a comunidade, tornando-a símbolo de liberdade e contestação à ordem. Noutro episódio, deixa em evidência a África. O continente é o cenário de um dos poemas, “Saudação a Palmares”; nele, todavia, a África que se apresenta é a saariana, fato que causa algum estranhamento. Sabe-se, entretanto, que o Saara era de todos os espaços do continente o mais divulgado. Desde a Antiguidade, assim vinha se dando. Vários são os textos antigos que fazem referência ao deserto e associam a África como um todo ao calor escaldante, à canícula. Em verdade, ainda a cartografia francesa do século XIX reduz o continente ao deserto e seus areais. Por isto, muitos homens e mesmo intelectuais que nos antecederam viram a África metonimicamente. Tomaram, devido à estereotipia, a parte como se fora ela um todo. O livro de Castro Alves não foge à regra.

 

Castro Alves | Foto: Reprodução Internet

Pensando estes teores, convida-se à leitura de Os Escravos. O livro em questão foi um grande instrumento social. Ainda hoje, ele nos chama a atenção e não poderia ser o contrário. Seu tema é o mais sério de nossa história. O Brasil é um país indelevelmente marcado pela escravidão. Em sua pauta reflexiva, é necessário que se tenha o assunto sempre presente. Os setores sociais mais vitimados de nossa população descendem de escravos e sua desumana condição. A política imperial e a da república esqueceram-se disto. Já a poesia de Castro Alves, não. O poeta combate nossa escravidão e dialoga com fatos externos de algum modo a ela associados. Já a história do Brasil e sua política, à época e atualmente, esquecem-se disto. Lima Barreto e sua obra que o digam. Uma C.L.T. tão tardia, também.

 

Para nossa sorte, Castro Alves se alimenta no ideário romântico que bebe em fontes da Revolução Francesa. O movimento de 1789 é o primeiro a pôr-se contrário à escravidão. Com os revolucionários, todos os homens são iguais. A bandeira do movimento fala em liberdade, igualdade e fraternidade. Muitos dos românticos batem-se por estas significações. Ao fim do movimento, a geração ligada aos grandes temas sociais volta à prática e a vê como missão. Diga-se ainda que o seu legado vai além. Ela tira o Romantismo do seu culto letárgico ao passado. Noutra instância, alça a mesma literatura ao tempo presente e seus dilemas. Em concomitância, dialoga com a escola posterior, marcada pelo gosto à sua atualidade cronológica. A Castro Alves e sua literatura ainda se alia a generosidade da eterna juventude que não se pode esquecer.

 

Revista Conhecimento Prático – Literatura Ed. 71

Adaptado do texto “Abolicionismo brasileiro em História e Literatura”

*Juarez Donizete Ambires é professor de Língua e Literatura Portuguesas no Centro Universitário Fundação Santo André; juarez.ambires@bol.com.br; http://lattes.cnpq.br/5231846291164013.