A volta do flautista de Hamelin

China Miélville, o recente expoente da literatura inglesa, ao incluir elementos estéticos do jungle no mesmo cadinho em que lança mão de Kafka, da ficção weird e de um conto folclórico medieval, apresenta-se como forte candidato ao título de renovador da literatura fantástica

Por Tiago Eloy Zaidan* | Fotos retiradas da revista | Adaptação web Caroline Svitras

 

A história de Hamelin foi transmitida oralmente e chegou aos ouvidos dos irmãos Jacob (1785-1863) e Wilhelm Grimm (1786-1859) no alvorecer do século XIX. Ao que consta, ouviram-na de uma camponesa.

 

Hoje, a cidade de Hamelin, situada no estado da Baixa Saxônia, possui 58 mil habitantes. Ainda estão lá, a atrair visitantes, a bela arquitetura medieval e o rio Weser, onde, supostamente, o flautista mágico teria afogado os ratos da cidade. Referências aos ratos e ao flautista estão em toda a parte, para o deleite dos turistas. O conto, por seu turno, tornou-se um emblema da cultura ocidental. “Em inglês há a expressão ‘pay the piper’, traduzida como ‘pague o flautista’, que tem como significado que cada um deve enfrentar as consequências inevitáveis de uma ação” (KRAEMER, Maria Luiza. Histórias infantis e o lúdico encantam as crianças: atividades lúdicas baseadas em clássicos da literatura infantil. Campinas, SP: Autores Associados, 2008. p. 127.).

 

Irmãos Grimm

Em 1998, o flautista mágico voltou a dar as caras. Dessa feita, na obra de ficção Rei Rato (do original King Rat), do inglês China Miélville. Trata-se da obra de estreia do escritor, o qual tem sido celebrizado por textos da ficção weird – gênero marcado por eventos estranhos, por vezes bizarros. Depois da bem sucedida première, surgiram outros títulos tornados cult, como Perdido Street Station (2000), The Scar (2002), Iron Council (2004) e A cidade e a cidade (2009). O autor já faturou prêmios importantes da literatura de fantasia e de ficção científica, como o British Fantasy Award e o Arthur C. Clarke Award.

 

 

A história do livro se passa em Londres, por vezes chamada de Rome-vill, em referência à fundação da cidade pelos romanos. Logo de início, entramos em contato com o pesadelo kafkiano do jovem Saul, o qual é acordado, aos berros, pela polícia londrina. O pai de Saul, o sr. Garamond, foi jogado pela janela do apartamento em que morava, no sexto andar, em Willesden, norte de Londres. Por ser encontrado na residência local do crime – estava dormindo em seu quarto – e por ter um histórico de discussões com o progenitor morto, Saul é inevitavelmente tido como suspeito. Detido, é levado para uma cela.

 

No cárcere, é visitado, misteriosamente, por um sujeito estranho, o qual traz consigo um pungente cheiro de lixo e de animais molhados. Dotado de um forte sotaque londrino, habilmente liberta Saul da detenção em uma fuga improvável. Indagado sobre o seu paradeiro, o inusitado visitante apresenta-se de forma absurda: “Você tá na presença da realeza, camarada. Eu vou pra onde vão os meus súditos – e os meus súditos estão em toda parte. E aqui nas cidades existe um milhão de fendas para o reino deles. Eu preencho todos os espaços entre elas”.

 

A fantástica fábrica de Roald Dahl

 

O libertador atende pelo nome de Rei Rato. Trata-se da autoridade real de todos os ratos do mundo. Ou, pelo menos, deveria. Há um bom tempo, o suposto rei padece de uma patética falta de prestígio. Mais precisamente desde que ele e seu séquito foram expulsos humilhantemente da cidade de Hamelin, há centenas de anos, por um flautista enigmático.

 

Na trama de Miéville, o flautista atende pelo nome de Pete. É descrito como sendo muito magro, loiro, tendo cerca de dois metros de altura e aparentando uns 30 anos de idade. Possui brilhantes olhos azuis. Do amarelo do cabelo à palidez extrema da face, quase tudo nele parece delatar o portador de uma enfermidade grave.

 

Outras mortes se seguem ao perecimento do sr. Garamond, sempre permeadas por requintes sobre-humanos, como no caso do brutal extermínio dos policiais Page e Barker, enquanto tomavam conta do local da morte do pai de Saul. Quiçá o mais sádico dos episódios, no entanto, é o da destruição – em sentido literal – de Kay, amigo de Saul, em uma estação de metrô abandonada de Londres.

Nas palavras do autor inglês, destiladas no livro, o estilo musical é descrito como “O filho do house, o filho do raggamuffin, o filho do dancehall, a apoteose da música negra, a trilha sonora drum and bass para uma Londres de conjuntos habitacionais e paredes sujas, jovens negros e jovens brancos, meninas armênias.”

 

Considerado um derivado do reggae, o jungle é, para Carlos Albuquerque, em seu livro O Eterno Verão do Reggae, “Música selvagem, cruzamento feroz entre techno e ragga, ativado por batidas aceleradíssimas e quebradas (…)”, e arremata: “(…) o jungle é o punk do mundo dance. Sujo, perigoso, hardcore, jungle é a resposta inglesa ao rap americano” (ALBUQUERQUE, Carlos. O Eterno verão do reggae. São Paulo: Editora 34, 1997. p. 161.).

 

Veja a análise do livro “O Hobbit”

 

Ao incluir elementos estéticos do jungle no mesmo cadinho em que lançou mão de Kafka, da ficção weird e de um conto folclórico medieval, China Miélville apresenta-se como forte candidato ao título de renovador da literatura fantástica. Ou, pelo menos, como o maior expoente deste processo. Em um universo pop sedento por sequências intermináveis – que o digam as franquias dos filmes de Hollywood – o escritor inglês toma a liberdade de escrever mais um capítulo para o enredo antiguíssimo da rixa entre os ratos e o flautista mágico.

 

Aliás, em 2012, a imprensa noticiou – sem prescindir do sensacionalismo – o que seria uma nova invasão de roedores à velha cidade de Hamelin, na Alemanha. Segundo o canal de notícias Globo News, em nota divulgada em 25 de maio daquele ano, “Como na lenda do flautista, Hamelin sofre com uma infestação de ratos. Dessa vez, entretanto, eles roeram os cabos de eletricidade de um dos chafarizes, que parou de funcionar” (PRAGA DE ratos atinge cidade de Hamelin, na Alemanha. Globo News, 25 de maio de 2012. Disponível em http://g1.globo.com/globo-news/noticia/2012/05/praga-de-ratos-atinge-cidade-de-hamelin-na-alemanha.html. Acesso em 13/01/2016).

 

Conhecimento Prático – Literatura Ed. 67

Adaptado do texto “A volta do flautista de Hamelin”

*Tiago Eloy Zaidan é mestre em Comunicação Social pela Universidade Federal de Pernambuco; graduado em Comunicação Social pela Universidade Federal de Alagoas; coautor do livro “Mídia, Movimentos Sociais e Direitos Humanos (organizado por Marco Mondaini, Ed. Universitária da UFPE, 2013) e professor do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia da Paraíba (IFPB).