A vida de Agatha Christie

Há 83 anos que um seleto grupo de passageiros embarcou em uma luxuosa composição ficando confinados nela por força de uma tempestade de neve.

Por Adilson de Carvalho Santos* |  Adaptação web Caroline Svitras

 

Durante dias, até que pudessem retomar sua viagem, um dos mais ilustres passageiros: Samuel Ratchett – um riquíssimo empresário – aparece morto em sua cabine onde foi esfaqueado 12 vezes. Para que o assassino fosse encontrado, seria necessário correr contra o tempo, já que, assim que a tempestade parasse e o trem chegasse à parada mais próxima, o assassino poderia escapar. O detetive belga Hercule Poirot, a bordo do trem, assume as investigações que remontam ao sequestro e morte de uma criança, caso este não resolvido na época e que ganhara as manchetes internacionais.

 

Todo esse intrigante enredo não foi real, mas fruto da imaginação de Agatha Mary Clarissa Miller, nascida em  15 de setembro de 1890, que alcançou a eternidade usando o sobrenome de seu primeiro marido: Archibald Christie. O referido livro que viria a ser chamar Assassinato no Expresso do Oriente surgiu em sua mente quando a própria autora viajou a bordo do Expresso do Oriente em 1928. Além disso, o episódio do luxuoso trem preso durante uma tempestade de neve realmente ocorreu anos antes. A trama sobre o sequestro e a morte de um inocente foi retirada de um caso real: o sequestro e assassinato do filho do aviador Charles Lindbergh que provocou comoção nos anos 30. Agatha escrevia movida por ideias surgidas de todas as formas e de todos os lugares. Durante sua estadia na Turquia, hospedou-se no Pera Palas Hotel, onde escreveu o livro que seria publicado de forma seriada nas páginas do Saturday Evening Post, em 1933, e com o título Murder on the Calais Coach, até ser publicado pela primeira vez como romance em janeiro de 1934 pela Editora Collins. Nessa época, a viagem no Expresso do Oriente havia atingido seu ápice de glamour e sofisticação, antes que a II Guerra interrompesse o serviço do transporte. Na época, Agatha já era um sucesso editorial com mais de 20 livros e contos publicados em várias coletâneas. Era uma celebridade no mundo das letras e Assassinato no Expresso do Oriente alcançaria a impressionante marca de 3 milhões de cópias vendidas na época.

 

 

Poirot – Orgulho das células cinzentas

Christie fez de seu detetive belga, Hercule Poirot, um dos maiores personagens do romance policial. Baixinho, com um indefectível bigode e sempre orgulhoso de suas pequenas células cinzentas, Poirot é a criação mais popular da autora britânica. Além de sua excentricidade e elegância europeias, Poirot é meticuloso em sua abordagem e nem um pouco modesto em relação a sua capacidade dedutiva.

 

Poirot sempre foi apresentado de forma assexuada, nunca se envolvendo com mulheres, exceto por uma ocasião em que demonstra sentimentos profundos pela Condessa Vera Rossakoff no romance The Big Four. Seu modus operandi analisa psicologicamente os suspeitos e deduz detalhes com um olhar clínico de admirável precisão.

 

Charles Lindbergh

 

Ocasionalmente, recebe a ajuda do Capitão Hastings, o bom amigo que  se torna seu “Watson” na investigação criminal. Todas essas características garantiram ao personagem um lugar de honra no imaginário dos amantes de histórias policiais.

 

Dois anos antes do falecimento de Agatha Christie, a autora autorizou a publicação de Cai o Pano (Curtain), em que o detetive belga morre em uma história escrita durante a II Guerra Mundial e guardada durante décadas. Em agosto de 1975, o renomado New York Times publicou a morte do personagem na seção Obituário, marcando o fim de um ciclo no gênero que coroou Agatha e fez de Poirot uma celebridade entre seus semelhantes.

 

J. R. R. Tolkien e a Primeira Guerra

 

Poirot protagonizou 39 livros, sendo 33 romances policiais além de contos diversos reunidos depois. Agatha criou outros detetives como Miss Marple e Parker Pyne, mas Poirot, sem dúvida, ocupa uma posição privilegiada no imaginário popular dos amantes do gênero. Já foi vivido por diversos atores, tendo sido o desconhecido Austin Trevor o primeiro nas telas, no filme Alibi (1931), adaptação de O Assassinato de Roger Ackroyd. Trevor retornou ao papel em Black Coffee (1931) e Lord Edgware Dies (1934). Tony Randall foi o segundo ator a interpretar Poirot em The Alphabet Crimes (1965), adaptação de Os Crimes ABC, que traz a curiosidade de ser o único encontro entre Poirot e Miss Marple (Margareth Rutherford). Em 1974, Albert Finney conquistou uma indicação ao Oscar por sua personificação de Poirot em Assassinato no Expresso do Oriente, chegando ainda a ganhar o BAFTA, o Oscar do cinema britânico. No entanto, o mais recorrente ator a viver o personagem foi Peter Ustinov, que fez seis filmes entre 1978 e 1988, para o cinema e TV. O inglês David Suchet personificou Poirot em uma série da TV inglesa que começou a ser produzida em 1989 e seguiu até tempos recentes.

 

 

Vida e carreira da Rainha do Crime

A hábil escritora tornou-se senhora absoluta de uma fórmula que fez dela referência em um gênero literário que, na ocasião da publicação de Assassinato no Expresso do Oriente, já contava com mais de 90 anos desde que Edgar Allan Poe publicara Os Crimes na Rua Morgue. Em seus livros, Christie apresenta personagens que são vítimas e suspeitos, que confundem o leitor com suas qualidades e falhas morais. A Rainha do Crime, conforme passou a ser conhecida, era a mais nova dos três filhos de Clarissa Margaret Boehmer, uma aristocrata inglesa, e Frederick Alvah Miller, um rico corretor de bolsa norte-americano. Nascida em Torquay, cidade à beira-mar no sul da Inglaterra, em plena Era Vitoriana. Agatha foi educada em casa, pela mãe, e desde cedo era estimulada para a leitura. Lia Louisa M. Alcott (de Little Women), Charles Dickens, Poe, e o próprio Conan Doyle, criador de Sherlock Holmes. Nunca escondeu suas influências literárias, bem como empregou muito de sua vivência para criar suas histórias de mistério. Seu primeiro livro, O Misterioso Caso de Styles (1920) – já com a presença de Poirot –, foi escrito depois que sua irmã a desafiou a criar uma história de mistério, na qual usou seu conhecimento de venenos adquirido nos anos em que trabalhou como enfermeira durante a Primeira Guerra. O livro foi recusado por várias editoras até ser publicado pela John Lane. Agatha também escrevia poemas, quando criança, fez aulas de piano e dança. Tornou-se uma excelente pianista, mas sua extrema timidez impediu o que poderia ter sido uma grande carreira musical. Em 1912, aos 22 anos, Agatha conheceu o coronel Archibald Christie com quem se casaria no Natal de 1914. Em 1919, tiveram sua única filha, Rosalind.

 

 

 

O desaparecimento de Agatha

O ano de 1926 foi muito difícil para a vida pessoal de Agatha: sua mãe morreu e seu marido a trocou pela amante. Foi nessa ocasião que se deu um dos episódios mais curiosos de sua vida: quando Christie abandona sua esposa para passar um final de semana com sua amante, Agatha deixa sua casa de carro e desaparece. Na manhã do dia seguinte seu carro é encontrado em um barranco próximo ao lago Silent Pool. Inicia-se então uma exaustiva busca pela escritora, que chega às manchetes dos jornais, com direito à recompensa a quem tivesse qualquer informação sobre ela. Onze dias depois, Agatha foi reconhecida como hóspede do Hydropathic Hotel (atualmente chamado Old Swan Hotel) sofrendo de amnésia, causada pela concussão após a batida do carro. Informado, o cel. Christie se dirigiu ao Hotel, mas não foi reconhecido por Agatha, que usava o nome de Theresa Neale, uma sul-africana. Curiosamente, Neale era o sobrenome da amante do coronel. O episódio real tinha todos os elementos que fizeram os livros de Agatha famosos e estimulou a imaginação dos fãs da autora, virando inclusive filme em 1979: O Mistério de Agatha, dirigido por Michael Apted, com Vanessa Redgrave como a autora e Timothy Dalton como o cel. Christie. Na vida real, Agatha nunca comentou sobre esse confuso episódio de sua vida.

 

Vida nova – A Rainha reescreve a própria vida

A publicação em 1927 de The Big Four, protagonizado por Poirot, ocorre pouco antes de ela conhecer o arqueólogo britânico Leonard Wooley. Este a convidou a tomar parte em uma expedição no Oriente Médio, alimentando a fértil imaginação da escritora que viria a escrever mistérios passados em tais locações. Nessa época, conheceu o assistente de Wooley, Max Mallowan, de 25 anos, que se tornaria seu segundo marido. Estimulada pela atmosfera egípcia durante sua viagem ao Cairo, veio a escrever Morte Sobre o Nilo (1937), e participou junto de Mallowan, de uma escavação arqueológica que a inspirou a escrever Morte na Mesopotâmia (1936). Em 1928, Agatha estava decidida a escrever outros tipos de histórias, e ciente que seu nome era automaticamente associado a crimes e mistérios, como ocorrera também com Conan Doyle, usou o pseudônimo Mary Westmacott para escrever o romance O Gigante (Giant’s Bread). A obra de ficção fala sobre um compositor que se vê forçado a trabalhar por razões financeiras. Para isso, usou histórias contadas por sua mãe que tinha vivência no mundo do palco e da música. O livro publicado em 1930 foi o primeiro de seis em que Agatha provou sua versatilidade escrevendo sobre relações familiares, amores passados e outros conflitos humanos dissociados de sua persona como A Rainha do Crime. A Collins, que se tornou sua editora, estava temerosa com essa nova empreitada, mas o sucesso sorriu para a autora, que voltou a escrever como Mary Westmacott em 1934, resultando em O Retrato (Unfinished Portrait). Em paralelo a sua reinvenção como romancista, continuou a escrever as obras de mistério que alimentavam a sede de mistério de seus leitores.

 

 

Em 1939, publicou O Caso dos Dez Negrinhos (Ten Little Niggers) que se tornou seu livro mais vendido e um dos maiores best-sellers de todos os tempos. A história de um grupo de pessoas, aparentemente sem nenhuma ligação entre si, convidadas a passar um final de semana em uma ilha deserta onde são mortos um por um por um assassino misterioso que talvez seja um entre eles. A história é um enigma aparentemente insolúvel cujo sucesso o levou a ser teatralizado, caminho pelo qual também passaram outras de suas obras. Em 1945, foi feita a adaptação intitulada And  Then There Were None, de O Caso dos Dez Negrinhos. A própria autora mudou o final da história na peça que veio a ser adaptada para o cinema, com Barry Fitzgerald, Walter Huston, Judith Anderson, entre outros, e direção de René Clair. Em 1952, outro feito inigualável foi a estreia de A Ratoeira (The Mousetrap), obra escrita por Christie diretamente para o teatro, que continua sendo apresentada em Londres até os dias de hoje. Também escreveu a peça Testemunha de Acusação (Witness for the Prosecution), que foi tão bem-sucedida, que foi adaptada para o cinema, em 1956, por Billy Wilder, com Tyrone Power, Marlene Dietrich e Charles Laughton.

 

Assassinato no Expresso do Oriente no cinema

Além do teatro, o cinema e a TV constantemente revisitam as obras de Agatha Christie. Há 43 anos estreou a melhor versão de um livro de Dame Agatha, título de nobreza que lhe foi concedido em 1971. Em 24 de novembro de 1974 chegou às telas Assassinato no Expresso do Oriente (Murder on The Orient Express) dirigido por Sidney Lumet, a melhor adaptação cinematográfica de um livro da Rainha do Crime. O filme reuniu um superelenco encabeçado por Albert Finney no papel de Hercule Poirot. Na lista de passageiros/ suspeitos investigados estavam personagens interpretados por Sean Connery, Anthony Perkins, Martin Balsam, Michael York, John Gieguld, Vanessa Redgrave, Jaqueline Bisset, Jean-Pierre Cassell, Lauren Bacall e Ingrid Bergman, tendo Bergman ganhado, por seu papel, o Oscar de melhor atriz coadjuvante. A vítima era interpretada por Richard Widmark, que tempos depois afirmou que aceitou o papel pela oportunidade de trabalhar com esse elenco superstar. O roteiro de Paul Dehner manteve o elemento envolvente da obra de Agatha e fez mudanças mínimas no material original como a nacionalidade do diretor da linha férrea, que de francês virou italiano.

 

Confira a análise do conto “O ovo e a galinha”

 

O filme foi indicado para um total de seis Oscars. Na época, Agatha já era a autora mais lida do mundo, e aos 84 anos aprovou a atuação de Finney como Poirot. Ela compareceu à estreia do filme, satisfeita pela primeira vez com uma adaptação de uma obra sua para o cinema. Essa seria sua última aparição pública antes de falecer de causas naturais em janeiro de 1976. Assassinato no Expresso do Oriente ainda seria refilmado para a TV em 2001, com Alfred Molina como Poirot. Essa adaptação subaproveitou a trama reduzindo o número de suspeitos e incluindo o interesse amoroso de uma mulher por Poirot, o que não existe no livro. Em 2010, surge uma nova adaptação, também para a TV, com David Suchet em elogiada atuação na série britânica que leva o nome do personagem. Entre dezembro de 1992 e janeiro de 1993 ainda houve uma adaptação para a rádio BBC, dividida em cinco partes, com Poirot na voz de John Moffatt.

 

Miguel de Cervantes: vida e obra do gênio da literatura ocidental 

 

Tanto sucesso não significa que Agatha não tivesse seus detratores. Alfred Hithcock dizia desprezar seu estilo de narrativa que se convencionou chamar pejorativamente de “whodunit” (quem fez isso?). Contudo, inegável é o fato que Agatha Christie tornou-se sinônimo do gênero literário que escreveu. Sua narrativa serviu de inspiração para diversos imitadores, e no cinema, seu estilo (um crime e vários suspeitos) foi homenageado pelo renomado Robert Altman em 2001 no filme Assassinato em Gosford Park (Gosford Park). A ideia de um assassino invisível foi usada no filme Identidade (Identity) em 2003 e a premissa de passageiros ameaçados por um crime, recentemente usada em Sem Escalas (Non Stop), com Liam Neeson e Julianne Moore. Apesar do anunciado encerramento da bem-sucedida e longeva série britânica Poirot, rumores sobre novas adaptações de seus livros são frequentes na mídia e indicam que, se o crime não compensa, certamente ele cria seguidores, e entre tantos autores notórios Agatha Christie se destaca como uma excelente analista da natureza humana, nossas fraquezas e ambições que há décadas alimentam a imaginação de gerações de leitores.

 

*Adilson de Carvalho Santos é professor formado em Letras, bacharel em Inglês – Literatura (UERJ); leciona e é assistente-colaborador do crítico Rubens Ewald Filho.

e-mail:samejames@ig.com.br

blog: cineonline.wordpress.com

Adaptado do texto “Assassinato no Expresso do oriente: 80 Anos do Clássico de Agatha Christie (e 40 anos de sua mais perfeita adaptação para cinema)”

Fotos: Revista Conhecimento Prático – Literatura Ed. 57