A simplicidade de Cora Coralina

Por José Neres* | Adaptação web Caroline Svitras

Há alguns poetas que, em um primeiro contato, passam a ilusória sensação de que são simples e de que seus textos podem ser facilmente compreendidos e até mesmo analisados sem esforço, mas que na verdade ocultam com seus versos bem mais que imagens poéticas facilmente digeríveis ou melodiosos trechos que embalem hipotéticas cantigas sentimentais ou, ainda, palavras desprovidas de carga poética. Esse é o caso de poetas notáveis como Manuel Bandeira, Mário Quintana e Cora Coralina, escritores que escondem em seus versos a ilusória sensação de simplicidade mas que, quando lidos com a devida atenção, demonstram apresentar bem mais que poemas bonitos e desprovidos de conteúdo.

 

Cora Coralina, pseudônimo poético adotado por Ana Lins dos Guimarães Peixoto Bretas, é uma escritora que, embora ignorada pela maioria dos autores de compêndios didáticos ou mesmo de cunho científico que abordam a historiografia literária brasileira, vem encantando os amantes da poesia há décadas e recebendo elogiosos comentários de personalidades abalizadas no campo das letras, como Carlos Drummond de Andrade, que considerou Cora Coralina a pessoa mais importante de Goiás, colocando-a acima dos políticos e dos mais influentes homens de negócio do estado. Para o crítico maranhense Oswaldino Marques, a autora de Vintém de Cobre é muito mais que uma escritora comum, podendo ser considerada uma “mulher-jazida-de-sabedoria”.

 

Mesmo dividida entre elogios e esquecimentos, a produção poética de Cora Coralina, que só publicou seu primeiro livro após a sétima década de vida, conseguiu destacar-se nacionalmente e ultrapassar os limites de sua terra, colocando seu nome entre os mais significativos representantes da poesia brasileira do século XX.

 

Em um olhar superficial ou apressado, os versos de seus poemas parecem simplistas e frutos de uma marcante ingenuidade que levava as emoções sentidas, as alegrias cotidianas e os sofrimentos do dia a dia diretamente para a folha de papel sem o filtro de um trabalho com a linguagem poética. É o que alguém poderia pensar ao ler o excerto abaixo:

 

Fiz doces durante quatorze anos seguidos.
Ganhei o dinheiro necessário.
Tinha compromissos e não tinha recursos.
Fiz um nome bonito de doceira, minha glória maior.

Fiz amigos e fregueses. Escrevi livros e contei estórias.
Verdades e mentiras. Foi o melhor tempo de minha vida
Foi tão cheio e tão fértil que me fez esquecer a palavra “estou cansada”
Cansada talvez a lavadeira do rio Vermelho da minha cidade
Talvez a mulher da roça de São Paulo, nem mesmo ela.
Nunca ouvi da lavadeira a expressão “estou cansada”
Sim, seu medo: faltar freguesa e trouxa de roupa para lavar e passar.

(“Nunca estive cansada”)

No entanto, o leitor mais atento já pode perceber o tom que perpassa a autocomiseração e a resignação para atingir o status de lição de vida e de velada crítica social. Usando-se de modo espontâneo e livre do pedantismo acadêmico, aquilo que o teórico francês Philippe Lejeune chamou de pacto autobiográfico, a escritora goiana empresta parte de sua hipotética biografia a um eu lírico que aproveita uma passagem de sua vida não apenas como forma de rememoração, mas também de tecer críticas a algumas situações que são aparentemente banais, mas que podem despertar reflexões. No Meu Livro de Cordel, logo no segundo texto, o poder metafórico das palavras da poetisa goiana ganha ares de universalidade. As pedras que poderiam ser obstáculos intransponíveis para quem se deixa levar pelas adversidades da vida podem servir como elemento de libertação e de sucesso para as pessoas que conseguem ver nos obstáculos uma fonte de libertação.

 

Ajuntei todas as pedras
que vieram sobre mim.
Levantei uma escada muito alta
e no alto subi.
Teci um tapete floreado
e no sonho me perdi.

(…)
Entre as pedras
cresceu a minha poesia.
Minha vida…
Quebrando pedras
e plantando flores.

 

Essa relação do obstáculo a ser vencido e os caminhos que podem advir desse embate é uma constante na poética de Cora Coralina. Na sua obra, os caminhos estão repletos de pedras, mas as pedras também trazem indicações para novos caminhos a serem seguidos. Mesmo com a aceitação desses entraves ao longo de muitos momentos da vida e com uma enfática resignação, que faz o eu lírico clamar:

 

Senhor, fazei com que eu aceite
minha pobreza como sempre foi.

Que eu não sinta o que não tenho.
Não lamente o que podia ter
e se perdeu por caminhos errados
e nunca mais voltou.
(“Humildade”)

 

Os caminhos traçados por Coralina em seus versos ora convergem, ora se afastam, levando e trazendo pessoas que fizeram parte de sua jornada. Nesse ir e vir há encontros e desencontros, mas em diversos momentos essas vias se cruzam e a autora, consciente de que a vida é um entrelaçar de múltiplas estradas e desvios pelos quais passamos, tece com palavras uma teia de rotas, uma metáfora da própria condição humana de existir em contato constante com o outro. No final, vários caminhos se encontram e chega sempre um momento de reflexão sobre os passos dados ao longo da vida, como ocorre, por exemplo, no poema “Amigo”:

Vamos conversar
como dois velhos amigos
que se encontram
no fim da caminhada.
Foi o mesmo nosso marco de partida.
Palmilhamos juntos
a mesma estrada.
(…)
Indiferente
tomaste teu caminho
por estradas diferentes.
Longo tempo o esperei
na encruzilhada,
depois… depois…
carreguei sozinha
a pedra do meu destino.

 

Profundas reflexões acerca da do ser e do estar no mundo moram na simplicidade das palavras de Cora Coralina. Não é à toa que ela recorre inúmeras vezes às imagens do caminho e da solidão do homem nessa estrada, que pode até ter origem em pontos semelhantes, mas cujas topografias, sinuosidades e reentrâncias acabam sendo uma escolha de cada indivíduo. Para a autora dos Poemas dos Becos de Goiás e Estórias Mais, a Poesia pode nascer das coisas simples da vida: de um fogão de lenha, de velhas jardineiras que passam, de um mero saborear de uma fruta ou mesmo de uma brincadeira de roda… para ela, a Poesia e Vida andam juntas de mãos dadas pela mesma longa ou curta estrada. Tudo então pode ser simples ou complexo, dependendo do olhar adotado. E, de uma forma ou de outra:

A vida é uma flor dourada
tem raiz na minha mão.
Quando semeio meus versos,
não sinto o mundo rolando
perdida no meu sonhar
nos caminhos que tracei.

*José Neres é mestre em Educação pela Universidade Católica de Brasília. Professor da Faculdade Atenas Maranhense e da Faculdade Santa Fé.

Adaptado do texto “A complexa simplicidade de Cora Coralina”

Fotos: Revista Conhecimento Prático – Literatura Ed. 59