A Seca de O Quinze

Por Juarez Donizete Ambires* | Adaptação web Caroline Svitras

O mote para o primeiro romance de Rachel de Queiroz é a seca de 1915. Estamos, então, há cem anos do acontecimento que se expressou como flagelo, mas acabou por se reverter em estímulo para um escrito de densidade e importância. A escrita à qual aludimos ocorre, todavia, posteriormente à data em questão. O período da seca já estava superado, e Rachel se vale da memória do povo que o enfrentara. Na sua vez, todo o interior nordestino é a geografia da grande seca. A escritora, porém, leva o seu leitor ao sertão do Ceará. A esta geografia Rachel conhece, como também aos seus relatos sobre a seca calamitosa. Já o romance, este é editado em 1930 e, em sua temática e seriedade, une-se a dois outros também produzidos por escritores nordestinos.

 

A Bagaceira, de 1928, de José Américo de Almeida é o primeiro deles; Vidas Secas, de 1938, de Graciliano Ramos, o segundo. Irmanados pela temática, trabalharão a seca como força antagônica. A mesma seca, em suas páginas, será também adversidade poderosa que inviabilizará a vida, exigindo o recuo, o êxodo. Os romances referidos serão, assim, parte substancial do ciclo do romance social nordestino. Ao mesmo ciclo ligar-se-ão ainda outros autores, e toda a sua literatura será de intenso diálogo com a realidade. Em sua expressão, o ciclo, como um todo, declarar-se-á também partidário dos desfavorecidos. De algum modo, em diálogo ele expressará a visão de Os Sertões. Falará, por isto, de um sertanejo forte, vítima, porém, do abandono.

 

Rachel conhece o sertanejo e tudo o que o vitima. Gostaria de ver positivamente sua situação alterada. À época, filiada ao Partido Comunista, pensa em um mundo sem classes sociais e com divisão de bens. Acredita, entretanto, que as mudanças se farão com a ajuda dos destituídos. Associa o fato à literatura e a vê como instrumento de transformação. Compreende, por isto, que é preciso haver e fazer leitores. Devido ao fato, construirá um estilo, cujas marcas primarão não pelo simplismo, mas pela simplicidade. Sua linguagem será direta, objetiva. O vocabulário veiculado, acessível e dimensionado. Na oração, a ordem dos termos elencados será a direta. Nas frases, o ponto final aparecerá mais vezes, encurtando extensões e facilitando a apreensão.

 

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Neste procedimento, Rachel se irmanará a Jorge Amado e outros. Com eles, na extensão, será um modelo que rompe fronteiras. Nosso romance social nordestino, por exemplo, chegará a Portugal. Sendo lido, entre os lusos influenciará a eclosão de um movimento literário com força de superação. A nova literatura será o Neorrealismo, expressão que se inicia em 19398 e reage ao Presencismo. Devido à influência, em sua dinâmica, ele buscará os procedimentos de estilo indicados. Sob a mesma influência, também praticará, e com mestria, o discurso direto e o indireto. Privilegiará ainda as comunidades rurais e, com isto, a geografia rural. Assim, o campo português corresponderá ao nosso sertão e abrir-se-á à ideia de reforma agrária.

 

À ocasião, entretanto, que é o início dos anos 40, tanto o Brasil quanto Portugal vivem sob o tacão de ditaduras. Por isto, as ideias veiculadas por suas literaturas de cunho social são consideradas subversivas e incomodam autoridades. Deste modo, certo clima de clandestinidade envolve seus autores. Rachel, mesmo já desvinculada do Partido Comunista, passa por esta situação e O Quinze é prova do seu antigo comprometimento. Será também prova de um vínculo que se estende à África de Língua Portuguesa. A elite letrada africana que busca a independência, em atitude de rompimento lê nosso romance social nordestino e nele se espelha. Em Lisboa, a Casa dos Estudantes do Império garante o encontro e a fusão de interesses.

 

A juventude universitária africana, que o governo português quer conivente consigo, vai a Portugal para a formação universitária. Entre os lusos, entretanto, ela lê o modernismo brasileiro e se envolve com Rachel, Jorge Amado, Graciliano e outros. Amado, para exemplo, lhes dará a coragem de pensar em heróis negros e mestiços. Manuel Bandeira oferecerá consistentes elementos para que o intelectual cabo-verdiano pense a evasão e se autointerprete. “Vou-me embora pra Pasárgada”, poema de Libertinagem, é a fonte desta busca de si. Pelo convite à evasão que o escrito veicula, Ovídio Martins dialogará com a saga do seu povo. Em sintonia, seu eu-lírico se pronunciará, escolhendo não o mundo de além mar, mas Cabo Verde e sua dura luta pela sobrevivência.

 

Rachel, na sua vez, ajudará Cabo Verde a pensar literariamente o drama das suas secas periódicas. Como já afirmamos, ela é, há cem anos, o tema de O Quinze e tornou-se o incentivo para Flagelados do Vento Leste. O romance, que é de 1960 e da autoria de Manuel Lopes, dialoga com o romance brasileiro e tem na seca seu motivo. Com o fato, nos remete a um grande flagelo que varreu o arquipélago nos anos 1940. Remete-nos ainda à ausência de uma solução definitiva para um problema que teima em voltar. No romance de Rachel, a falta de chuvas castiga o sertão. Em Manuel Lopes, o suplício se dá pela ação dos ventos saarianos que varrem o arquipélago. Harmatão, Nordeste são nomes que os personificam em sua passagem que entristece e resseca.

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Ambos os romances falam, assim, da aridez, da canícula, dos cardos e rochas escaldadas, dos homens sofridos. Falam ainda de um espaço de interioridade, atingido por uma seca que leva consigo lágrimas e esperanças. O texto de Rachel dá-nos conta do fato e também da proeza perpetrada por uma jovem. Quando da edição, a escritora tem vinte anos e, por isto, muitos suspeitaram de sua competência. Alegaram que a composição seria de outrem. Seria, ainda e com certeza, de um homem que condescendera em que a jovem assumisse a autoria. O tempo, porém, mostrou que não. A autoria de O Quinze era de Rachel e novos romances da escritora como também o trabalho da cronista confirmaram-lhe a competência.

 

A seca, na sua vez, também confirmou-se em novos retornos e em sua dureza. O romance de Manuel Lopes retratará as levas de retirantes que se deslocam à noite, para evitar a abrasão. Eles caminham como autômatos. Vão ainda se encontrando ao longo do caminho e engrossando um único grupo. O destino é o litoral. Na orla, assumem a incumbência de construção de uma estrada que unirá o nada a coisa alguma. O importante é que se ocupem, enquanto esperam a clemência da chuva. Com os retirantes da escritora nada é muito diferente. O destino, entretanto, é Fortaleza, a capital litorânea, onde os aguardam o desconhecido e a saudade. Em meio a isto, o resgate é a indignação que o texto de Rachel ainda evoca tantos anos depois.

 

Revista Conhecimento Prático – Literatura Ed. 62

Adaptado do texto “A Seca de O Quinze”

*Juarez Donizete Ambires é Professor de Língua e Literatura Portuguesas no Centro Universitário Fundação Santo André. Em suas pesquisas atuais, ocupa-se com as Literaturas Africanas de Língua Portuguesa.