A responsabilidade do escritor

“Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que escreves.” Tudo bem, não foi bem isso o que Saint-Exupéry disse. Mas bem que que podia ter sido. Porque escrever é coisa séria: por as palavras no papel, torná-las concretas, eternizá-las.

Por Andressa Andrade | Foto: Shutterstock | Adaptação web Caroline Svitras

 

 

Tudo isso exige uma responsabilidade que vai muito além daquela prevista pela lei que diz que uma pessoa é responsável pelo conteúdo do texto que assina. A escrita pede por um compromisso ideológico, moral e social, que o autor deve assumir no instante em que se propõe ao fazer literário. É um contrato silencioso, subentendido nas entrelinhas, que ele assina às vezes até sem saber, no momento em que assume a autoria.

 

Mas por que a responsabilidade do escritor é tão grande? A resposta está, é claro, no impacto que a literatura causa nas vidas dos leitores.

 

A influência que os diversos textos — sobretudo os literários — têm sobre as pessoas já foi objeto de estudo de pensadores de diversas áreas das ciências humanas. Essa é uma preocupação tão antiga que pode ser encontrada até em obras que datam de antes do nascimento de Cristo. Sócrates e Platão, por exemplo, consideravam que a poesia (genericamente o único tipo de texto literário que conheciam à sua época) devia ser banida da pólis. Eles diziam que na maioria dos casos a literatura era completamente inútil, e que quando não o era, tinha um efeito maléfico sobre os cidadãos. Era o que eles temiam. Mesmo que a posição desses filósofos seja bastante extremista — para não dizer pessimista — e tenha sido refutada anos depois por Aristóteles, não podemos dizer que ela não tenha razão de ser. A história nos fornece um amplo conjunto de exemplos de situações em que a literatura trouxe consequências trágicas para os leitores e, em alguns casos piores, para a humanidade. Para citar um, podemos lembrar Os Sofrimentos do Jovem Werther, de Goethe: obra-prima do Romantismo alemão, esse romance levou vários jovens a cometerem suicídio no final do século XVIII. E o que dizer de livros como Minha Luta, de Hitler, ou o Livro Vermelho, de Mao Tse-Tung? Diante de exemplos tão poderosos, como dizer que os gregos estavam errados?

 

Como criar um texto literário digno de inscrever-se nos quadros do gênero lírico

 

A questão é: eles não estavam exatamente errados. Apenas falharam em ver, digamos, “o outro lado da moeda”. O que Sócrates e seu discípulo não perceberam é que a influência exercida pela literatura não precisa ser necessariamente ruim. Muito pelo contrário: quando  bem articulado, seu poder transformador pode ser usado para mudar a mentalidade das pessoas de uma  maneira positiva. Se um livro conseguir ter um impacto grande o bastante para mudar a maneira de pensar dos jovens de hoje — fazendo-os, por exemplo, abandonar algum tipo de preconceito nocivo que tenham herdado das gerações passadas —, estará reeducando os homens de amanhã. E a quem cabe  definir quais valores serão reforçados e incentivados, e quais serão abominados e desestimulados? Ao escritor responsável.

 

No momento em que o escritor se senta e pega a caneta — ou, nos dias de hoje, abre o programa no computador e se prepara para digitar —, é fundamental que saiba que não é um mero contador de histórias. Muito mais do que isso, ele se torna um formador de opinião e um modelador de condutas.

 

Uma pessoa após ler uma obra literária jamais será a mesma que era antes de realizar a leitura. Mesmo que ela não goste do que leu, mesmo que diga e até aparente responder com indiferença a ele, algo do texto certamente permanecerá nela. E ela reagirá a e agirá com esse “algo”, ainda que não perceba. Cabe ao autor, pois, tentar prever o que será esse “algo” que acompanhará o leitor depois do contato com seu texto. Cabe a ele preocupar-se com isso, pensar eticamente a respeito, antecipar a reação do leitor e pensar o que está ensinando através de sua obra. Todo escritor é um professor que, indiretamente, educa para a vida.

 

 

 

E na verdade a responsabilidade do autor vai um pouco além. Há, ainda, a questão do vínculo emocional que o leitor pode vir a criar com o texto. Só nunca se apaixonou por uma personagem quem nunca leu nada. Aliás, não há coisa pior do que ler um romance ou um conto e permanecer apático ao protagonista, ou ler um poema e não esboçar reação nenhuma — nem mesmo negativa — ao eu-lírico. O bom escritor busca cativar o leitor, busca criar personagens carismáticas, que mexam com as emoções de quem ouve ou lê suas histórias. O bom poeta busca fazer com que as pessoas sintam a emoção do eu-lírico, busca fazer com que elas chorem, sorriam, se revoltem ou se alegrem com ele. Mas ele — quer tenha escrito em prosa, quer em versos — deve arcar com a responsabilidade de seu êxito. E aqui sim cabe a frase da amada raposinha de nosso Pequeno Príncipe: “tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas”.

 

Pesquisas na área da psicologia já demonstraram que muitas vezes o vínculo emocional que a pessoa cria com uma personagem fictícia é tão forte que ela chega a modificar sua própria personalidade para ficar mais parecida com a personagem que ama ou admira. Não que ela o faça conscientemente: simplesmente acontece. Principalmente em se tratando da literatura infanto-juvenil. O leitor dessas obras está numa fase em que ainda não descobriu ao certo quem ele é e qual é o seu papel no mundo. Nessa idade, a personagem fictícia se torna para ele, em muitos casos, muito mais que um simples “herói” ou exemplo de vida. Ela se torna uma espécie de “amigo imaginário”, e seu papel na construção da personalidade da criança ou do adolescente pode ser tão fundamental quanto o dos amigos “de carne e osso”.

 

Textos literários e textos informativos: como incluí-los na aprendizagem

 
Neste ponto quero fazer uma ressalva para que o leitor não me interprete mal: não estou de maneira alguma sugerindo aqui que o escritor assuma uma posição moralista ou que deixe de fora de sua obra os aspectos negativos da realidade do ser humano e do mundo. Não. Esse tipo de censura seria, além de hipócrita, maléfica e resultaria em grande perda para o universo literário. O que estou dizendo aqui é apenas que o bom autor — o responsável — deve manter sempre em mente que não apenas sua arte deve, sim, imitar a vida, mas que também a vida imitará sua arte.
Assim, ser escritor não é tão fácil quanto muitos parecem pensar. É um papel que exige muita responsabilidade. E nenhum de nós quer acabar como Goethe, carregando nas costas a culpa pela morte de dezenas de jovens. Sim, culpa, porque esta é filha da responsabilidade e gosta de assumir seu lugar quando ela falta. Por que, então, se arriscar? Por que alguém aceitaria um fardo tão pesado? Afinal, como disse Bakhtin, “é mais fácil criar sem responder pela vida e mais fácil viver sem contar com a arte”. Nesse caso, por que tantas pessoas escolhem se dedicar à literatura?

 
Vou lhe dizer por que: ser escritor é, acima de tudo isso, um privilégio. Não há nada melhor que saber que o que fazemos toca o coração das pessoas. Não há nada mais gratificante que saber que nós podemos, através de nossas palavras, tornar o mundo delas melhor, dar-lhes escapismo, ajudar-lhes a suportar a vida cotidiana, que às vezes tanto nos castiga. Isso, caro leitor, compensa todo o resto. É por isso que amamos o que fazemos. E é por isso que continuaremos a escrever, a brincar com as palavras e a assumir todos os riscos. Porque vale a pena.

 

*Andressa Andrade é universitária do curso de Letras Português-Inglês da Universidade Estadual de Goiás.

Revista Conhecimento Prático – Literatura Ed. 60