A responsabilidade do educador

Pensar a ação de educar nos faz rever o próprio termo fazer. É ele que nos inspira a buscar e a refletir a prática do educador.

Por João Carlos Martins* e Lucilla Pimentel** | Fotos: Shutetrstock | Adaptação web Caroline Svitras

 

De origem latina, facere, o fazer apresenta vários significados, dentre eles: executar, criar, inspirar, transformar, causar, vir a ser, pôr-se a caminho… O fazer, por si só, indica a existência de ação em movimento, e quando se trata de educação, é o exercício de ensinar, ato planejado e criado com a intenção de ver em transformação aquilo que se transmite.

 

As mudanças contínuas da cultura atual, mergulhadas em avanços dos multimeios e da revolução tecno-científica, vêm exigindo do educador um novo olhar para si mesmo, para a sua prática, para o modo como percebe e encara o mundo social e tecnológico, autor de outros paradigmas e invasor do espaço da sala de aula. Por isso, seu fazer pedagógico requer outras posturas porque se vê às voltas com novos desafios. Fica assim nosso convite ao leitor para uma reflexão sobre a prática do ato intencional de olhar, sobretudo daquele que antecipa a ação pedagógica para que ela seja cada vez mais comprometida, consciente e eficaz.

 

Mas que olhar é esse que carece de (re) significação? É o olhar cansado da mesmice, da ação rotineira, ultrapassado, desviante, preconceituoso, indiferente, que exclui, se afugenta da mirada mais profunda e atualizada do espaço escolar; aquele que dá ênfase aos conteúdos e resultados, ignorando o protagonista da aprendizagem: o aluno.

 

– O que espera de mim quando me olha, quando se deixa seduzir pelas minhas palavras e por este meu olhar?

 

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Ressignificar o olhar do educador é, em primeira instância, uma provocação: o de ultrapassar o ver mecânico e desinteressado para ser um olhar reflexivo, disponível, peregrino, atento, pesquisador, inquieto, de empatia, resiliente, coadjuvante primordial na tarefa de educar. É com esse olhar que o educador acolhe e inclui todo e qualquer aluno no seu espaço maior de convivência, de trocas, de confrontos e conflitos, de negociações, de conexões contínuas com reelaborações e experiências: a sala de aula. É com o olhar renovado, cada vez mais curioso, interessado e sábio, porque descobre sinais necessários para estabelecer interfaces com a realidade, que o educador se põe a caminho, estabelecendo metas de mediação entre os objetos do conhecimento e aquele que aprende. Nessas tarefas, olhar e escuta se irmanam e suscitam a questão: “Que tipo de aluno/cidadão quero formar?” E na sua ação-reflexão-ação, que precisa ser diária, o ajudam a pensar:

– Que aluno é este que meus olhos contemplam, que se coloca diante de mim com expectativas e esperanças, e aquele outro, desatento, alheio, prisioneiro de sua imaginação e de seus próprios sonhos?

– Que aluno é esse que não aprende?

 

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O toma como objeto de investigação?

 

É com o olhar que o aluno se presentifica e se deixa capturar pelo fascínio de ser descoberto, reconhecido e incluído como pessoa humana no mundo social e dos saberes, pelas mãos do educador. Portanto, olhar o aluno é entender nessa ação a existência de um processo interativo, de provocação e construção de histórias conjuntas, que se interconectam e não deveriam seguir vias paralelas.

 

A sala de aula – entendida aqui como qualquer que seja o espaço escolar ou fora dele no qual se tem a intenção de educar – é o lugar da prática pedagógica e vem desafiando o educador a um saber fazer cada vez melhor. Há tempos deixou de ser o lugar do “douto e do ignorante”, para dever ser um lugar de ensino e de aprendizagem de qualidade, onde o educador abre espaços para a autonomia no pensar de seus alunos; permite que abandonem o anonimato para ganhar autoria; neles desperta sentido no sem sentido; rompe com hiatos entre teorias e práticas; anuncia possibilidades de ações significativas; articula informações; reagrupa o que se encontra disperso, confuso e desarticulado, e ele próprio se permite reaprender a arte de ensinar.

 

Para Dumerval T. Mendes, o educador é um ser complexo que assume dimensões diversas, especialmente a de professor. O educador não tem uma tarefa profissional em sentido estrito: suas funções básicas se desenvolvem intrinsecamente entre o agir acionando fins, valores e objetos, e o fazer modificando o homem concreto. A Educação é uma prática interseccionada dialeticamente pela teoria, mediante a aproximação filosófica, científica e artística, na medida dos interesses, das necessidades e das opções da sociedade e do Estado, em que se incluem o indivíduo, os grupos, as instituições e as classes como sujeito social, cultural, político e econômico. Os sujeitos são o educador e o educando, dentro das circunstâncias historicamente estruturadas.

 

É também no cenário escolar que os estudantes estão respondendo ao tempo em que estão vivendo, acelerado, de mudanças e de incertezas, de novas interpretações de valores que trazem reflexos em toda dinâmica relacional, impondo outros modelos de comportamento. Por isso, não raro, encontramos o olhar entristecido, de espanto e de indignação do educador ante a indisciplina de seus alunos, muitas vezes carregada na tinta da agressividade. No entanto, ele tem sido cobrado a lhes dar parâmetros para o embate com a realidade da vida, o que significa ter de contribuir em prepará-los para um convívio melhor em sociedade.

 

Por isso, esta reflexão sobre o olhar presente no ato educativo não pode se prender ou se limitar à revisão de competências relacionadas ao pedagógico e aos conteúdos que o educador ministra. Ela necessita de maior tempo-espaço de discussão, porque trata de desvendar essa realidade que está aí para ressignificar, também, o papel social e o compromisso de cada um com a dimensão ética, a dos valores sociais, para validar a disciplina de todos, tendo como regulador o próprio grupo, tanto o dos alunos quanto o dos educadores.

 

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É nesse espaço – sala de aula – das mais variadas relações, espelho da vida comunitária e em sociedade, que as novas tecnologias da comunicação estão marcando sua presença e seus efeitos. Reconhecendo, então, que a cultura atual é a imagética, uma das estratégias que vem sendo adotada é a de empregar ferramenta multimídia para o incremento dos conteúdos específicos e das propostas pedagógicas do educador, como o uso da internet e do celular para análise de imagens fixas ou em movimento – fotografias ou audiovisuais, como as cinematográficas, inclusive na criação de vídeos. No entanto, para que tenham lugar no trabalho pedagógico, é essencial que tais recursos conversem com questões-chave: quando? como? por que? usá-los, e abrir espaço para que a inovação esteja presente no campo investigativo, instigando reflexões além do volume conhecido de informações trazidas pelos alunos. Portanto, cabe ao educador o papel provocativo na construção de um olhar atento e crítico do educando.

 

 

Estas afirmações sublinham a importância de uma compreensão ampla do caráter interdisciplinar que as tecnologias promovem, da necessidade de o educador não ter olhos exclusivos para conteúdos desvinculados de um contexto do qual todos nós estamos inseridos. Isto significa que, ao tratarmos da prática pedagógica e do olhar do educador, essa questão envolve um ensinar a olhar, o aguçar a sensibilidade, contribuir para que o aluno ressignifique aquilo que vê, pelo fato mesmo de que as imagens, cinematográficas ou não, reproduzem sempre a condição humana: suas fragilidades, suas angústias, mas também seus poderes e suas criações. Olhar o aluno como verdadeiro protagonista da aprendizagem, como parte de cada um de nós, educadores, eis o desafio! O que falo, faço, motivo e suscito abre o canal comunicativo, tira-o do sono da ignorância, desperta-o para o saber… E instiga-o a abrir os olhos também!

 

 

* Prof. Dr. João Carlos Martins e Profa. **Ms. Lucilla da Silveira Leite Pimentel, O fazer pedagógico – (re) significando o olhar do educador. Rio de Janeiro: WAK Ed., 2009.

Adaptado do texto “O fazer pedagógico: (re) significando o olhar do educador”

Revista Conhecimento Prático – Literatura Ed. 60