A presença de Émile Zola no Brasil

Capítulo de uma história controversa

Por Maurício Silva* | Fotos retiradas da revista | Adaptação web Caroline Svitras

Ainda está por se fazer um estudo acurado acerca da presença de Émile Zola no Brasil. Sabe-se que o célebre romancista francês, autor de Germinal (1885), imortalizado nas telas por Gerárd Depardieu, em 1993, deixou marcas significativas na literatura brasileira, exercendo em nossos autores uma influência que pode ser comparada a de outros conhecidos compatriotas franceses, como Anatole France, François Chateaubriant ou Charles Baudelaire.

 

É certo também que, na opinião de muitos críticos, tratou-se de uma influência deletéria, prejudicial à nossa “evolução” literária, mas essa não é uma opinião unânime, talvez nem mesmo majoritária. Pejorativa ou não, o fato é que Zola exerceu influxo decisivo em nossas letras, via de regra caudatárias das inovações estéticas provenientes da Europa.

 

 

Incidência sobre a produção estética

Lido, traduzido e discutido nos mais diversos círculos literários e intelectuais brasileiros, Zola revela, desde o primeiro instante, considerável incidência sobre nossa produção estética, da qual podemos apontar aqui apenas alguns de seus aspectos, ressaltando marcas que teria deixado tanto em nossa vida literária quanto em nossa própria literatura.

O Realismo mágico de Franz Kafka

 

É o que nos indica, por exemplo, o crítico e historiador pernambucano José Maria Bello, que em seus Novos Estudos Críticos, afirma ter sido o “naturalismo de Zola” uma tendência que fizera discípulos por toda parte, tornando-se “moda exclusiva” ainda em fins do século XIX. De fato, essa presença constante do romancista francês no Brasil teria causado, na mesma proporção, não apenas a admiração incondicional de alguns escritores nativos, como também repúdio e crítica contumazes, a ponto de um crítico exigente como José Veríssimo — em seu póstumo Letras e literatos (1936) — lamentar que, entrada a segunda década do século XX, sua figura continuava viva e atuante, como comprovam alguns romances aqui produzidos, que vão de Redenção (1914), de Veiga Miranda, a Rei Negro (1914), de Coelho Neto, este último responsável, segundo o mesmo crítico, por ressuscitar anacronicamente o escritor francês. Veríssimo, aliás, podia ter-se lembrado de outros títulos do mesmo ano, como o curioso Aves de Arribação, desse seguidor determinado da estética de Zola que foi o cearense Antônio Salles.

 

Embora eleito, em 1908, o primeiro sócio correspondente de nossa recém-fundada Academia Brasileira de Letras, Émile Zola não foi, como estamos vendo, uma unanimidade literária nestas distantes terras no continente latino-americano. Entre os que repudiavam sua presença entre nós, encontram-se desde conhecidos críticos literários, com Araripe Júnior, que não deixava escapar oportunidades de atacar o famoso romancista, até autores de obras pouco lembradas por nossa historiografia literária, como a do quase desconhecido poeta Castro Rebello Júnior, que em seu O Pseudo-Realismo (1883), ataca ferozmente os autores realistas — Zola incluído —, defendendo uma estética passadista e romântica: “Que viva Zola, que viva Dumas filho, / Mas que Feuillet não morra”, dizia o autor baiano.

 

A publicação de ‘A carne’ — Discórdia

Essa posição que, ao menos no trecho acima transcrito, revela uma atitude relativamente conciliatória, adquire um tom mais incisivo em outras obras que abordam, ainda que en passant, a incidência de Zola em nossa literatura. Dos escritores mineiros, temos pelo menos dois exemplos de como a presença do autor do polêmico Thérèse Raquin (1867) não foi bem aceito entre nossos autores e intelectuais. Em seu romance Vida Ociosa (1920), Godofredo Rangel expõe uma passagem em que o protagonista da história, comentando uma determinada paisagem, revela uma relação com a figura de Zola que podemos considerar um tanto pejorativa: “pode ser belo — declara — mas monótono e repisado como uma descrição de Zola”. Mais contundentes foram os ataques sofridos por Zola na ocasião de uma discórdia ocorrida no final do século XIX em São Paulo: em 1888, por ocasião da publicação do romance A Carne, de Júlio Ribeiro, o padre português Senna Freitas, nas páginas do Diário Mercantil, atacou severamente o livro, com palavras que se referem negativamente à figura de Zola, seu suposto modelo: “do naturalismo excrementício, […] depois sobretudo que Zola caiu nesse subjetivismo realista que tudo concilia com a tal escola, até o extravagante, o inverossímil e o absurdo”; e acrescenta, referindo-se ao romance A Carne: “podia ser naturalista e indecente, como a maior parte dos [romances] de Zola, provisoriamente A Carne tenho-a por indecente menos naturalista”.

 

O episódio é particularmente importante, já que inaugura o capítulo de admiradores do romancista francês no Brasil, uma vez que Júlio Ribeiro efetivamente dedicou seu romance a Émile Zola, além de ter-lhe escrito uma carta em que confessava sua admiração pelo autor da famosa série Les Rougon-Macquart (1871-1893). Portanto, mais apreciado do que repudiado em solo brasileiro, Zola teve por aqui, na passagem do século XIX para o XX, uma gama enorme de leitores.

 

Um dos mais conhecidos foi Euclides da Cunha, que em carta datada de agosto de 1892 a Reinaldo Porchat (advogado e político paulista, que se tornaria o primeiro reitor da Universidade de São Paulo), não hesitava em afirmar que considerava La Débâcle (1892) — penúltimo romance da série Les Rougon-Macquart — o melhor romance de Zola; um mês depois, escrevendo para o mesmo destinatário, Euclides lhe sugere a leitura de Lás-Bas (1891), do francês Huysmans, afirmando se tratar do “melhor discípulo de Zola”. Foi, aliás, neste mesmo ano de 1892 que Tobias Barreto entrevistou Zola para o Jornal do Comércio, considerado o primeiro contato público de um intelectual brasileiro com o romancista francês.

 

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Adaptado do texto “A presença de Émile Zola no Brasil”

*Maurício Silva é doutor em Letras Clássicas e Vernáculas pela Universidade de São Paulo e professor dos cursos de Letras e Educação na Universidade Nove de Julho.