A poesia lírica

e algumas reflexões

Por Dalberto Teixeira* | Foto: Shutterstock | Adaptação web Caroline Svitras

O que é a poesia? São muitos os poetas e críticos que tentaram responder a essa pergunta. Mário Quintana, inclusive, ao ser questionado sobre o assunto, confessa que, apesar de estar há tanto tempo fazendo poesia, ficou embaraçado ao dar uma resposta.Somente para ter uma ideia, vejamos algumas definições dadas por poetas e críticos e citadas por Pedro Lyra em seu livro Conceito de Poesia (São Paulo: Ática, 1996, p.5-6):

“mensagem voltada para a mensagem” (Roman Jakobson)

“um fingimento deveras” (Fernando Pessoa)

“design da linguagem” (Décio Pignatari)

“se faz com palavras e não com idéias” (Mallarmé)

“emoção recolhida com tranqüilidade” (Wordswrth)

“palavras olhando para si mesmas” (Cecília Meireles)

“ uma viagem ao desconhecido” (Maiakovski)

“ o que o meu inconsciente me grita” (Mário de Andrade)

“permanente hesitação entre som e sentido” (Paul Valery)

“ a liberdade da minha linguagem” (Paulo Leminski)

“a descoberta das coisas que eu nunca vi” (Oswald de Andrade)

“ a ida ao desconhecido para encontrar o novo” (Baudelaire)

A essas definições poderíamos acrescentar a de Rabelais, segundo a qual “a poesia é a virtude do inútil”, ou um conjunto de i-nutilidades, na expressão de Manoel de Barros.

 

Os heterônimos de Fernando Pessoa

 

Segundo essa visão, a poesia não serviria para nada, e é justamente por isso que é poesia. Se servisse para alguma coisa útil, como comprar, vender, trocar, não seria poesia, seria uma moeda, um objeto, um instrumento ou outra coisa qualquer. A poesia basta a si mesma, não é comunicação, mas expressão. Não comunica nada, não ensina nada, não é uma filosofia, uma ciência, uma doutrina.

Isso não significa que a poesia não seja uma forma de conhecimento, mas trata-se de uma forma de conhecimento muito específica, singularizada. Existem várias formas de conhecimento, fornecidas pelos mais diversos ramos do saber: a ciência, a filosofia, a religião. Uma depende da pesquisa, da investigação, outra depende da reflexão, outra depende da fé e assim por diante. A poesia também é uma forma de conhecimento, mas um conhecimento poético da realidade.

O que significa esse conhecimento poético da realidade? Vejamos: nós conhecemos apenas uma parcela da realidade, que apreendemos pela razão, pela reflexão, pela investigação. Dessa forma, a nossa apreensão do mundo se faz por meio de conceitos. Em vez de sentir o mundo, nós “pensamos” o mundo. O “pensar” substituiu o “sentir”.

Assim, a função da poesia é a de resgatar a nossa percepção de mundo e tornar sensível, erótica a relação com os seres e as coisas. E isso somente se consegue por meio de uma desfamiliarização do olhar.

 

Poesia para quê?

 

Nesse sentido, vale citar uma passagem de um ensaio intitulado A arte como procedimento, do formalista russo Chklovski: “E eis que para devolver a sensação de vida, para sentir os objetos, para provar que pedra é pedra, existe o que se chama arte”. Trata-se de olhar para as coisas como se as estivéssemos vendo pela primeira vez, ou, como diria Oswald de Andrade: “Aprendi com meu filho de oito anos que a poesia é a descoberta das coisas que eu nunca vi”.

Isso nos leva a descobrir uma outra realidade, que não está condicionada pelos nossos hábitos, pelas convenções, pelas ações repetitivas. Trata-se de uma realidade que não está além, mas aquém. É anterior à linguagem, aos conceitos, à nomeação.

Vejamos: as origens da poesia e da arte de uma maneira geral remetem a um mundo mítico e tem ligações com o modo de o homem primitivo e a criança conceberem o mundo.

Por exemplo: como o homem primitivo concebia o mundo? Por meio de analogias.Assim o sol seria uma bola de fogo, as estrelas pedras brilhantes, o vento um espírito e assim por diante. Por isso que o poeta se assemelha muito com o homem primitivo, com a crianças, porque a percepção do mundo não se faz por meio de conceitos, mas por meio de imagens

Nesse sentido, vale citar um poema em prosa de Mário Quintana em Literatura Comentada. Mário Quintana (São Paulo: Nova Cultural, 1988, p. 123-124), que ilustra muito bem as duas concepções de mundo, a convencional e a poética:

Quando pouso os óculos sobre a mesa para uma pausa na leitura de coisas feitas, ou na feitura de minhas próprias coisas, surpreendo-me a indagar com que se parecem os óculos sobre a mesa.

A poética de Vinicius de Moraes

 

Com algum inseto de grandes olhos e negras e longas pernas ou antenas?

Com algum ciclista tombado?

Não, nada disso me contenta ainda. Com que se parecem mesmo?

E sinto que, enquanto eu não puder captar a sua implícita imagem-poema, a inquietação perdurará.

E, enquanto o meu Sancho Pança, cheio de si e de senso comum, declara ao meu Dom Quixote que uns óculos sobre a mesa, além de parecerem apenas uns óculos sobre a mesa, são, de fato, um par de óculos sobre a mesa, fico a pensar qual dos dois – Dom Quixote ou Sancho? – vive uma vida mais intensa e portanto mais verdadeira…

E paira no ar o eterno mistério dessa necessidade da recriação das coisas em imagens, para terem mais vida, e da vida em poesia, para ser mais vivida.

Nesse texto , um simples objeto, um par de óculos, que tem uma função unicamente utilitária, ou seja, para enxergar melhor, perde a sua função instrumental e se transforma num objeto de contemplação estética.

 

“A Máquina do Mundo”

 

Estamos, assim, diante de um conhecimento poético da realidade, ou seja, o conhecimento que o homem primitivo tinha do mundo e a criança possuía antes de se tornar adulta. Assim que nos tornamos adultos, ficamos cada vez mais racionais e começamos a perder o contato sensível com tudo o que nos cerca. É o domínio da razão, da lógica, da busca pela verdade.

Mas a verdade destrói o belo, porque o belo está nesse olhar sensível que lançamos para os seres e as coisas. Por exemplo, dizer que a lua é a enamorada do sol encanta mais do que dizer que ela é o satélite da terra.

O mundo é belo antes de ser verdadeiro, porque o conhecimento poético precede o conhecimento racional dos objetos. Nesse sentido, vale citar essa frase de Nietzsche: “A beleza é melhor que a verdade”.

Então, o que faz a poesia? Por meio da poesia, o poeta/artista regressa a um mundo anterior ao mundo que conhecemos por meio da ciência. Trata-se de um mundo em sua pureza, em sua concretude, livre de conceitos, de pré-conceitos, de ideologias, de racionalismos.

A partir dessas considerações, podemos arriscar uma afirmação sobre a função da poesia: reencantar o mundo por meio da palavra poética.

Para encerrar, vai aqui um poema de Manoel de Barros:

MIRÓ

Para atingir sua expressão Fontana
Miró precisava de esquecer os traços e as doutrinas que aprendera nos livros.
Desejava atingir a pureza de não saber mais nada.
Fazia um ritual para atingir essa pureza: ia ao fundo do quintal à busca de uma árvore.
E ali, ao pé da árvore, enterrava de vez tudo aquilo que havia aprendido nos livros.
Depois depositava sobre o enterro uma nobre mijada florestal.
Sobre o enterro nasciam borboletas, restos de insetos, cascas de cigarra etc.
A partir dos restos Miró iniciava a sua engenharia de cores.
Muitas vezes chegava a iluminuras a partir de um dejeto de mosca deixada na tela.
Sua expressão Fontana se iniciava naquela mancha
O escuro o iluminava.

*Dalberto Teixeira é mestre em Literatura Brasileira e professor da FUNEC.  (dalbertoprofessor@yahoo.com.br)

Revista Conhecimento Prático – Literatura Ed. 49