A poesia de Ferreira Gullar

A obra poética de Ferreira Gullar é um vigoroso exemplo de unidade temático-imagética capaz de encontrar equilíbrio em meio à diversidade de concepções

Por Roberto Sarmento Lima* | Ilustrações: Criativo | Adaptação web Caroline Svitras

Para não dizer que não falei de peras, afirmo que há, sim, na obra poética do poeta maranhense Ferreira Gullar, muitas delas. Não só peras, mas também bananas, maçãs e flores, elementos da natureza que sempre povoaram o imaginário da poesia brasileira, desde os nativistas barrocos Manuel Botelho e Frei Manuel de Santa Maria Itaparica, responsáveis por um inconfundível sentimento nativista, próprio de quem já começa a pensar nas diferenças entre o país novo e a colonização europeia. Em Ferreira Gullar, porém, não há esse vezo inspirador, esse encantamento telúrico. O que, na verdade, excita a imaginação do poeta contemporâneo é a utilização dessas imagens para dizer o quanto somos precários (até aí tudo bem, flores e frutos são frágeis mesmo) e vivemos — aí vem a perplexidade — completamente despudorados, prestes a cair na ignomínia, da qual, se somos vítimas, ao mesmo tempo precisamos para viver.

A perversão do açúcar

Afinal, quem tem vergonha morre de fome, diz o dito popular. Comamos, pois, as maçãs e as bananas que estiverem expostas sobre a mesa. Por isso é que, como informa outro dito igualmente famoso, é preferível lançar mão daquilo que pertence ao outro — aí, sim, um traço legitimamente nacional, presente na nossa vida social e política — a perecer entregue à própria sorte, em geral adversa, sobretudo quando as leis não chegam a proteger devidamente o cidadão que venha a precisar delas. Nesse caso, ter consciência do erro e da falha social não nos redime. Pelo contrário: aproveitemos gostosamente o açúcar, nesta suave manhã, mesmo que saibamos que a sua produção é deletéria e esmaga homens de até 27 anos, condenados a viver em ambientes escuros e insalubres:

“Em usinas escuras,
homens de vida amarga
e dura
produziram este açúcar
branco e puro
com que adoço meu café
esta manhã em Ipanema.”

 

O mundo assim dividido sob o capitalismo — uns trabalham para outros aproveitarem a vida — é coberto pelo cinismo, quase crueldade, do eu lírico que Ferreira Gullar, corajosa e despudoradamente, ousou construir. Ora, poeta contemporâneo não tem pruridos de bom-moço. E, como quem não quer nada, tudo diz, tudo faz passar pela boca, pela língua, pelo paladar — pela boca, sim, mas de quem pode socialmente consumir essa iguaria refinada e, assim, ver no açúcar, que veio da cana bruta, a doçura e pureza de um mundo que não existe, pelo menos para quem efetivamente trabalhou nesse infame circuito produtivo:

“Vejo-o puro
e afável ao paladar
como beijo de moça, água
na pele, flor
que se dissolve na boca. Mas este açúcar
não foi feito por mim.”

 

Frei Itaparica, ou Frei Manuel de Santa Maria Itaparica (1704-c. 1768) foi um frade franciscano e um poeta barroco brasileiro, com influência de Camões. | Foto: Wikipedia

Se uns produzem e outros não, o mundo aponta necessariamente para a noção de falta, em dois sentidos básicos, que terminam por complementar-se. À falta, no sentido que essa palavra possa ter de privação e carência (aí estão os “homens que não sabem ler e morrem de fome aos 27 anos”), corresponde, pois, outra falta ainda, entendida como mazela social realisticamente assumida (“O branco açúcar que adoçará meu café nesta manhã de Ipanema não foi produzido por mim nem surgiu dentro do açucareiro por milagre”). Tudo se justifica em ambientes em que domina uma superposição de sentidos que, contrários por si sós, uma mesma palavra comporta. Se o açúcar é suor e lágrima para uns, não deixa de ser, para outros, como “água na pele” ou “flor que se dissolve na boca”. Falta: não existência, escassez, supressão de direitos; falta: descaso para com a humanidade do homem trabalhador. A primeira falta prepara a segunda; o trabalho leva ao desfrute de quem não precisou trabalhar para desfrutar.

 

Esse poema, parte da coletânea Dentro da Noite Veloz, publicada em 1975, quando Ferreira Gullar tinha 45 anos de idade, está no meio de uma caminhada (para quem viveu ao todo uma vida de oitenta e seis anos) e de um projeto poético que — por meio de eloquentes metáforas alimentares — faz do riso cínico e do esgar um modo de interpretação da realidade brasileira.

 

Olhos e estômago

Estou falando de faltas e carências como o tema condutor de uma obra inteira de um poeta por vezes acusado de incoerências e erros táticos, enganos e retrocessos. A carência, sentida no mundo por Ferreira Gullar, desde, pelo menos, seu livro de 1954, A Luta Corporal, não é defeito técnico; é um projeto escritural. Paira no livro de juventude, portanto, forte sentimento crítico, uma completa perda de inocência naquele rapaz nordestino que migrou aos 21 anos para o Rio de Janeiro. Aos 24, lança esse que, para ele, seria seu primeiro livro de poemas (o primeiro, ainda em São Luís do Maranhão, Um Pouco Acima do Chão, de 1949, ele mesmo tratou de desmerecer).

 

 

Em A Luta Corporal parece ele ignorar, quase como em um gesto de acinte, os rumos de uma sociedade que, naquela década, estava querendo acertar o passo com a modernidade que anunciavam. Em 1956, Juscelino Kubitschek assumiria a Presidência da República, e o Concretismo criaria as condições para firmar a literatura nos rumos do desenvolvimento efusivo de então. Gullar, mesmo se embrenhando nessa vanguarda otimista, junto com os irmãos Haroldo e Augusto de Campos, líderes do movimento, não deixou de desconfiar de que tudo aquilo poderia ser tão somente uma fantasmagoria, animada e passageira, de um conceito de país — e que, possivelmente, logo se dissiparia tal impressão. Desde o início de sua produção poética, como se pode ver em A Luta Corporal, malgrado a pouca idade e experiência, Gullar se serve da metáfora da comida para espezinhar a vida corrente, algo que o acompanharia até o fim da vida:

 

“Nada vos oferto
além destas mortes
de que me alimento”

 

Augusto Luís Browne de Campos nasceu em São Paulo, em fevereiro de 1931. É tradutor, ensaísta, crítico de literatura e música; publicou em 1951 seu primeiro livro de poemas, O Rei Menos O Reino. | Foto: Divulgação/ Fernando Lazlo

A comida e a morte, passando pela boca, se confrontam nos versos. O que morre e mata é o que faz viver — parece uma palavra de ordem. Mas, ao contrário do que se espera na chamada vida real, esses opostos se igualam e se dão as mãos. Pois, se “flore um lado de mim”, continua o poeta, “no outro, ao contrário, de silêncio em silêncio me apodreço”. Não parece, leitor, uma antecipação do que Ferreira Gullar, anos mais tarde, dirá no poema “Traduzir-se”, contido no livro Na Vertigem do Dia, que reúne poemas escritos entre 1975 e 1980, quando ele estava perto de completar 50 anos de idade?

 

“Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo”

 

Apesar da dicção universalista, não lhe falta o particular gesto de reduzir as abstrações às metáforas da comida, do gosto, ainda mais em um país em que há tanta fome — de comida e de justiça. Esta é sem dúvida a marca imagética de Ferreira Gullar a percorrer toda a sua obra, imprimindo-lhe vigor e unidade:

“Uma parte de mim
almoça e janta:
outra parte
se espanta.”

 

Se Cecília Meireles se notabilizou pela linguagem evanescente das espumas e dos tecidos diáfanos, Ferreira Gullar mirou, antes, a parte baixa do corpo: o ventre, o estômago, não sem antes deixar passar pelos olhos agudos e pela boca os sentimentos. O que ele viu e degustou, desde sempre, foi esse duelo entre vida e morte, uma briga nos intestinos, a qual, enfim, se transforma em poesia. Assim é que Gullar transcende o elemento tipicamente social:

 

“Traduzir uma parte
na outra parte
— que é uma questão
de vida ou morte —
será arte?”

 

As peras que não cheiram

Bate no coração do poeta desde cedo uma insuperável inquietação que, se de início parece uma lição de controle das próprias emoções, vai se convertendo, ano a ano, poema a poema, em uma lição ampla de civismo, como ele diz no poema “Homem Comum”, da coletânea Dentro da Noite Veloz, durante o período plúmbeo da ditadura militar:

 

“Sou um homem comum
brasileiro, maior, casado, reservista,
e não vejo na vida, amigo,
nenhum sentido, senão
lutarmos juntos por um mundo melhor.”

 

Uma palavra que tem nítido pendor social — no momento em que se acendem as esperanças de um Brasil melhor — explicita um enorme senso de realidade que absorverá o poeta do Maranhão. Vindo de um ambiente de grande atraso material e econômico, a sua São Luís natal, Gullar foi testemunha, na província, do enlace de vida e morte como operações aliadas e até naturais, conforme o prova a prática do mandonismo no Nordeste. Mas também não o encantava o Rio, com sua exuberante topografia e vocação cosmopolita, com outro tipo de crueldade, a da cidade que, embora se civilizasse e crescesse industrialmente, excluía ainda os desvalidos. A aparente inocência da natureza-morta, como se lê no poema “Frutas”, em O Vil Metal, de 1960, não distrai o seu olhar precocemente maduro, visto que, se ao fundo da composição está o mar, motivo lírico eterno, se põe à sua frente, em primeiro plano, o fogo dilemático da existência. Fogo que, entendido na superfície como ardor juvenil ou calor doméstico, exorbita em perigo e convulsão social. Em suma — aquilo que queima, fere e mata também alimenta:

“Sobre a mesa no domingo
(o mar atrás)
duas maçãs e oito bananas num prato
de louça
são duas manchas vermelhas e
uma faixa amarela
com pintas de verde selvagem:
uma fogueira sólida
acesa no centro do dia.
O fogo é escuro e não cabe hoje nas frutas:
chamas,
as chamas do que está pronto e alimenta.”

 

As projeções ideológicas em um poema nem sempre são sentidas de imediato; às vezes são só intuídas. O poeta, atilado e sensível, já percebia os embates da realidade brasileira. Mesclam-se um atraso sem fim e um progresso que se alinhavava lentamente, sem poder negar ou anular a existência do próprio atraso que teima em não ceder, até hoje. No ar misturam-se, quase como forças cósmicas, o verde-amarelo brasileiro visto nas bananas e o vermelho das maçãs, agitação quente das ideologias que, historicamente, prometiam, como uma “fogueira sólida acesa no centro do dia”, a superação das contradições da vida material. Com as frutas no prato, bem que essas “duas manchas vermelhas” podem estar representando o cerne de um pensamento político de esquerda a cobrir a nação, prometendo salvar-nos de toda sorte de injustiça. “Duas manchas vermelhas”, vindas das maçãs, se confundem com a “faixa amarela” das bananas da República do Brasil. Ora, entre nós não há ideologia que seja pura.

 

Naquela década de 1950, Ferreira Gullar, ainda vanguardista, experimentalista, já se alimentava do calor da renovação e da esperança de um mundo menos cruel; sua arma era a poesia; e foi pelo verso que começou sua verdadeira “luta corporal”. Uma luta que estava apenas em seus inícios, em sua gestação: luta do corpo contra o espírito, algo que, nele, só tomaria vulto mais acentuado a partir de 1960, quando abandona a pesquisa vanguardista do verso, para, então, entrar num tipo de arte mais voltada para as questões sociais, de engajamento explícito. Tal virada de perspectiva valeu a Ferreira Gullar uma perseguição, depois de 1964, culminando com o seu autoexílio. Fora do país, ruminou sua arte, fazendo gritar as entranhas em um simples saborear de peras, tal como está dito em Poema Sujo, de 1976, quando vivia em Buenos Aires. Lentamente, a comida vai apodrecendo em sua poesia:

 

“Numa coisa que apodrece
— tomemos um exemplo velho:
uma pera —”

 

Ou seja, falando do tempo que “não escorre nem grita”, Ferreira Gullar ratifica e radicaliza a ideia que vem da sua juventude: tudo parece desembocar no fundo do “seu próprio abismo”, tudo “em lugar de virar luz vira escuridão”, e “o apodrecer de uma coisa é a fabricação de uma noite: seja essa coisa uma pera num prato seja um rio num bairro operário”. Finalmente, em 2010, no livro Em Alguma Parte Alguma, renovando a metáfora obsessiva das frutas e da imperiosa fome que urge ser saciada, Gullar se dobra à realidade. Ainda pode salvar-nos a arte, que, formalmente, se vista em sua radiosa autonomia, despoja o presente dos maus cheiros advindos da podridão. Foi quando Ferreira Gullar foi escapando cada vez mais do engajamento e caindo numa arte que proclama a si mesma, o que serviu para ser enxovalhado por segmentos da esquerda mais radical. A poesia, nele, se torna independente, mais livre das injunções históricas, embora a grande fome — temos fome de quê? — persista:

 

“a pintura, digamos é mentira
isto é:
uma pera
pintada
não cheira”

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*Roberto Sarmento Lima é professor doutor da Universidade Federal de Alagoas. Autor do livro O Narrador ou o Pai Fracassado: Revisão Crítica e Modernidade em Vidas Secas, publicado em 2015 pela OmniScriptum/Novas Edições Acadêmicas, em Saarbrücken, Alemanha. (sarmentorob@uol.com.br)

Adaptado do texto “Peras, maçãs e despudor em Ferreira Gullar”