A periferia na Literatura

Ao procurar traçar um breve panorama das imagens e recorrências da periferia na literatura brasileira, faz-se necessário estabelecer um corpus cuja constituição seja exposta de forma clara e precisa.

Por Glaucio Cardoso* | Foto: Shutterstock | Adaptação web Caroline Svitras

Se O Quinze e Vidas Secas podem ser considerados as obras fundamentadoras da vertente regionalista em nossa literatura, é com Grande Sertão: Veredas (1956) que ela atinge a sua maturidade. Fugindo ao panfletário que mais de uma vez contaminou a literatura regionalista, Guimarães Rosa dá um salto estilístico que, pode-se dizer, reinventa nossa tradição de modo equivalente ao que Machado de Assis fizera no século anterior. Mais ainda: na figura de Riobaldo o ser periférico deixa de ser mera vítima e ascende à condição de artífice de sua história, a qual cria ao narrá-la, um processo de verdadeira recriação. Vai ainda mais longe: decreta o fim do centro, engolfado pela periferia, em uma única frase: “O sertão é do tamanho do mundo”.

 

Contos de Machado de Assis

 

É ainda Rosa quem criará a mais radical experiência periférica no conto “A terceira margem do rio”, cuja análise isolada poderia ocupar toda a extensão que o presente texto já vai tomando e ir muito além. Dele diremos apenas que, ao narrar a história do chefe de família que passa a viver isolado em uma canoa sem nunca mais ir à terra, o conto aponta para a condição de insulamento determinante de nossa humanidade, sempre apartada embora sempre próxima.

 

Saltemos para o ano de 1977, e para as páginas de A Hora da Estrela, derradeiro presente de Clarice Lispector para a posteridade; digo derradeiro sem me esquecer de suas obras publicadas postumamente, mas levo em conta que a ausência física da autora deu-lhes antes um aspecto de atraso que de despedida. Em A Hora da Estrela vemos a nordestina Macabéa em seu desenraizamento mais cruel: vivendo na capital, ainda assim não deixa de estar excluída; transita pelo centro, ouve a Rádio Relógio que “dá cultura e hora certa” e tem a “honrosa” e “prestigiada” profissão de datilógrafa; entretanto, não passa de uma “rude compatriota retardatária” trazida “à civilização” (para me utilizar das palavras que expressavam o desejo euclideano), mas ainda assim massacrada pela mesma.

 

Cidade de Deus e Estação Carandiru

Mais um salto, desta vez de 20 anos exatos, e encontraremos a Cidade de Deus, de Paulo Lins, em cores fortes e em cenas que não foram sequer esboçadas na adaptação cinematográfica de 2002. Seja nas inúmeras cenas de estupro ou naquelas em que a violência desafia a credulidade, o leitor experimenta um descentramento tão desconcertante quanto familiar. Longe de representar um processo de demonização das comunidades periféricas, o texto de Lins propõe-se a problematizar as relações entre centro e periferia, questionando até mesmo a existência de uma fronteira entre estes dois espaços que, na prática e no texto, se confundem.

 

Cena de Cidade de Deus | Foto: Divulgação

 

A indicação da inexistência de uma divisão entre estas realidades, que já havia sido sinalizada pela frase de Rosa citada linhas atrás, será também rastreável nos relatos de Dráuzio Varella reunidos em Estação Carandiru (1999), no qual mesmo o isolamento físico dos indesejáveis não estabelece fronteiras distintas entre as camadas da sociedade.

 

Não deixa de chamar a atenção nestas duas últimas obras citadas os códigos de ética vigentes em meios historicamente taxados como amorais.

 

Um novo status começa a ser dado à periferia. Deixa de ser o lado de fora e passa a ser o lado a lado, podendo representar mesmo a salvação, como em Teatro (1998), de Bernardo Carvalho, romance no qual dois “atos” se misturam e se complementam mesmo quando se desmentem. No primeiro deles, o narrador é alguém que se refugia no país do qual seus pais fugiram. No segundo, desdobra-se em um interno de um hospício, que se torna guardião do grande segredo do livro. Em ambos se nota que, somente afastado do centro, ele pode encontrar segurança e algum tipo de redenção.

 

Outra ponta da linha do tempo
Wagner Moura | Foto: Divulgação

E assim, finalmente, chegamos à outra ponta desta nossa linha do tempo. E a ela chegamos com a necessidade de esclarecer um ponto importante: embora o título deste texto cite o personagem vivido por Wagner Moura nos filmes Tropa de Elite (2007/2010), minhas observações começaram pelo livro Elite da Tropa (2005), ao qual cheguei, confesso, depois de ter assistido à película que nele foi livremente inspirada.

 

 

O oficial do Batalhão de Operações Especiais (BOPE), que no filme ganha o nome de Carlos Nascimento, representará o ser periférico por excelência. Vejamos alguns porquês.

 

Sendo representante da força pública, é visto como estrangeiro pelas camadas da população que o veem como inimigo: para os pobres é o representante da autoridade do Estado, como o Soldado Amarelo que subjuga Fabiano em Vidas Secas. Para os traficantes (inclusive os da classe média) é o assassino adversário, que deve ser ludibriado e, se possível, eliminado. Para a elite pseudointelectualizada que infesta a sociedade, é o representante da opressão e do atraso. Menos quando se precisa dele para garantia de seu status quo.

 

Sendo o BOPE identificado como uma ilha de honestidade em meio ao mar de corrupção que define a força policial retratada, é excluído dentro da própria corporação; é quase palpável o abismo existente entre os caveiras (BOPE) e os fardas azuis (policiais comuns).

 

Ensino da literatura nacional

 

Sendo o representante da lei à serviço de um governo que não apenas tolera, mas principalmente valida a corrupção, é alguém indesejado e necessário, devendo, portanto, ser mantido sob controle e vigilância.

 

Tropa de Elite | Foto: Divulgação

 

Desse modo, configura-se sua condição de outsider, i.e., o indivíduo sem lugar na sociedade que o rejeita e ao mesmo tempo precisa de sua proteção; verdadeiro cavaleiro de armadura da modernidade a serviço da sociedade, apesar da sociedade e por vezes contra a sociedade.

 

E enquanto ao longo da história o inimigo da periferia fora identificado como a fome, a seca, o latifúndio, a burguesia etc., agora ele ganha (no filme) um único e totalizante nome: o sistema, verdadeiro leviatã que a tudo envolve. Quando já avançava na elaboração deste texto no qual procurei demonstrar que sem Os Sertões não haveria Elite da Tropa/Tropa de Elite, eis que o amigo e pesquisador Flávio Rangel me traz uma informação que só me enriqueceu: em 1897, quando os soldados cariocas retornaram da Guerra de Canudos, perceberam que a promessa feita pelo governo de entregar-lhes residências em caso de vitória não seria cumprida. Resolveram, então, tomar uma providência quanto ao caso e ocuparam uma região de morro no Rio de Janeiro; esta região passou a chamar-se “Morro da Providência” e mais tarde “Morro da Favela”, em referência a um dos morros junto aos quais a cidadela de Canudos fora construída, e que era coberto com uma planta popularmente conhecida com favela.

Só podemos pensar que Euclides estava certo ao dizer: “Canudos não se rendeu…”.

 

Para ler na íntegra garanta a sua revista Conhecimento Prático – Literatura clicando aqui!

Conhecimento Prático – Literatura Ed. 71

Adaptado do texto “Capitão Nascimento, o herói de Os Sertões”

*Glaucio Cardoso é Mestre em Literatura Brasileira pela UERJ, poeta, ensaísta. Autor de Enquanto Clara dormia (poesia), Sopros e outros poemas (poesia), Em defesa de um teatro espírita (ensaio) e La commedia è finita (poesia).