A mulher que escreveu a bíblia

A narradora e protagonista, para tentar solucionar um problema de relacionamento com o pai e com o homem que ama, procura ajuda de um terapeuta de vidas passadas. Ela se vê na corte do rei Salomão, envolvida em episódios bíblicos. Por ser feia e desejar o anonimato, é usado o adjetivo para nomeá-la.

Por Maria do Rosário Andrade Chaves | Fotos: Shutterstock | Adaptação web Caroline Svitras

 

Este artigo tem como foco analisar o livro A mulher que escreveu a Bíblia, de Moacyr Scliar, no que diz respeito à visão feminina no contexto em que a história se inscreve, na voz da narradora e personagem principal.

 

A fim de embasar teoricamente os pressupostos que norteiam a voz feminina como intermediária da narrativa, foram utilizados estudos e conceitos ligados à metalinguagem, ao dialogismo, ao humor e à carnavalização, teorias que se entrelaçam e se referem às relações de sentidos entre os enunciados, em que a palavra é sempre perpassada pela palavra do outro, dialogando com outras palavras, de acordo com as concepções desenvolvidas por Bakhtin (2011).

 

 

A escrita e a escritura

Nessa obra é recorrente o uso da metalinguagem, principalmente quando a narradora se refere à palavra, à escrita, ao texto, seus diálogos e sentidos, tendo em vista que a escrita havia mudado sua vida e lhe proporcionado uma forma de poder e de libertação. “Bastava-me o ato de escrever. Colocar no pergaminho letra por letra, palavra após palavra, era algo que me deliciava. Não era só um texto que eu estava produzindo; era beleza, a beleza que resulta da ordem, da harmonia”.

Sobre seu relacionamento com o livro e Salomão, ela medita:

“Escrever aquele livro não seria só uma realização para ele, seria uma realização para mim também. Templo eu jamais haveria de construir; mas a obra de que ele cogitava estava, sim, ao meu alcance, ainda que eu levasse toda a vida a escrevê-la. Nesse empreendimento estaríamos juntos, ele e eu. (…) O texto seria o refúgio em que habitaríamos, só ele e eu.”

 

Ao primeiro narrador (o terapeuta) também pode ser observado o uso do recurso metalinguístico, quando ele busca a si mesmo na história, “procuro-me nos nomes próprios e nos nomes comuns, procuro-me nos verbos e nos advérbios, nos pontos, nas vírgulas, nas reticências. E não me acho. Assim como não me acho em lugar nenhum. Estou perdido”.

 

 

O humor nessa obra é uma consequência da carnavalização que, segundo Bakhtin (2011), é a transposição do espírito carnavalesco para a arte, em que a palavra é representada e bivocal, em que se misturam dialetos, jargões, vozes e estilos, resultando em um romance polifônico.

 

Moacyr Scliar | Foto: Divulgação

 

Segundo Bakhtin (2015), entre as principais características do efeito carnavalesco, destaca-se o questionamento acerca da verdade, cujo conteúdo é a aventura de ideias; as discussões sobre questões relacionadas à morte e ao sentido da vida; a constituição do fantástico; o gosto pelas infrações às normas estabelecidas de conduta e de fala, em que surgem discursos cínicos, profanações desmistificadoras do sagrado e a presença de contrastes violentos. A linguagem não respeita limites, tornando-se obscena e excêntrica, permitindo que o reprimido possa ser exposto, tornando central aquilo que é marginal.

 

Outra marca relevante do efeito carnavalesco é a imagem grotesca do corpo em oposição à clássica, uma vez que no lugar de um corpo retratado pela beleza e proporções perfeitas, a narradora e personagem principal tem um rosto feio, com protuberâncias salientes, fato que sempre a deixara em uma condição marginalizada na comunidade em que vivia e, posteriormente, na corte do rei Salomão. Por outro lado, sua feiura lhe abriu caminhos, foi alfabetizada e se apaixonou pela escrita. De forma que a subversão, por meio do efeito carnavalesco, utiliza o poder da escrita dado a uma mulher.

 

Adaptado do texto “A voz feminina em a mulher que escreveu a bíblia, de Moacyr Scliar”

Para conferir na íntegra, garanta sua revista Conhecimento Prático – Literatura Ed. 69

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